| IMPACTO
Turismo
sobrevive aos tubarões
Publicado em 08.08.2006
Paula Schver
Do JC OnLine
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| José
Otávio diz que turistas se preocupam mais com violência
e sujeira da praia do que com os tubarões |
Pesquisa
comprova: os ataques de tubarão na orla do Grande Recife
não estão afastando os turistas. A explicação
é dada pelo secretário de Turismo de Pernambuco,
Laedson Bezerra. "Nosso turista não vem exclusivamente
para tomar banho de mar. Além do que, ele é
esclarecido, entende e respeita as placas indicativas na praia."
Na prática, o estudo recebe o respaldo de órgãos
como a Associação Brasileira de Agências
de Viagem (Abav-PE), Associação Brasileira da
Indústria Hoteleira (ABIH-PE) e Departamento de Turismo
da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e vai de encontro
a relatório divulgado pelo Cemit (Comitê Estadual de
Monitoramento dos Incidentes com Tubarões). Para o presidente
da ABIH-PE, José Otávio Meira Lins, nenhuma
redução no número de hóspedes
foi observada devido aos ataques de tubarão, até
mesmo nos dias próximos aos incidentes. "A preocupação
com o tubarão aparece lá atrás para nossos
hóspedes. Eles dizem que problemas como violência
e sujeira estão na frente", afirma. A pesquisa
surpreendeu o presidente do Comitê Estadual de Monitoramento
aos Incidentes com Tubarões (Cemit), Fábio Hazin. Anteriormente
ele havia informado que os ataques de tubarão estavam
prejudicando a
atividade turística no Estado. "Eu me baseio em tudo
que tenho escutado. Agora, quem pode avaliar melhor essa questão
é o trade."
O JC OnLine teve acesso à pesquisa [ encomendada
pela Prefeitura do Recife em janeiro de 2005 e que contou
com a participação de 500 turistas ] e constatou
que a grande maioria (73%) dos visitantes da cidade vão
à Praia de Boa Viagem, local que contabiliza 48% dos
50 ataques ocorridos no Grande Recife nos últimos 14
anos. "Boa Viagem continua sendo nosso cartão
postal", ressalta José Otávio. Destes turistas,
55% entram no mar. Os que não entram apontam, apenas
em segundo lugar (30%), o medo a tubarões como motivo
para não ir à água. Já para quem
sequer visita a praia, o ataque de tubarão não
é fator determinante para a decisão. Ele aparece
em sétima colocação, perdendo para itens
como falta de tempo e de atrativos turísticos na praia.
O francês Christophe Boeckel, 43 anos, está pela
primeira vez na cidade. Diz que veio a passeio e que, no seu
roteiro turístico, a preferência é Olinda
e o Centro do Recife. "Fui só uma vez à
Praia de Boa Viagem e não entrei no mar. Também
não vi muita gente dentro d'água", observou.
Quando questionado se o receio se devia aos tubarões,
afirmou: "Não tenho medo. Na praia, tem placas
alertando. Só não entrei porque achei a água
muito suja."
| Principais
dados extraídos do estudo sobre o impacto dos incidentes
com tubarão nas praias do Recife: |
| O
senhor(a) visitou a Praia de Boa Viagem? |
|
|
| Por
que o senhor(a) não tomou banho de mar na Praia
de Boa Viagem? (para quem respondeu que
foi à praia) |
| Prefere
passear no calaçadão |
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| Os
ataques de tubarão |
|
| Praia
poluída |
|
| Não
deu tempo |
|
| Outros |
|
|
| Por
que o senhor(a) não foi à Praia de Boa Viagem?
(para quem respondeu que não foi) |
| Não
deu tempo |
|
| Não
gosta de praia |
|
| Não
tem atrativo |
|
| Não
opinou |
|
| Os
ataques de tubarão |
|
| Outros |
|
|
| O
senhor(a) ficou sabendo dos ataques de tubarão
antes ou depois de chegar ao Recife? |
|
|
| O
senhor(a) pretende ou não retornar ao Recife? |
| Pretende |
|
| Não
pretende |
|
| Não
informou |
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Fonte:
ADM&TEC / Prefeitura do Recife - 2005
Augusto
Santos (nome fictício), recreador de um hotel de grande porte
localizado em Piedade, Jaboatão dos Guararapes, recebeu
orientação
de sua gerência para conversar com os visitantes
sobre os locais de risco de ataque. "Os
turistas chegam ao Recife já perguntando sobre os
tubarões,
mas, quando são informados, até encaram a
situação
com bom humor. Tem alguns que tiram fotos na placa de advertência
instalada na praia." Questionado se o tubarão
tem intimidado seu público, Santos responde: "A
insegurança,
a violência e a falta de opções de
lazer noturno têm os preocupado mais."
A reportagem esteve na Praia de Boa Viagem, no último
domingo, e presenciou muitos adultos e crianças
dentro do mar em áreas
sinalizadas como suscetíveis a ter ataques de tubarão.
O auxiliar de almoxarife Jarbas Tenório faz parte
do grupo de pernambucanos que não dispensa, ao menos,
uma entradinha nas águas de Boa Viagem. Bem na frente
de uma placa de advertência sobre os perigos de tomar
banho de mar, ele estava com o filho, Apolo, 6 anos, na água. "Aqui
no rasinho acredito que não tenha esse risco todo.
A gente estava quase na areia, bem no raso. Nunca ultrapassamos
o limite", garante. Já a carioca Elaine Alves,
que mora há 15 anos no Recife, cava um buraco na
areia para servir como "piscina" para o filho,
Renan, de 2 anos. "Não tomamos banho de mar
nunca. Tenho medo de tubarão, mas não entro
mesmo por segurança;
Renan tem medo das ondas." Para se refrescar do calor,
Elaine enche baldinhos com água ou pega uma mangueira
para se molhar seguramente. "Quando quero tomar
banho de mar, vou a Porto de Galinhas", observa.
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"Aqui
no raso não acho que é perigoso ficar.
Tenho medo de tubarão; só ficamos aqui mesmo."
|
"Não
entramos no mar nunca. Quando queremos tomar banho em
praia, vamos a Porto de Galinhas."
|
"Se você entra pra nadar, está correndo
perigo, mas, no rasinho, acredito que não tenha
esse risco todo." |
"Como
a praia nem sempre está limpa, a gente
evita entrar no mar. E com essa questão do tubarão
ficou mais difícil ainda." |
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| Bernadete Coutinho, 51 |
Elaine Alves, 34 anos |
Jarbas
Tenório, 33 anos |
Régia
Martins, 28 anos |
Neste ano, dois dos quatro ataques de tubarão registrados
na orla do Grande Recife vitimaram pessoas que não
residem no Estado. Após 18 meses sem incidentes, em
abril de 2006, o caminhoneiro catarinense José Ivair
Pereira, de 35 anos, foi atacado em Piedade. Quarenta dias
depois, o também caminhoneiro paranaense Rogério
Antônio de Carvalho, 33, foi mordido próximo
ao 2º Jardim de Boa Viagem. Testemunhas afirmaram, à
época, que ambos estavam se banhando no raso. No entanto
em área proibida e devidamente sinalizada com placas.
"Esses incidentes se devem à desatenção
de algumas pessoas que terminam entrando no mar", justifica
o secretário Laedson Bezerra.
Segundo
o Corpo de Bombeiros de Pernambuco, cerca de 70 registros
de eminências de afogamento são contabilizados
por mês nas áreas de risco de ataque de tubarão.
"É um número muito alto e mostra que as
pessoas continuam se arriscando apesar de todos os alertas,
apesar de todas as medidas preventivas que têm sido
divulgadas", ressalta o presidente Cemit, Fábio
Hazin. Ele revela que o Instituto Oceanário, membro
efetivo do Cemit, realizou recentemente uma pesquisa nas áreas
de risco delimitadas pelo Estado, comprovando que há,
muitas vezes, imprudência por parte de banhistas e surfistas.
"O pesquisador foi lá dentro da água entrevistar
as pessoas nas áreas de risco. A grande maioria estava
consciente do perigo que estava correndo. Não é
por falta de aviso que as pessoas estão sendo atacadas",
destaca.
Para
tentar solucionar o problema que tem como alvo pernambucanos
e turistas, o Instituto Praia Segura colocará uma tela
de exclusão em Boa Viagem, em caráter de teste,
ainda neste semestre. Em um projeto inédito nas Américas,
serão instalados 200 metros lineares de rede do Hotel
Vila Rica ao Castelinho, área de mar aberto. "Acredito
que as telas podem até virar um atrativo turístico.
Vai ter gente que virá para cá só pra
ver isso", disse o advogado Sérgio Murilo, coordenador
do Instituto (saiba mais sobre soluções nas
próximas reportagens da série). |