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EFEITO TUBARÃO
Por que Pernambuco?

Publicado em 27.07.2006

Fábio Hazin, do Cemit, fala sobre as possíveis causas para o número alto de ataques de tubarão no Grande Recife

Os ataques de tubarão que afastam os turistas e amedrontam a população em Pernambuco são considerados por estudiosos como a ponta do iceberg de um problema ecológico maior e muito mais grave. É como se o meio ambiente estivesse pedindo socorro e o tubarão fosse apenas seu porta-voz. "Na verdade, o tubarão é uma das maiores vítimas da degradação ambiental provocada pelo ser humano. Enquanto cerca de 80 ataques são registrados por ano no mundo, o homem mata 100 milhões de tubarões no mesmo período", ressalta o biólogo e professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Otto Gadig, reconhecido como um dos maiores especialistas em tubarões do País. Ele acredita que as pessoas conhecem muito pouco sobre o peixe. ( Saiba mais)"O tubarão não é um comedor de gente, mas mordedor. Pela falta de alimento, ele pode estar procurando outros tipos de presa e confundindo o homem com uma delas". Entender as causas dos ataques serve, dentre outras coisas, para mostrar que ele não é o vilão do mar, como o imaginário popular construiu ao longo dos anos.

Vários fatores têm sido elencados por pesquisadores como prováveis responsáveis pelo aumento do número de ataques no Estado. "É preciso entender que os ataques em Pernambuco não são um problema recente. Conheço relatos de pessoas que perderam parentes vítimas de ataques nas décadas de 50, 60 e 70, mas os fatos eram isolados", observa o engenheiro de pesca e oceanógrafo Asis Lacerda, que é supervisor de gestão florestal e área protegida da Agência Estadual de Meio ambiente e Recursos Hídricos (CPRH). "Houve um aumento populacional na orla, principalmente de Piedade e Candeias, em Jaboatão dos Guararapes (cidade vizinha ao Recife), com despejo, sem controle sanitário, de resíduos orgânicos no mar, que podem estar contribuindo para atração dos tubarões", completa. Além dessa hipótese, outras possíveis causas são levantadas pelo Comitê Estadual de Monitoramento aos Incidentes com Tubarões (Cemit), a exemplo da pesca indiscriminada de camarão, mudanças climáticas, presença de chorume do lixão e restos de matadouro no rio e topografia submarina da região favorável, caracterizada por um canal profundo adjacente à praia. ()

O presidente do Cemit, Fábio Hazin, cita ainda a construção do Porto de Suape, ao sul do Recife, como mais um dos possíveis motivos dos incidentes com tubarões. De acordo com ele, a construção resultou um grande impacto ambiental e um acentuado aumento no tráfego marítimo. "Áreas portuárias são consideradas perigosas em função de maior abundância de tubarões, provavelmente atraídos pelo lixo que os navios comumente despejam no mar. Além disso, o impacto ecológico causado pela construção do Porto, incluindo a destruição de vastas áreas de manguezal e aterros, além do desvio do curso de dois rios (Ipojuca e Merepe), parece ter sido outro fator importante". Os pesquisadores acreditam que o estuário do Ipojuca era provavelmente freqüentado por fêmeas do tubarão cabeça-chata para a procriação. ( ) "A partir da degradação ambiental verificada, é provável que um número maior de fêmeas desta espécie tenha passado a se deslocar para o estuário mais próximo, o do Rio Jaboatão, o qual desemboca exatamente nas praias da Região Metropolitana do Recife (Paiva, Candeias, Piedade, Boa Viagem e Pina), onde ocorre a maioria dos ataques", explica Hazin.

Para o presidente do Porto de Suape, Matheus Antunes, essas hipóteses quando ditas como verdade absoluta são "levianas e passíveis de ação de reparação de imagem". "Até agora nada foi cofirmado, são apenas hipóteses. O que acontece com os tubarões na costa de Pernambuco é resultado da ação forte da pesca de arrasto, que acaba com o alimento do animal", crê. "O que posso dizer é que durante a construção do Porto, nenhuma fêmea de tubarão foi encontrada no estuário. Além disso, os navios que freqüentam Suape (cerca de 600 por ano) não jogam resíduos ao mar. Eles passam por um rigoroso controle ambiental, no qual os resíduos são monitorados". Ele acredita que falta investimento tecnológico para os órgãos atuarem com maior eficácia. ( Saiba mais)

Alexandre Carvalho, do Instituto Oceanário, fala sobre a importância do tubarão para o ecossistema

INFORMAÇÃO - Nadando contra a maré do pessimismo, o presidente do Instituto Oceanário, Alexandre Carvalho, consegue vislumbrar algo de positivo nos ataques de tubarão no Estado. "A partir deles, passamos a discutir mais fortemente com a sociedade sobre meio ambiente. As pessoas estão refletindo mais sobre poluição, desmatamento, aterro de mangue e começando a entender que, quando o meio ambiente não é degradado e está equilibrado, os ataques não acontecem", ressalta. Em muitos lugares, como Fernando de Noronha, por exemplo, os tubarões e seres humanos convivem em relativa harmonia. Os especialistas, inclusive, são unânimes em afirmar que não existe solução definitiva para o problema dos ataques. A aposta é na educação ambiental. "As pessoas precisam assumir a responsabilidade que, ao entrarem no mar, estão entrando em um ambiente selvagem, como a Amazônia", completa Carvalho. "Elas terão que aprender a conviver com os tubarões, respeitando os locais e horários de perigo. () É possível conviver com o risco desde que o risco seja o menor possível", finaliza o biólogo Otto Gadig. (J.M)


As histórias das vítimas dos ataques e depoimentos de sobreviventes e familiares são destaques da segunda reportagem da série, que será publicada na próxima terça-feira (01.08.2006).
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