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POLÊMICA
Confira
íntegra de e-mails sobre o documentário
Publicado em 08.08.2006
From:
Fábio Hazin
To: Alfredo Carvalho / Rodrigo Astiz/Canal Azul
Sent: Friday, September 02, 2005 2:09 PM
Subject: Re: Fw: Shark Rebellion
Prezado Alfredo Carvalho e demais colegas,
Embora considere louvável trabalhos jornalísticos
com a finalidade de informar o público em geral sobre
as interações do homem com o meio ambiente e,
neste caso em particular, sobre as eventuais conseqüências
das intervenções antrópicas no ecossistema
marinho, mais especificamente sobre o problema dos ataques
de tubarão em Recife, como Presidente do Comitê
Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarões
(CEMIT), vejo com muita tristeza a forma sensacionalista que
se está pretendendo atribuir a proposta. A cena de
abertura do documentário, como descrito no roteiro,
busca reencenar o pavor incitado pelo filme Jaws, que tanto
desserviço já prestou, e continua prestando,
a uma adequada compreensão destes animais e de sua
importância para o ecossistema marinho. Transcrito do
roteiro: In a Jaws-style sequence we re-enact an attack
by a bull shark: the surfer is seen from below, his arms paddling
the board; we see a circling shark; from the shark's POV the
camera approaches the board; a montage of violent action in
close-ups; the water turns red; then distant shouts and screams
from the shore..
Após um ano de exaustivos esforços de pesquisa,
educação, vigilância e recuperação
ambiental, estaremos realizando entre 8 e 10 de setembro,
o III Workshop Internacional sobre Ataques de Tubarões,
em que as ações do CEMIT serão apresentadas.
A data marca exatamente 1 ano sem qualquer registro de ataque
de tubarão, não tendo se verificado um único
incidente após a plena implementação
das ações do Comitê, com um custo ecológico
bastante reduzido. A despeito disto, afirma-se no roteiro
que as ações desenvolvidas tiveram uma natureza
de "band-aid": So they've settled for Band-Aid
solutions until someone comes up with a better answer: an
educational campaign, prominent warning signs, and an efficient
rescue service. Certain areas have been declared off-limits
for surfing, and police now confiscate the surfboard of anyone
foolish enough to ignore the warnings.
O Recife, e o próprio Estado de Pernambuco, já
sofreram demais com o problema dos ataques, seja pelas suas
vítimas, seja pelos impactos sócio-econômico
resultantes. A Sociedade Pernambucana, em geral, as vítimas,
assim como os próprios tubarões, mereciam uma
abordagem mais séria e condizente com a realidade dos
fatos. Causa-me grande decepção que o Discovery
Channel tenha aprovado um documentário no formato apresentado,
razão pela qual firmo aqui o meu protesto e o meu apelo
para que, caso seja levado a cabo, o documentário proposto
assuma uma conotação mais científica
e menos sensacionalista.
Atenciosamente,
Fábio Hazin
*****
From:
Rodrigo Astiz/Canal Azul
To: Fábio Hazin
Sent: Friday, September 02, 2005 7:28 PM
Subject: Re: Fw: Shark Rebellion
Prezado Fábio
Meu nome é Rodrigo Astiz e sou co-diretor do documentário
Shark Rebellion, uma co-produção da Canal Azul
com a produtora neozelandesa NHNZ (Natural History New Zealand).
Em primeiro lugar gostaria de agradecer a sua atenção
e também as suas observações a respeito
do projeto.
Ainda não nos conhecemos pessoalmente (espero que isso
aconteça em breve), mas você verá que
temos opiniões muito parecidas quanto ao tratamento
sensacionalista que a imprensa dá a assuntos como os
ataques de tubarão em Recife. Mas, ao contrário
da percepção que você teve a respeito
do projeto, gostaria de ressaltar que a nossa intenção
não é fazer sensacionalismo e sim mostrar uma
realidade - o aumento do número de ataques de tubarão
que ocorreram em Recife à partir de 1992 - "investigar"
as causas desse aumento, mostrar o que foi feito por pesquisadores
e autoridades locais para solucionar o problema e apresentar
os últimos resultados dessas ações.
O tratamento que você leu foi escrito pelo inglês
Malcolm Hall, que além de roteirista será também
co-diretor do documentário, a partir de informações
enviadas pela equipe da Canal Azul há mais de um ano.
Ele é um senhor com muita experiência na produção
de documentários, principalmente para o Discovery Channel,
e seriíssimo no tratamento da informação.
Tenho certeza que a intenção dele também
não é fazer um filme sensacionalista.
No
entanto, estamos produzindo um documentário que será
exibido no mundo todo e que temos a intenção
que o público realmente assista. Por isso, precisamos
usar diferentes recursos de linguagem para atrair a atenção
desse público e fazer com que eles assista o documentário
todo para que possamos, assim, passar a mensagem que realmente
queremos - que as pessoas entendam que os tubarões
não são "vilões", como a imprensa
sensacionalista gosta de apresentá-los, que eles são
importantes para o ecossistema marinho e que existe um esforço
muito grande de pesquisa e ações governamentais
para solucionar o problema de Recife.
Quanto aos dois pontos que você levantou, o primeiro,
a referência ao Jaws, eu acho que funciona para nós
como uma referência para que o leitor possa imaginar
como será a seqüência de abertura, que é
o que eles chamam de um reenactment, a re-encenação
de um fato verídico, no caso um dos ataques de tubarão
que realmente ocorreram em Recife. No segundo caso, acho que
a palavra Band-aid realmente foi mal utilizada, mas tenho
certeza que a intenção do Malcolm não
foi de utilizá-la de forma pejorativa e sim de dizer
que as soluções tomadas até então
não resolverão o problema ambiental criado pela
obra de expansão do porto de Suape - e isso talvez
nem seja possível. De qualquer forma, isso passou também
pela nossa
revisão e nós não percebemos que poderia
ser interpretado de forma negativa. Por isso pedimos desculpas.
Bom, espero ter conseguido explicar qual é o nosso
posicionamento em relação ao projeto Shark Rebellion
e enfatizar que nós também somos contrários
ao sensacionalismo.
Queria reforçar que gostaríamos muito de contar
com a sua participação na realização
desse projeto como personagem/entrevistado durante as nossas
gravações em Recife nos ajudando a garantir
que as informações que
passarmos estão corretas. Acho que a sua participação
ajudará muito a esclarecer o caso de Recife e o papel
dos tubarões para o público no Brasil e em todo
o mundo.
Agradeço mais uma vez a sua atenção e
me coloco a disposição para conversarmos pessoalmente
no início da semana que vem. Por favor, me diga qual
seria um bom horário para conversarmos e em que número
posso localizá-lo.
Um abraço
Rodrigo Astiz
Producer
Canal Azul
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