Sementes do Dom

Governo militar destrói sonho do Nobel da Paz

"Apesar de ter sido sempre lembrado para o Nobel da Paz, dom Hélder Câmara não recebeu o prêmio. "Uma injustiça", na avaliação do Nobel da Paz de 1980, o argentino Adolfo Perez Esquivel, que manifestou sua opinião quando esteve no Recife, em 1981, visitando o arcebispo de Olinda e Recife. O que muitos desconfiavam foi confirmado no livro Dom Hélder Câmara - Entre o Poder e a Profecia, de Nélson Pilitti e Wálter Praxedes. Os autores revelam que uma campanha afastou, entre os anos 70 a 73, o arcebispo do Nobel da Paz.

Estão no livro documentos provando que o Governo Garrastazu Médici (1969-74) moveu, por meio da embaixada brasileira em Oslo (Noruega), uma campanha secreta contra a eleição do arcebispo. "Nunca soube do fato", garantiu dom Hélder, há dois anos, quando o livro foi lançado. Os autores mostram trechos de telegramas enviados ao Ministério das Relações Exteriores pelo embaixador do Brasil na Noruega, Jaime de Souza Gomes, em que ele presta contas de sua ação pelo discreto esvaziamento da candidatura de dom Hélder ao prêmio.

A atuação da embaixada brasileira resultou numa campanha difamatória na imprensa norueguesa e na tentativa de influenciar membros do Comitê Nobel, nomeado pelo parlamento da Noruega para escolher o Nobel da Paz.

DERROTAS - A p"rimeira derrota de dom Hélder foi em 1970, quando saiu premiado o cientista norte-americano Norman Bourlaug. Manuscritos do embaixador Jaime de Souza Gomes revelam que, naquele ano, o comitê havia sido alertado sobre a "má repercussão" que a vitória do arcebispo teria sobre os meios políticos brasileiros. Em 1971 foi premiado o chanceler alemão Willy Brandt.

"Em 72 não houve vencedor para o prêmio. Numa das correspondências enviadas ao ministério, o embaixador relata que, naquele ano, dom Hélder teve renovada a sua candidatura por um grupo do parlamento da República Federal Alemã, pertencente ao Partido Cristão-Democrata, de oposição ao governo de Willy Brandt. O embaixador diz também que vai acompanhar o desenrolar dos acontecimentos ligados à escolha do Nobel da Paz na esperança de que seus esforços, nos anos 70 e 71, sejam capazes de deter a campanha empreendida pelos adeptos de dom Hélder.

Em 1973, o Nobel da Paz foi dividido entre o secretário de Estado americano, Henry Kissinger, e o vietnamita Le Duc To, que não quis recebê-lo.

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