| Foto: Chico Ludermir / JC Online
Almir driblou o sofrimento ao doar órgãos da filha morta em um acidente de trânsito em fevereiro deste ano |
leia mais |
As tragédias salvam vidas. O que pode parecer uma cruel contradição é uma realidade nas doações de órgãos quando se leva em consideração a quantidade de doadores jovens no Pernambuco. Das 134 pessoas que doaram órgãos e córneas do dia 1 de janeiro deste ano até 16 de junho, 28 estavam na faixa etária dos 18 aos 30 anos, no auge da sua fase produtiva - dessas, 22 foram vítimas de morte violenta. Mais da metade, 17, teve a sua vida cruzada com as de outras após sofrerem traumatismo crânio encefálico (TCE), a maioria causado por acidentes com motos. E cinco por morte provocada após perfurações por armas de fogo.
Os dados são da Central de Transplantes de Pernambuco. O número reflete o quantitativo de potenciais doadores, ou seja, representa todos que realizaram o ato da doação, mesmo que depois, devido a alguma intercorrência, o transplante não tenha ocorrido. Do total de doadores, 89 estão na faixa dos 30 aos 65 anos, em sua maioria, vítimas de alguma neoplasia, que são tumores, e de acidente vascular celebral (AVC).
No Brasil, o perfil da doação se mantém. Segundo dados da Associação Brasileira de Transplante de órgãos (ABTO), dos 467 transplantes realizados no primeiro trimestre de 2010 no País, 220 doadores morreram vítimas de AVC, e 191, de TCE; os demais 56 doadores tiveram outras causas de morte.
O acidente de trânsito que vitimou a jovem Nailza Catarine, 20 anos, demonstra que, mesmo após a morte trágica, é possível fazer algo pela vida. Ela pegou um mototáxi para ir ao consultório de odontologia no Cabo de Santo Agostinho, no Grande Recife, onde trabalhava como auxiliar administrativa. No caminho, um fato mudou para sempre a sua trajetória de vida e de outras cinco pessoas.
Perfil dos doadores |
|
Faixa Etária |
Número |
| Até 12 anos | 5 |
| 13 a 17 anos | 2 |
| 18 a 30 anos | 28 |
| 31 a 65 anos | 89 |
| Acima de 65 | 10 |
| TOTAL | 134 |
Dados relativos ao 1° semestre de 2010 |
|
Nailza estava usando capacete, mas ele não estava preso corretamente, e se deslocou com o impacto. Ela ainda foi socorrida para o Hospital da Restauração, no Derby, área central do Recife, e depois transferida para uma unidade de saúde particular da capital pernambucana, com traumatismo craniano.
O acidente aconteceu no dia 18 de fevereiro deste ano e, quatro dias depois, Nailza não resistiu e morreu. "Ela era muito comunicativa, animada, espontânea; passava uma energia muito boa e alegre. Tinha uma filha de um ano e três meses", lembra Almir Santos. O motoqueiro e a senhora de 74 anos sobreviveram.
Após o diagnóstico de morte encefálica, a família autorizou a doação de órgãos. As córneas, os rins e o fígado de Nailza foram doados. Ao todo, cinco pessoas foram salvas. Uma delas é P.G*, 35 anos, que, devido a uma insuficiência renal crônica terminal que provocou a paralisação dos dois rins, chegou a fazer várias sessões de hemodiálise durante dez anos. Depois do transplante, a vida é outra. "Eu estou tendo uma qualidade de vida melhor; posso viajar porque antes tinha o compromisso de fazer a hemodiálise três vezes por semana," diz P.G, que recebeu um dos rins da jovem.
Foi também uma tragédia que sensibilizou Nailza sobre a importância de doar órgãos. A história foi a da garota Jéssica Kelly, 10, de Petrolina, Sertão do Estado. A menina morreu em setembro de 2007 com um tiro acidental provocado por ela mesma dentro de casa. Depois do incidente, a família de Jéssica decidiu doar os órgãos. "Minha filha viu a reportagem e isso mexeu com ela", conta o pai. Após ver a matéria, Nailza disse à família que queria ser doadora de órgãos.
Para a psicóloga Daniele Rabello, o que leva uma família a autorizar a doação de um órgão ou tecido após um parente ter morrido de forma trágica é a possibilidade de compensação. "Quando elas perdem o mais importante, o filho ou o sobrinho, o corpo se torna apenas uma coisa material." O essencial em todos esses casos é que as famílias conseguiram transformar o sofrimento em esperança. "A importância da doação é do tamanho da sua dor. É um ato justo e até bíblico. A gente precisa fazer o bem sem olhar a quem", ensina Almir Santos.
* A reportagem utilizou apenas as iniciais do receptor do órgão para preservar a sua identidade.