

O brasileiro, definitivamente, não foi educado para se proteger da luz solar, mas existe o agravante de que ele também não tem o costume de ir ao dermatologista para fazer consultas de rotina. A dificuldade de acesso ao médico especialista da pele, principalmente para quem depende do serviço público de saúde, ainda é outro empecilho na hora de diagnosticar precocemente doenças mais graves, a exemplo do câncer. Campanhas nacionais, como a realizada no mês passado pela Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) em 24 estados do País, tentam eliminar esses entraves, oferecendo orientação adequada, diagnóstico rápido e tratamento eficaz. Em Pernambuco, a mobilização aconteceu em 13 pontos de atendimento, localizados no Recife, Tamandaré, Caruaru e Petrolina. "Cerca de 60 dermatologistas voluntários atenderam mais de 1.300 pessoas, destas 7% estavam com câncer de pele", revelou o coordenador regional da campanha, Sérgio Palma.
A dermatologista Simone Mendonça participou do mutirão no Ambulatório de Dermatologia do Hospital Barão de Lucena (HBL), na Caxangá, onde trabalha há 9 anos. "O caso mais comum do câncer de pele, o basocelular, tem crecimento lento, mas as pessoas geralmente chegam no consultório quando a doença está em estágio avançado", disse. De junho a novembro de 2007, cerca de 3.967 consultas foram realizadas no ambulatório, resultando numa média de 360 atendimentos por mês. "O acesso ao dermatologista ainda é difícil para a maioria da população. Somos cinco dermatologista aqui e, mesmo assim, o consultório vive lotado". Para conseguir ser atendido por um demartologista no HBL, o paciente tem que passar primeiro por uma triagem realizada por um clínico geral, que pode ou não encaminhá-lo para o setor desejado.
A dona-de-casa Lucilene Batista Pereira, 45, teve que enfrentar várias vezes a fila de atendimento do hospital para conseguir vaga na dermatologia, mas garante que todo sacrifício valeu a pena. "Procurei o dermatologista só porque tinha lupus. Lá, aprendi a cuidar mais da minha pele. Hoje, não saio de casa sem colocar o protetor", contou. Prova de que, quando bem informada, a população se previne. "O grande problema continua sendo o custo do filtro solar", salientou Simone.
Além da campanha anual de combate ao câncer de pele, realizada desde 1999, a SBD defende projetos que estão em tramitação no Congresso Nacional, que prevêem dentre outras coisas, a redução de impostos para baratear o protetor solar, bem como a distribuição gratuita do produto nos postos de saúde, principalmente, aos profissionais que se expõe ao sol o dia inteiro, como pedreiro, agricultor e office-boy e taxista. "Hoje em dia, o câncer de pele não aparece só naquela situação onde a pessoa se expõe na praia. Muitas pessoas, na sua atividade diária, têm um efeito crônico da exposição inadequada ao sol. Nossa preocupação é com essas pessoas de baixa renda, que não têm orientação adequada e não têm dinheiro para comprar protetor", ressaltou o presidente da SBD - Regional Pernambuco, Emerson Andrade.
De acordo com Sistema Único de Saúde (SUS), a dermatologia faz parte da atenção básica, que é de responsabilidade dos municípios. No Recife, segundo a assessoria de imprensa da Secretaria de Saúde, todos profissionais de nível superior em dermatologia estão aptos a identificar lesões cancerosas. Após o diagnóstico, o paciente é encaminhado para o serviço de referência na área na rede estadual. Ao todo, dez unidades prestam atendimento dermatológico na cidade. Os agentes dos Programas de saúde da Família (PSF) também estão sendo treinados por dermatologistas para identificar lesões e fazer o encaminhamento.
Existem três serviços de referência credenciados à SBD no Estado: a Santa Casa de Misericórdia, o Hospital Oswaldo Cruz e o Hospital das Clínicas. O Hospital do Câncer de Pernambuco (HCP) não possui um setor específico para o câncer de pele , mas a doença é tratada no Departamento de Cirurgia Geral. Para ser atendido, no entanto, o paciente também passa por uma triagem, realiazada diariamente, por um clínico geral ou um oncologista, das 7h às 13h. Tem que chegar cedo para pegar ficha. De janeiro a junho de 2007, foram atendidos 207 pacientes de todo o Estado com câncer de pele - todos foram tratados com cirurgias.
Tanto o dermatologista quanto o oncologista estão aptos a identificar
o câncer de pele. "Os dois especialistas têm formação
para dar a primeira orientação e o diagnóstico, mas
o cancerologista atua mais na terceira linha do front de batalha, no tratamento",
explicou a chefe do Departamento de Cirurgia Geral do HCP, Cristine Miranda.
Segundo ela, a população ainda recebe pouca informação
sobre a doença, ao contrário do câncer de mama. "São
necessárias mais campanhas públicas na mídia",
sugeriu. "O governo não pode tratar o assunto com banalidade.
O câncer de pele, na maioria da vezes, tem comportamento benéfico,
mas é malígno; pode até não matar, mas deforma",
alertou Simone. "O índice de incidência é alto. É um
dado expressivo, sabendo ainda mais que poderia ser prevenido", completou
Sérgio Palma. Para isso, os especialistas aconselham fazer um check-up
na pele, pelo menos, uma vez ao ano.