CARUARU
Caruaru também quer ser destaque
Pernambuco, 07 de agosto de 2006.

Inês Calado

A capital do Agreste pernambucano é uma cidade que "faz gosto da gente ver", como cantam os versos da música Feira de Caruaru. Lá tem de tudo. E em números grandiosos. O maior São João do Mundo e o maior centro de Artes Figurativas da América Latina inspirado no artesanato de Mestre Vitalino. É a terra dos bacamarteiros, das bandas de pífanos, do boneco de barro, do tecido de chita, da maior feira popular do Nordeste. Mas foi o vaivém dos sacoleiros nos dias da Sulanca que tornou Caruaru, ao lado de outros municípios pernambucanos - Santa Cruz do Capibaribe e Toritama -, referência como pólo de confecções da região. São 12 mil empresas, entre grandes produtores e fábricas caseiras, voltadas para o setor de vestuário. Agora a cidade quer ir além. Deseja produzir sua própria moda. E para alcançar mais este feito precisa investir na educação profissional de sua gente.

A Feira da Sulanca teve suas primeiras barracas em Santa Cruz do Capibaribe, distante 192 quilômetros do Recife, com vendedores que traziam sobras de tecidos de grandes indústrias de São Paulo. Logo depois passou a oferecer também peças confeccionadas de forma artesanal com essas sobras. O termo Sulanca vem de "helanca vinda do Sul" e se espalhou para outras cidades, como a vizinha Caruaru. O preço baixo sempre foi um diferencial da feira. Em contrapartida, os comerciantes não investiram em qualidade. O consultor da área de confecções Dario de Limas está na região há 18 anos e diz que o grande desafio do pólo é quebrar esse tabu. "Temos aqui grandes empresas exportadoras, que fazem produtos de qualidade, mas sempre se imagina que tudo vem da Sulanca, que dá a idéia de um produto inferior", afirma.

OS CHINESES ESTÃO CHEGANDO
Alguns produtos finais da China já chegam em Pernambuco por um custo inferior ao preço da matéria-prima. É preciso tornar a fiscalização mais rigorosa. De acordo com a Abit (Associação Brasileira da Indústria Têxtil), em 2005, entraram no Brasil 39 mil toneladas de confecções chinesas. Porém, oficialmente, foram registradas apenas 9 mil.

No Estado, as indústrias de confecção demitiram 15,4 mil trabalhadores este ano. As vendas ao mercado externo caíram 30%, enquanto no mercado interno a redução foi de 20%.

Para mudar essa realidade, o Sindicato das Indústrias de Vestuário do Estado (Sindivest) uniu esforços com entidades como o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial de Pernambuco (Senai) e Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresa (Sebrae) e órgãos do governo do Estado e traçou no ano 2000 um projeto de desenvolvimento para o pólo. "Foram dados três enfoques: caracterização da região, treinamento para os empresários e seus funcionários e busca de novos mercados", explica o presidente do Sindivest, Fredi Maia. A informalidade sempre foi um problema na região – cerca de 80% das empresas são informais – e os empresários tinham uma idéia de venda passiva, ou seja, estavam satisfeitos com o que faturavam e não se preocupavam em melhorar seus produtos, já que nunca faltavam clientes. Até a chegada dos chineses. "Atualmente nfrentamos a concorrência do produto importado. Parece um absurdo, mas Santa Cruz compra produto de fora para vender na feira. Porém as empresas que procuraram se desenvolver, que investiram na capacitação de seus profissionais, já são vistas na região de forma diferenciada, construíram uma marca sólida e estão no caminho inverso: o da exportação", avalia Fredi.

O Senai, em Caruaru desde a década de 70, também precisou mudar o rumo dos seus cursos para se encaixar na nova realidade da região. Para suprir a demanda de desenvolvimento sócio-econômico do pólo, a instituição criou há seis anos seu primeiro curso técnico na área de vestuário, que já está na terceira turma. Segundo o diretor da unidade, Edson Simões , o órgão não poupou recursos. Foram investidos R$ 4 milhões nos últimos dois anos. "Além de aprimorar o conhecimento, na época precisamos adquirir equipamentos mais modernos, melhorar a infra-estrutura e investir em tecnologia", afirmou. A maioria dos docentes, ex-alunos do curso, está fazendo ou já concluiu algum curso superior. O espaço ainda conta com um núcleo de design coordenado por um profissional especializado. "A busca pelo conhecimento é visível. De cinco mil passamos para 20 mil candidatos concorrendo às nossas vagas". Em 2002, o Senai passou a oferecer o curso técnico em vestuário na recém-formada escola de Santa Cruz do Capibaribe.

ESCOLA DO SENAI EM CARUARU
Foi inaugurada em 1970. Nesta época, o foco não era moda. Em 1977, com a mudança que começava a acontecer na região, começaram a ser oferecidos os primeiros cursos de costura industrial.

Em 2000, foi oferecido o primeiro curso técnico na área de vestuário, para duas turmas de 32 alunos. A escola já beneficiou mais de 100 jovens.

A escola começou a ser ampliada em 2004 e as obras foram concluídas em 2006. Foram investidos no projeto R$ 4 milhões. Só este ano, 120 alunos serão matriculados no curso técnico de vestuário.

ESCOLA DO SENAI EM SANTA CRUZ
Para atender à demanda das terras da Sulanca e do jeans, o Senai inaugurou uma nova unidade no município de Santa Cruz do Capibaribe, no ano 2002.

Em 2004, a escola passou a oferecer o curso técnico em vestuário. Desde então, já foram formados 61 alunos. No primeiro semestre de 2006, entraram 64 novos estudantes no curso técnico e no próximo semestre serão mais 64.

A escola atende cerca de 600 pessoas por ano em cursos de qualificação.

A jovem Crislaine Amâncio , de 16 anos, procurou o curso do Senai no ano passado para ampliar os negócios da família, que possui há dez anos uma pequena fábrica de jeans wear em Caruaru, a CR Confecções. "Pra gente que está no início, é muito bom porque o curso envolve desenho, criação, desenvolvimento, costura, modelagem... Tudo isso é essencial", fala Crislaine. O conhecimento adquirido já está surtindo efeito. "Ela melhorou as finanças da empresa, que estavam desorganizadas", diz, com orgulho, a mãe da aluna, Cleide Amâncio . Como acontece com a maioria dos jovens da cidade, Crislaine se interessou por costura desde cedo. "Pequenininha, ela queria aprender, mas eu não dava oportunidade, porque achava que não iria conseguir. Quando eu saía e voltava, ela tinha feito um abanhado, uma barra do bolso", lembra. Embalados pela empolgação da estudante, o pai e o irmão de Crislaine também estão fazendo curso na área de vestuário. O desejo da jovem é criar suas próprias peças e transformar a pequena empresa numa grande companhia. Para realizar o sonho, pretende cursar administração de empresas, contabilidade e design de moda.

Quando não atuam em seu próprio negócio, os alunos aplicam o que aprendem em outras empresas. É o caso de Heloá Lopes de Carvalho, 20, aluna da primeira turma do curso. Seis meses antes de concluir a qualificação, começou a estagiar na área de criação da companhia Kikoro e, ao final do período de estágio, foi contratada. "Tudo que aplico hoje no meu trabalho aprendi no curso", fala. Segundo Edson, a absorção dos alunos no mercado é quase de 100%. "O empresário já reconhece o potencial do nosso aluno e isso nos dá uma credibilidade muito grande e uma demanda maior ainda."

ESTRUTURA - Em 2000, Pernambuco lançou o Programa de Centros de Produção e Difusão de Inovações Tecnológicas, que previa a construção de centros tecnológicos nos pólos de desenvolvimento do Estado. O objetivo era promover ações voltadas para o crescimento da economia local, com treinamento e inserção de novas tecnologias. O primeiro espaço inaugurado foi o Centro Tecnológico da Moda, em Caruaru, há três anos. No empreendimento, foram investidos R$ 1,5 milhão. "O governo fez o prédio, mas não colocou para funcionar", lamenta Fredi Maia. A partir deste ano, a gestão do CT da Moda passou a ser compartilhada entre o Sindivest e o Instituto de Tecnologia de Pernambuco (Itep). Atualmente o espaço oferece os cursos gestão e tecnologia para a indústria confeccionista e desafios da moda. Este último, a distância.

O educador pernambucano Paulo Freire já dizia: "A educação profissional detém o maior dos poderes, o poder de transformar". É exatamente através da qualificação que o pólo de confecções do Agreste pode transformar a realidade de uma região e, assim, percorrer novas estradas. Ao invés de copiar os modelos das revistas, criar e vender sua própria moda.

 

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