| RELATO
O
drama dos sobreviventes
Publicado em 01.08.2006
Isabelle
Figueirôa
Do JC OnLine
O
primeiro ataque de tubarão registrado pelo Comitê
Estadual de Monitoramento aos Incidentes com Tubarões
(Cemit) em Pernambuco aconteceu em junho de 1992. Quatorze
anos já se passaram, mas os ataques continuam. Foram
cinqüenta vítimas, sendo 19 fatais e outras 31
que carregam até hoje as cicatrizes das mordidas e
as lembranças do acidente. Os familiares daquelas que
morreram não se conformam com a perda e os sobreviventes
cobram do Governo do Estado "medidas drásticas"
para combater os incidentes.
"O
governo (do Estado), a prefeitura ou o órgão
competente deve tomar alguma providência. Nem que o
banhista seja proibido de tomar banho nessas áreas
e usufrua da praia apenas a areia", afirma, indignado,
o representante comercial Charles Roberto Soares Veras, de
28 anos, segunda vítima de ataque de tubarão
na orla de Piedade, em Jaboatão dos Guararapes, cidade
vizinha ao Recife, ao sul. Na época com 15 anos, ele
estava com o bodyboard a cerca de 10 m da costa, nas proximidades
da Igrejinha de Piedade, quando foi atacado por um tubarão,
por volta das 16h30 do dia 23 de janeiro de 1993. Segundo
ele, que ficou com uma cicatriz na perna esquerda, o grande
"livramento" foi um barraqueiro que fez um torniquete
no ferimento com o estepe da prancha para estancar o sangue.
"Se não fosse isso, eu poderia morrer com a hemorragia",
disse ele, que é atualmente um dos diretores da Federação
Pernambucana de Bodyboarding.
A história do surfista Clélio Rosendo Falcão
Filho, que à época do ataque tinha 18 anos,
não teve o mesmo fim. O jovem não resistiu às
mordidas no braço e faleceu no dia 7 de julho de 1995,
poucas horas após ser atacado por um tubarão
em Candeias, também na orla de Jaboatão dos
Guararapes. Os familiares de Clélio, de acordo com
o coordenador do Instituto Praia Segura, Sérgio Murilo
Filho, não querem gravar entrevistas porque ainda
se emocionam muito com a perda do filho, mesmo depois de
mais de 10 anos do acidente.
Há sete
anos, o jovem Charles Heitor Barbosa Pires, 28, estava
surfando em frente ao Edifício Acaiaca,
em Boa Viagem, Zona Sul do Recife, um local de muita movimentação
de banhistas, quando foi atacado por um tubarão. Segundo
ele, estava chovendo e o mar estava turvo. ( ) Ao
contrário
das outras vítimas, Charles viu o peixe, revelando
que era da espécie cabeça-chata e devia ter
em média 2,5 m. Ele, que não se achou imprudente
já que na época havia o decreto, mas não
tinham as placas de proibição da prática
do surfe no local, ficou com uma cicatriz na perna direita
e teve as mãos amputadas. "No início,
o pior foi ficar dependendo das pessoas, mas agora eu já me
acostumei aos novos hábitos", afirmou. ( )
Dentre
os banhistas atacados por tubarão, está o jovem
Walmir Pereira da Silva, 26, residente em Cajueiro Seco, localizado
em Prazeres, Jaboatão dos Guararapes. O ataque aconteceu
no dia 23 de maio de 2002 nas proximidades da Igreja de Piedade,
também em Jaboatão, enquanto tomava banho de
mar com a esposa. Como conseqüência, teve uma mão
e uma perna amputadas. A reportagem do JC OnLine tentou
falar com ele, mas o pai do jovem, Edvan da Silva, disse já
estar cansado de dar entrevistas e não receber nada
em troca. "Vocês vão dar alguma ajuda a
ele [Walmir], uma cesta básica por exemplo?",
questionou, revelando a situação difícil
da vítima, que recebe freqüentemente doações
dos integrantes do Instituto Praia Segura para sustentar a
esposa e quatro filhos. |