Programa desenvolvido pela UFPE integra rede nacional
de telessaúde que leva educação e assistência
via web a 50 cidades - a maioria delas fora da Região Metropolitana
do Recife. Elisabeth Lima (de branco na foto), de Sairé, treina para
utilizar o programa de Segunda Opinião
Paula Schver
Como em toda cidade pequena do interior, no município de Sairé, a internet é acessada pela população de 15 mil habitantes através das poucas lan houses espalhadas pelo centro e periferia. Mas é lá no Agreste pernambucano - onde termos como bytes, web e software não são tão familiares a parte dos moradores - que a tecnologia é a mais nova ferramenta utilizada pelos médicos que atuam na Unidade de Saúde da Família (USF) Vale Verde e por onde passam mais de 1,2 mil pessoas ao mês.
Sairé foi um dos cem municípios escolhidos em Pernambuco para integrar o Programa Nacional de Telessaúde em Atenção Primária no Brasil, lançado este mês pelo Ministério da Saúde e Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) em mais oito Estados. O projeto tem como objetivo reduzir o número de transferências de pacientes do interior aos grandes centros urbanos para tentar desafogar as emergências. Como? Levando capacitação à equipe da USF através da teleducação e permitindo, por meio da teleassistência, que médicos do interior interajam com os profissionais da capital durante a consulta. Recife é o QG do sistema que trabalha interligado às cidades que foram selecionadas levando em consideração, entre outros itens, sua distância em relação à capital (entre elas, Cabrobó, Triunfo e Petrolândia – todas localizadas a, pelo menos, 400 quilômetros do Recife).
O software utilizado para o programa no Estado é o HealthNet, desenvolvido pelo Grupo de Pesquisa de Tecnologias da Informação em Saúde (TIS) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), com base em uma tese de mestrado da instituição datada de 2002. Antes de fazer parte do programa nacional, o programa já era utilizado pelo Núcleo de Telessaúde (Nutes) sedidado no Hospital das Clínicas, entidade ligada à UFPE, que atendia a quatro municípios do Grande Recife já de olho na revolução que a telemedicina é capaz de fazer. Conhecido como Segunda Opinião, o sistema permite que um médico de qualquer USF do Estado integrante da Rede tire dúvidas sobre um paciente ou um tratamento com o auxílio dos profissionais do Hospital das Clínicas. O médico descreve na ficha virtual o caso clínico, podendo anexar dados complementares como raio-x, ultrassom e ausculta, e envia o material pelo programa para um especialista que, em seguida, encaminha seu parecer. Menos gente aumentando a fila nos hospitais dos grandes centros, mais agilidade no atendimento pelo interior.
Por enquanto, o HealthNet – considerado o primeiro projeto em telemedicina no País ligado a uma universidade pública – não funciona em tempo real nem agrega aplicativos capazes de rodar o módulo da teleassistência. O desenvolvimento do programa é modular, como explica Marcello Mello, gerente de sistemas do Nutes. "Criamos o Segunda Opinião e pegamos algumas peças já disponíveis para montá-lo e deixá-lo mais completo", explica. Hoje o programa está na versão 1.6, mas, segundo ele, já está prevista a 2.0. "Entregaremos uma grande rede social de saúde capaz de oferecer videoconferência, bate-papo, troca de informação em tempo real dentro do mesmo software. Queremos agregar tudo, até porque o custo será bem menor", avalia Mello.
Elisabeth Lima, coordenadora do projeto em Sairé, diz que o simples fato de o programa levar a internet à USF já auxiliou os funcionários a tirar dúvidas, por exemplo, quanto à determinada medicação a prescrever. "Também tivemos capacitações a distância, webconferências. Estamos recebendo aulas para aprender a usar a videoconferência e, com isso, aos poucos, vamos conseguir atender mais pacientes por aqui e economizar inclusive no transporte dos que precisavam ir a grandes hospitais." De acordo com Tereza Rodrigues, gerente geral do Nutes, 50 dos cem municípios pernambucanos já estão com todo o equipamento cedido pelo Ministério da Saúde em pleno funcionamento. "Estamos dentro de um projeto piloto do órgão que deve durar um ano. Numa segunda etapa, a intenção é fazer com que os nove Estados participantes do programa se comuniquem e troquem idéias para que seja elaborado um programa mais completo."
Voltar ao topo"Como fazer funcionar um projeto totalmente tecnológico onde não há um técnico em informática?", questiona Marcello Mello, apontando a primeira dificuldade enfrentada pela equipe ao instalar o Telessaúde no interior. O incômodo relacionado à presença da máquina num consultório não aparece apenas neste projeto. "Muitos médicos ainda acham que usar o computador é tarefa de datilógrafo. Já vi gente tremer ao pegar no mouse", comentou o diretor de TI do Imip, Marcio Moraes.
Mello tenta explicar o motivo da estranheza: "Na UFPE, por exemplo, há apenas uma disciplina que trata da informática aplicada à saúde, e é eletiva." Mas, aos poucos, o que parecia uma máquina indecifrável para os profissionais da saúde foi se transformando em uma grande descoberta, como exemplifica Marcello. "Fizemos com que aqueles que tinham medo do computador passassem a usar a tecnologia do telessaúde como algo natural. Todos os envolvidos têm muito boa vontade, pois sabem que estão ajudando a sociedade de alguma forma."
No posto de Sairé, Elisabeth Lima calcula que, das 11 pessoas que ali trabalham (médico, enfermeiro, técnico de enfermagem, agentes de saúde, dentista e auxiliar de dentista), três já tinham domínio da máquina, sete conseguem trabalhar com os softwares instalados e sites de pesquisa e apenas um nunca havia tido contato com um computador. "Todos estão muito interessados. O computador e a internet estão abrindo a mente desses profissionais e promovendo um avanço na vida e carreira deles", sintetiza Elisabeth.