| EFEITO
TUBARÃO
Pernambuco:
50 ataques e inúmeros danos
Publicado em 27.07.2006
Julliana de Melo
Do JC OnLine
O
litoral pernambucano está em alerta. Os ataques de
tubarão que ameaçam principalmente um trecho
de 20 dos 187 quilômetros da sua costa atingiram um
recorde histórico: desde 1992 até hoje, 50 pessoas
- entre surfistas, bodyboarders e banhistas - foram atacadas,
deixando um saldo de 19 mortos, 31 mutilados e uma onda de
pânico entre a população que acabou rendendo
ao Recife o título de capital brasileira dos tubarões.
Pernambuco lidera isolado o ranking de incidentes com tubarões
no País. Só neste ano, foram quatro vítimas,
sendo duas fatais. Em São Paulo, que está em
segundo lugar, é registrada uma média de um
ataque a cada dois anos. As conseqüências do "efeito
tubarão", segundo o Comitê Estadual de Monitoramento
aos Incidentes com Tubarões (Cemit), começam
a pesar no bolso do Estado, contabilizando prejuízos
na atividade turística, desde as agências de
viagens até a indústria hoteleira, passando
pelas operadoras de esportes náuticos e atividades
de mergulho. O esporte local também tem sofrido com
a má fama. O surfe e o bodyboarding pernambucanos,
que sempre revelaram bons atletas, passam por dificuldades
para ocupar posição de destaque nas competições
nacionais devido à diminuição do número
de praticantes.
Ao
contrário do que muita gente pensa, o mar pernambucano
não está infestado de tubarões, segundo
explica o presidente do Cemit, Fábio Hazin. Pesquisadores
da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), coordenados
pelo professor Hazin, trabalham com a hipótese de que
os ataques tenham sido cometidos por animais isolados. "Pernambuco
tem uma média de 3 a 4 ataques por ano e, para isso
acontecer, não precisam existir 300 tubarões
no nosso litoral", afirma. Para embasar seu raciocínio,
o pesquisador cita os resultados das expedições
mar adentro bancadas atualmente pelo governo estadual: "Em
todas as expedições realizadas com o barco Sinuelo
desde 2004 para localização das espécies
agressivas, foram capturados 22 animais, numa média
de um tubarão por mês". Coincidência
ou não, Hazin revela que, no período de oito
meses em que o projeto ficou parado por falta de patrocínio,
foram contabilizados oito ataques. ( )
"Infelizmente, os danos causados pelos ataques possuem
um alcance que vai muito além das vítimas e
de suas famílias. Como possuem um forte impacto na
mídia, os ataques têm alcançado uma ampla
divulgação, repercutindo negativamente na imagem
do Estado", lamenta.
Um
fator operacional pode estar contribuindo para esta imagem
negativa. Pernambuco também está entre os locais
no mundo com maiores índices de fatalidade entre as
vítimas de ataques de tubarão. Enquanto a média
mundial é de 12%, o Estado registra 38%. O número de
mortes evidencia a falta de estrutura do Corpo de Bombeiros.
( )
Segundo o assessor de imprensa do Corpo de Bombeiros, major
Lamartine Barbosa, as ações de fiscalização
e vigilância do órgão no que diz respeito
aos ataques de tubarão contam com 10 postos fixos de
guarda-vidas, cada um com dois homens, distribuídos
entre os municípios do Recife (6), Jaboatão
(2) e Olinda (2), das 8h às 17h. Apenas dois jet-skis
e um bote inflável monitoram toda essa área.
"Com a realidade de pessoal que temos hoje, não
podemos acrescentar nem mais um guarda-vida. Caso contrário,
a cobertura para incêndios, acidentes e atendimento
pré-hospitalar ficará desfalcada. Precisamos
ampliar o efetivo e adquirir mais equipamentos", admite.
De acordo com Lamartine, o governo não destina uma
verba específica para tubarão. "O investimento
é direcionado ao Corpo de Bombeiros como um todo."
O assessor ressalta que a última aquisição
de material feita pelo governo foi de 46 "sharks shields",
uma espécie de bóia com eletrodos que é
presa na perna do guarda-vida e emite ondas eletro-magnéticas,
funcionando como repelente de tubarão. "Não
adianta ter os equipamentos e não ter bombeiros para
usá-los."
IMPRUDÊNCIA
- A população não é apenas vítima
dos tubarões. Muitas vezes, ela também tem
sua parcela de culpa ao se arriscar em áreas proibidas,
acreditam os especialistas. Segundo o professor Fábio
Hazin, Pernambuco é o local do mundo onde se tem
mais placas de alerta na orla. "Mesmo assim, mais
de 90% dos ataques aconteceram nas áreas de risco
delimitadas pelo Estado, que são devidamente sinalizadas",
destaca Alexandre Carvalho, presidente do Instituto Oceanário,
responsável pela parte de educação
ambiental do Cemit. Carvalho conta que os surfistas
estão proporcionalmente
mais expostos aos ataques de tubarão do que os banhistas
porque ficam mais tempo no mar e em águas mais profundas.
"Dos 50 ataques registrados no Estado, 28 vítimas
eram surfistas ou bodyboarders", completa Hazin. ( )
Foi
o caso de Charles Roberto Soares Veras, 28 anos, uma das primeiras
vítimas de ataques de tubarão nas proximidades
da Igreja de Piedade, no Jaboatão dos Guararapes, cidade
vizinha ao Recife, ao sul. Segundo o bodyboarder, mordido
na perna esquerda em janeiro de 1993, naquela época
não se falava muito de tubarão e a área
ainda não era proibida para o surfe. "Hoje continuo
surfando, mas apenas em Porto de Galinhas ou Maracaípe
[Litoral Sul do Estado], onde o esporte ainda é liberado",
diz. Apesar de ter sido alertado pelos pais sobre os riscos
de ataques, o surfista Humberto Pessoa Batista, 27, morreu
em junho deste ano na praia de Del Chifre, em Olinda, cidade
também vizinha ao Recife, ao norte. "No dia em
que aconteceu um ataque em Boa Viagem, acordei Beto (como
era chamado) para que ele visse a reportagem na televisão.
Alertei mais uma vez sobre o perigo que ele estava correndo,
mas ele não me ouviu", conta o pai do surfista,
João Humberto Batista. Del Chifre havia sido excluída
da área de restrição à prática
de surfe pelo Cemit no início deste ano e não
dispunha de guarda-vidas.
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