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ENTREVISTA / ÍTALO COUTINHO
"Humberto, ao nadar, lutava pela vida"
Publicado em 01.08.2006

Ítalo Coutinho estava surfando com Humberto no momento do ataque

Confira o relato do surfista Ítalo Ricardo Alves Coutinho, amigo de Humberto Pessoa Batista, que morreu de ataque de tubarão no último dia 18 de junho, na praia de Del Chifre, em Olinda. Humberto foi a 49ª vítima de incidentes com tubarão no Estado. Ítalo estava presente no momento do incidente e contou ao JC OnLine como tudo aconteceu.

JC OnLine - Como ocorreu o ataque?
Ítalo - Cheguei em Del Chifre no domingo por volta das 8h15. No mar tinha mais de 40 surfistas desde às 6h. Humberto chegou mais ou menos às 8h45, apertei a sua mão, fiz minha oração e entrei primeiro no mar. Remei até o outside (local onde as ondas se formam para quebrar na bancada), peguei minha primeira onda e remei novamente para a posição. Neste momento, Humberto entrou no mar com meu amigo. Quando eu peguei a segunda onda, escutei o grito de Humberto: "aí, tubarão!". Vi Humberto olhando para baixo da cintura dele e algo estava puxando ele para baixo. Em seguida, ele soltou o bodyboard e foi arrastado para baixo d'água. Foi neste momento que deu para eu ver parte do tubarão (barbatana, lombo superior e uma das nadadeiras laterais). O animal consegiu puxá-lo; visualizei somente bolhas de ar subindo devido à luta do tubarão com Humberto debaixo d'água. Logo em seguida, subiu uma enorme bolha de sangue, formando uma circunferência vermelha na água e, após uns 20 segundos de luta, Humberto consegiu livrar-se do animal.

Ele tentou nadar para fora da área de sangue. Ele não falava mais nada, apenas lutava pela vida. Eu estava desesperado com a água na cintura gritando para que ele não desistisse de nadar, mas ele nem olhava mais para mim. Joguei minha prancha com o intuíto de que ele a segurasse, mas o vento rebatia minha prancha de volta. Foi quando percebi que Humberto estava ficando exausto e, logo em seguida, ele parou de nadar e estava afundando. Vendo o meu amigo naquela situação, eu e outro surfista entramos com as pranchas coladas uma nas outras e fomos resgatá-lo. Quando chegamos próximo ao corpo dele (porque creio que o espírito dele se foi naquela hora), dei um bote com o braço já dentro d'água para alcançar o corpo que afundava. Não podia deixá-lo naquela situação. E, graças a Deus, alcancei-o.

JC OnLine - Como foi a retirada de Humberto da água?
Ítalo - Com muito desespero, tiramos o corpo do Humberto da água; o ferimento não sangrava mais. Tentei fazer uma compressão e torniquete com a minha cordinha da prancha na área da mordida. Tentamos reanimá-lo com massagem cardíaca e respiração boca-a-boca e nada. Procuramos a pulsação dele e nada; foi fatal.

Na praia, havia muitos amigos do surfe com veículos, colocamos Humberto em um deles e levamos para a guarda municipal de Olinda, porque o único hospital daquela área estava desativado, e não sabíamos o que fazer. Os guardas municipais nos indicaram para levá-lo ao quartel do Corpo de Bombeiros de Olinda e acompanharam a gente até lá, onde removeram o corpo de Humberto para o Hospital da Restauração.

JC OnLine - Qual foi a sensação de presenciar isso? Você pensou que poderia ter sido com você?
Ítalo - A sensação é a pior possível, principalmente a de incapacidade de socorrer o meu amigo. Uma hora você está feliz, apertando a mão do seu amigo e o vendo feliz também, pelo motivo de a natureza te dar mais um final de semana em comunhão com ela; minutos depois, você vê tudo isso. Você ao sair da sua casa, para o trabalho ou até para se divertir, nunca espera que aconteça algo.

JC OnLine - O que mudou na sua vida?
Ítalo -
Com esse incidente, aprendi que, na hora da sua morte, o que você apresentou para Deus quando você estava vivo é o que vale. E, analisando a vida do meu amigo antes do ataque, ele temia a Deus e tinha dado dois passos para ele. A lembrança da cena vai comigo até minha morte, junto com a lição de comportamento do meu amigo antes de sua morte.

JC OnLine - Qual o recado que você daria aos surfistas e banhistas com relação a essa experiência?
Ítalo -
Aos surfistas, temos que lutar, porque, quando entramos no mar, automaticamente, unimos nosso espírito e matéria com a natureza. Aos banhistas, infelizmente, que estão perdendo seus espaços para o lazer, e Pernambuco, além de ser uma capital violentíssima, perdeu a sua credibilidade em termos de praias. A violência no Estado não acontece só com seu povo e, sim, com a sua natureza também.

JC OnLine - Você vai continuar surfando?
Ítalo -
Surfo há mais de 17 anos. Continuarei surfando. Voltei no último sábado, não nas praias metropolitanas e, sim, em Porto de Galinhas (Maracaípe) pois, o município de Ipojuca ainda não foi atingido pela degradação humana, ao contrário de Jaboatão dos Guararapes e do Cabo (de Santo Agostinho).
(I.F.)

Os impactos dos ataques no turismo em Pernambuco e as soluções que outros países encontraram para conviver com os tubarões são destaques da terceira reportagem da série, que será publicada na próxima terça-feira (08.08.2006).
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