Portugal

Uma mesa cheia
de ironia

Cordeiro à Longfellow
Foto: Alexandre Belém/JC Imagem

Por Flávia de Gusmão
lgusmao@jc.com.br

Se o leitor é rapaz e dado ao gênio melancólico, imagina que “Miss Dollar é uma inglesa pálida e delgada, escassa de carnes e de sangue, abrindo à flor do rosto dois grandes olhos azuis e sacudindo ao vento umas longas tranças louras. A moça em questão deve ser vaporosa e ideal como uma criação de Shakespeare; deve ser o contraste do roast-beef britânico, com que se alimenta a liberdade do Reino Unido. Uma tal Miss Dollar deve ter o poeta Tennyson de cor e ler Lamartine no original; se souber o português deve deliciar-se com a leitura dos sonetos de Camões ou os Cantos de Gonçalves Dias. O chá e o leite devem ser a alimentação de semelhante criatura, adicionando-se-lhe alguns confeitos e biscoi- tos para acudir às urgências do estômago. A sua fala deve ser um murmúrio de harpa eólia; o seu amor um desmaio, a sua vida uma contemplação, a sua morte um suspiro.

Suponhamos que o leitor não é dado a estes devaneios e melancolias; nesse caso imagina uma Miss Dollar totalmente diferente da outra. Desta vez será uma robusta americana, vertendo sangue pelas faces, formas arredondadas, olhos vivos e ardentes, mulher feita, refeita e perfeita. Amiga da boa mesa e do bom copo, esta Miss Dollar preferirá um quarto de carneiro a uma página de Longfellow, coisa naturalíssima quando o estômago reclama, e nunca chegará a compreender a poesia do pôr-do-sol. Será uma boa mãe de família segundo a doutrina de alguns padres-mestres da civilização, isto é, fecunda e ignorante.”

É dessa forma, repleta daquele delicioso recheio que se convencionou chamar ironia machadiana, que Machado de Assis, autor cujo centenário de morte é lembrado este ano, dá início ao seu conto Miss Dollar. Ao fazer a comparação entre dois comportamentos à mesa, utilizando a comida como me- táfora e ponto de referência, o autor rejeita automaticamente o universo romântico povoado apenas por personagens para os quais os atos prosaicos do cotidiano, como mastigar e encher a barriga, são, no máximo, toleráveis, condição sine qua non da nossa frágil humanidade. Os prazeres da carne, assim como os prazeres do espírito, compõem em maior ou menor proporção cada um de nós. É isso o que parece nos di- zer Machado ao cotejar os dois peris. Numa época em que as heroínas dos romances pareciam se ocupar apenas de duas coisas: preparar-se para o baile e deinhar por amor, visualizar através de suas palavras uma matrona sentada diante de uma mesa, rodeada por acepipes, fartando-se com voracidade de tudo o que ali houvesse, soava quase pornograicamente.

A comida, aliás, aparece em diversos contos de Machado. Ela é utilizada como acessório de luxo para realçar uma situação ou personagem ridícula. E não é outra sua função no conto As bodas de Luís Duarte, quando os personagens, impelidos pela fome, se dividem entre aguardar o orador da festa, que se considerava um “São João Boca de Ouro”, e atacar os pastelinhos e croquetes. “O tenente Porfírio era o tipo do orador de sobremesa; possuía o entono, a facilidade, a graça, todas as condições necessárias a esse mister. A posse de tão belos talentos proporcionava ao tenente Porfírio alguns lucros de valor; raro domingo ou dia de festa jantava em casa. Convidava-se o tenente Porfírio com a condição tácita de fazer um discurso, como se convida um músico para tocar alguma coisa. O tenente Porfírio estava entre o creme e o café; e não se cuide que era acepipe gratuito; o bom homem, se bem fala- va. Melhor comia. De maneira que, bem pesadas as coisas, o discurso valia o jantar”.