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O BARCO
Pesquisas começaram no Grande Recife há uma década
Publicado em 24.08.2006

Do JC OnLine

O Sinuelo, em 24 meses de expedições, capturou 24 tubarões de espécies agressivas. Foram 17 tigres, 3 galhas-pretas e 4 cabeças-chatas, em uma média de 1 tubarão por mês. Destes animais, 20 deles foram pescados no espinhel e 4 nas linhas de espera. Além dos tubarões, outras espécies são capturadas pelos anzóis do barco. Quando chegam vivas, são devolvidas ao mar. Os bagres são os mais pescados. Também ocorrem tubarões lixa, tubarões flamengo e raias prego. A pesca destas espécies reduziu drasticamente, segundo o Cemit, em cerca de 90% após a suspensão dos anzóis presentes nos espinhéis à meia-água. A sobrevivência desses animais com a utilização de anzóis circulares também aumentou para 50%. Como os anzóis circulares tendem a fisgar na margem da boca, eles não são engolidos como ocorria com os em forma de "jota", facilitando a retirada do anzol e a liberação do animal vivo.

Apesar de os ataques de tubarão no Grande Recife não serem uma novidade para os pernambucanos, grande parte das informações concretas produzidas sobre o assunto são bastante recentes. O primeiro projeto para traçar um panorama sobre o problema ocorreu entre os anos de 1994 e 1995, por iniciativa de um grupo ligado à Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), que mais tarde daria origem ao Comitê Estadual de Monitoramento dos Incidentes com Tubarões (Cemit). "Naquela altura, nós não conhecíamos absolutamente nada sobre os tubarões do nosso Estado. Foi então que detectamos, por um levantamento batimétrico por ecossonda, a existência de um canal próximo à praia e também a possibilidade de o Porto de Suape ter sido um dos responsáveis pelo problema", relembra o engenheiro de pesca Fábio Hazin, presidente do Cemit .

De acordo com o engenheiro, foi feito um mapeamento sistemático das espécies que estavam presentes no litoral pernambucano, percorrendo, com ajuda do Sinuelo - naquela época, o barco era alugado com recursos da Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia do Estado de Pernambuco (Facepe) - , toda plataforma continental do Estado. "Precisávamos conhecer a distribuição dos tubarões, quais espécies ocorriam mais perto do talude (águas oceânicas) e as espécies mais costeiras. Este trabalho nunca havia sido feito antes", revela. Após um ano de pesquisas, foi montado o primeiro workshop internacional sobre os ataques. Profissionais de diversas partes do mundo, como Austrália, África do Sul e Flórida, foram convidados a conhecer o material coletado e apontar as possíveis frentes de trabalho. Como resultado, foram feitas várias recomendações. Entre elas, a criação de um comitê estadual para monitoramento do plano de ataques de tubarão.

Cerca de dez anos depois do workshop, em 17 de maio de 2004, surgia o Cemit . "Ao longo desses anos, desenvolvemos, na medida das nossas possibilidades, um esforço grande de educação através da UFRPE, junto às escolas, mas com muitas limitações", lamenta Hazin. Em julho do mesmo ano, foi realizado o segundo workshop, com o intuito de referendar tudo aquilo que havia sido proposto anteriormente com a comunidade científica e com a sociedade de uma forma geral. Algumas sugestões foram incorporadas ao modelo anterior, como a utilização das linhas de espera e a suspensão de metade dos anzóis do espinhel por uma bóia, de forma que apenas 50% ficassem no fundo do mar.

SINUELO – A missão de capturar tubarões, pesquisar e monitorar os 30 quilômetros de áreas sujeitas a ataque dos animais no Grande Recife do Sinuelo, oficialmente, só começou em 2004. A embarcação, no entanto, já havia ganhado status entre os alunos do Laboratório de Tecnologia Pesqueira (Latepe), da UFRPE, ao qual o barco está vinculado. Desde que foi adquirido, em meados de 98, o Sinuelo passou por uma grande reforma, ganhando equipamentos para auxiliar as pesquisas realizadas a bordo. O barco já serviu de apoio para uma série de atividades da universidade, entre elas o desenvolvimento de tecnologia pesca de atum e transferência para a frota pesqueira artesanal. "O Sinuelo já fez de tudo. Tenho orgulho de dizer que, no Brasil, sem dúvida alguma, ele é o barco de pesquisa com maior tempo relativo de mar x tempo de porto", diz o presidente do Cemit. Em outubro deste ano, depois do período considerado mais crítico com relação às ocorrências de ataques de tubarão (julho, agosto e setembro), o Sinuelo passará por 10 dias de reforma. Mas as atividades não serão descontinuadas, garante Hazin .

Para começar os trabalhos, destaca o engenheiro, foi muito importante unir a ciência e a experiência no mar. Neste sentido, para as primeiras expedições, a equipe do Sinuelo contou com a presença de um dos maiores mestres de pesca de tubarão no Brasil, Manoel Alfredo Gomes de Miranda, que atua na área em Natal, desde os 20 anos de idade. O profissional mostrou à equipe as melhores técnicas de uso e manipulação dos espinhéis que a partir de então seriam usados no Grande Recife. Um terceiro workshop foi realizado, em setembro de 2005, para avaliar os resultados das expedições ao longo do primeiro ano. "Constatamos que a utilização dos anzóis a meia água davam um resultado melhor de captura de tubarões agressivos ao mesmo tempo em que diminuía dramaticamente a captura de outras espécies", revela Hazin. O método antigo foi completamente extinto, passando a se usar apenas as iscas suspensas. "Temos hoje um equipamento muito mais seletivo, menos predatório e muito mais eficiente", revela.

De acordo com o pesquisador, após estes dois anos de trabalho, a população de tubarões agressivos nas praias da Região Metropolitana do Recife certamente diminuiu. "Esse era o objetivo. Agora, isso afeta significativamente a população de tubarões? De maneira nenhuma!", responde Hazin sobre as críticas de que o trabalho de pesca do Siunelo poderiam estar interferindo no ecossistema marinho. De acordo com ele, a pesca de um tubarão por mês (esta é a média do barco), se comparado ao que se captura pela pesca artesanal só em Pernambuco, é absolutamente insignificante. "O que capturamos é um milésimo do que se captura neste outro processo. Lembrando que tubarão é recurso pesqueiro, é peixe que é comercializado nos supermercados e consumido nos restaurantes e domicílios. A diferença é que os que a gente captura são agressivos e estão a uma grande proximidade da praia", aponta.

Cada expedição do Sinuelo significa um investimento de R$ 7 mil, entre pagamento de corpo de funcionários e material para consumo no barco. No mar, os estudantes e pesquisadores coletam informações como salinidade, temperatura e transparência da água e intensidade dos ventos. Os animais capturados – aqueles de espécies perigosas – são sacrificados e armazenados em uma urna, para posteriormente serem levados ao laboratório de Oceanografia Pesqueira (LOP), da UFRPE. Em terra, estes exemplares são dissecados e passam por uma série de estudos. Primeiramente se avalia o aparelho reprodutivo e em que estágio de desenvolvimento sexual o animal se encontra. Também são considerados os itens que estavam presentes no estômago do peixe, para identificar o tipo de dieta. Um conjunto de três a quatro vértebras também é retirado sob a primeira barbatana dorsal para traçar a idade e o processo de crescimento. A carne que sobra é comercializada e o resultado desta venda é doado para entidades sem fins lucrativos. (G.B.)

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