| EXPEDIÇÃO
Barco
de 13 metros é guardião do litoral do Grande
Recife
Publicado em 24.08.2006
Gustavo Belarmino
Do JC OnLine
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| JC
OnLine embarcou junto com a equipe do Sinuelo para conferir
um dia da expedição |
Há dois
anos, o barco Sinuelo, da Universidade Federal Rural de Pernambuco
(UFRPE), tornou-se uma espécie de guardião dos
mares na busca por soluções para a ocorrência
de tubarões agressivos na costa pernambucana. A equipe
que opera a embarcação, formada por sete tripulantes
(três fixos e quatro móveis), parte todo fim de
semana para uma expedição que dura cinco dias.
Durante este período, todos terminam trabalhando muito,
colecionando algumas histórias de pescador e, sobretudo,
trazendo para a terra - quando não tubarões -
subsídios científicos para entender os porquês
destes ataques, que já fez 50 vítimas confirmadas
no Estado nos últimos 14 anos.
A
reportagem embarcou no Sinuelo, na madrugada do último
sábado (19), para observar de perto como funciona a
rotina do Protuba - projeto de pesquisa e monitoramento ambiental
de tubarões na costa do estado de Pernambuco - que já capturou
24 tubarões das três
espécies que atacam
os banhistas no Grande Recife e, por enquanto, é considerada
uma das mais eficientes ferramentas de atenuação
do problema, ao lado da educação ambiental. A
bordo, a equipe fixa é composta pelo capitão,
o pescador e o cozinheiro. Quatro estudantes - normalmente
ligados ao curso de engenharia de pesca da UFRPE - formam o
restante do grupo, que se reveza toda semana. Na embarcação,
feita de madeira, o trabalho é dividido por todos e
começa antes mesmo do sol nascer, com a preparação
do café-da-manhã.
Às 5h, o grupo já está de pé para
a primeira missão do dia. O barco sai de Candeias, em
Jaboatão dos Guararapes, ao Sul do Recife, para recolher
os anzóis que foram lançados com as iscas ao
mar no dia anterior. Antes são recolhidas as linhas
de espera, bóias com anzóis jogadas mais próximas à praia.
Ao todo, 26 esperas são lançadas ao mar, na área
de cobertura do Sinuelo - que vai da Praia do Paiva, no litoral
sul, até a Praia de Del Chifre, em Olinda, totalizando
trinta quilômetros. O processo consiste em retirar o
equipamento, substituir as iscas por novas, caso elas ainda
estejam presas ao anzol, e jogá-lo novamente ao mar.
Uma
bandeira preta fincada em uma bóia indica que estamos
chegando perto do primeiro espinhel dos dois lançados
pelo Sinuelo. O espinhel é um cabo com quatro quilômetros
de extensão que fica mais ao longe, a cerca de 1 a 1,5
km da costa. Neste cabo, são presos cem anzóis
circulares que ficam à meia-água para capturar
os tubarões que estão vindo do alto mar em direção à praia. "O
objetivo é que o espinhel atue como um escudo, interceptando
a aproximação dos tubarões da costa. Os
peixes que eventualmente furarem esse bloqueio podem ser capturados
pela linha de espera", afirma o engenheiro de pesca Fábio
Hazin, presidente do Comitê Estadual de Monitoramento
dos Incidentes com Tubarões (Cemit), responsável
pelas expedições.
O
pescador Marcos Antônio da Silva, 36 anos, trabalha
desde o ano passado no Sinuelo. Mas sua relação
com o mar é mais antiga, começou na pesca aos
19. Marcos conta que, em suas expedições, o maior
trabalho que teve foi para capturar um tubarão cabeça-chata
de 2,10m. "Mesmo fora da água ele pode atacar",
relembra. "Uma vez pescamos um tubarão tigre e
colocamos ele vivo dentro da urna com gelo. Certa hora, o cozinheiro
foi pegar uma verdura na câmara e o tubarão atacou.
Por sorte, só mordeu a tábua". Marcos fica
na linha de frente no recolhimento do espinhel. Controla uma
alavanca que vai puxar as cordas para dentro do barco. O trabalho
tem que ser rápido e cada um dos tripulantes ocupa posições
específicas. Um recolhe a corda, que vai ser levada
para uma grande urna, o outro retira os anzóis e envia
para um terceiro, que vai arrumá-los dentro de outra
caixa de forma que fique fácil para manipular no fim
do dia, quando serão devolvidos ao mar.
O
recolhimento de cada um dos espinhéis demora cerca
de uma hora. Entre puxar o cabo e remover as iscas pode vir
o que todos esperam: um tubarão fisgado. Já passava
das 6h quando um bagre de cerca de 30 centímetros veio
preso na linha. Bagres são presas fáceis - existem
em grande quantidade no litoral. Restava para o segundo espinhel,
que fica entre as Praias de Piedade, em Jaboatão dos
Guararapes, e Boa Viagem, no Recife, duas áreas de maior
incidência dos ataques, a esperança de pegar o
temido tubarão. Quilômetros de cordas depois,
apenas outro bagre.
ABRANGÊNCIA
- Após recolher os espinhéis, o Sinuelo, que
mede cerca 13 metros de comprimeto, segue viagem para a
Praia
de Del Chifre, litoral norte do Recife, numa velocidade média
de cerca de 4 km/h (pode chegar até a 13 km/h). É
um tempo de pausa para os trabalhos e também a hora
de preparar o almoço na pequena cozinha do barco.
O sol já estava alto no céu quando a equipe
chegou
àquela praia. Exatamente em frente ao local onde ocorreu
o último ataque a surfista, apenas linhas de espera
são jogadas ao mar. O presidente do Comitê Estadual
de Monitoramento dos Incidentes com Tubarões, Fábio
Hazin, explica que este foi um caso isolado, mas que é
necessário manter a área sob observação.
"Se há concentração de tubarões
perigosos ali, vamos capturá-los", afirma. Ele
ressalta, porém, que o Sinuelo está trabalhando
no seu limite. "Não dá para operar
mais um espinhel simultaneamente. Logisticamente, isso é
impossível". Para fazer esta cobertura, Hazin
afirma que teria que ser agregado um novo barco ao projeto .
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| As
principais iscas para os tubarões são as
moréias (foto) e o peixe-prego. A experiência
no mar comprova que a maior freqüência de
captura ocorre com as iscas de moréia. As iscas
são levadas na urna com gelo do próprio
barco e cortadas no local, um pouco antes de serem jogadas
ao mar. |
À tarde, o barco lança de volta ao mar os espinhéis
e faz uma nova reposição de iscas em algumas
linhas de espera. O processo é um pouco mais rápido,
cerca de 40 minutos. Um computador na cabine indica, por GPS,
o ponto exato onde devem ser jogados os cabos. Os cenários
se repetem e o trabalho segue intenso até o cair da
tarde - horário de maior incidência de ataques
de tubarão. As últimas esperas são substituídas
enquanto o sol se esconde por trás dos prédios
do Recife. E a equipe do Sinuelo pode então descansar,
para começar tudo novamente, no dia seguinte.
Dois
dias após a reportagem embarcar no Sinuelo, a
equipe conseguiu capturar um tubarão flamengo, de 1
metro. A espécie, que não é das que atacam
os banhistas, foi levada para o laboratório de pesquisas
da UFRPE. |