Recusa
Atitude esbarra em desinformação
Recusa das famílias ocupa a terceira
posição na
relação
dos motivos para não efetivação da doação em Pernambuco
Foto: Silvia Morais / JC Online
Influenciado por filmes de suspense e terror, Danilo tem medo de ser sequestrado e ter os órgãos retirados
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O número de doadores aumenta no Estado. Um exemplo é que, em 2009, a Central de Transplantes de Pernambuco (CT-PE) bateu recorde - ano passado foram 982 procedimentos enquanto, em 2008, 966. Porém o quantitativo de vidas salvas poderia ser bem maior se não fossem o medo e a desinformação.
Apesar do procedimento do transplante ser seguro, a negação em doar órgãos é ainda constante. Números da CT-PE de janeiro a abril de 2010 mostram que a recusa das famílias ficou em terceiro lugar na relação dos motivos para não efetivação da doação múltipla de órgão no Estado. Atrás somente da contra-indicação à doação e da não constatação da morte encefálica (o cérebro para de funcionar).
Para o estudante Danilo Souza, 19 anos, o temor é justificado por algumas produções cinematográficas de suspense e terror que mostram cenas de retirada de órgãos. Ele conta que o filme
Turistas, um longa de suspense de 2006 sobre seis jovens que passam as férias no Brasil e acabam reféns de uma quadrilha que retirava os órgãos para tráfico, o deixou impressionado. O jovem atualmente diz não ser doador de órgãos."Hoje em dia no Brasil tem muito sequestro e roubo. Tenho medo que alguém me sequestre para tirar o órgão", revela.
Para a gestora estadual da Central de Transplantes de Pernambuco, Zilda Cavalcanti, histórias de sequestro para a retirada de órgãos são lendas urbanas. "A realidade hoje de transplantes no Brasil só acontece em hospitais que são credenciados para transplante, por equipes médicas credenciadas pelo Ministério da Saúde. Então, eu não consigo conceber um transplante realizado de forma clandestina num grande hospital", diz. Segundo o presidente da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), Ben-Hur Ferraz, esses filmes acabam atrapalhando o processo da doação. "São mitos que a gente tem que tirar da cabeça", completa.
COMO FUNCIONA - Os órgãos só são retirados dos doadores cadáveres mediante autorização da família após a comprovação da morte encefálica (ME) por dois médicos não participantes de equipes de captação e transplantes. O corpo do doador tem prioridade para a realização da necropsia no Instituto Médico Legal do Recife (IML) - quando chega lá, o órgão e o tecido doados já foram retirados.
Na morte encefálica, diferentemente do coma em que a pessoa está desacordada, as células cerebrais estão mortas e o quadro é irreversível. Um vez autorizada a doação de órgãos como rim, fígado, pâncreas e pulmão, os médicos mantêm os batimentos cardíacos por meio de aparelhos, pois esses órgãos necessitam do coração bombardenado o sangue para mantê-los funcionando. Já as córneas podem ser retiradas com o coração parado.
Os doadores podem ter retirados até mesmo 12 órgãos depois da morte, o que significa que uma única pessoa pode salvar 12 vidas. Após o procedimento, o cadáver é recomposto e entregue aos familiares para o sepultamento. Atualmente, para que os órgãos possam ser doados após a morte, o potencial doador precisa apenas informar à família sobre o desejo e não precisa deixar nada por escrito nem indicar a intenção na Carteira de Identidade.
A gestora estadual da CT-PE enfatiza que as pessoas pensem no caminho inverso ao se decidirem sobre a doação. "Da mesma forma que a gente não é contra que uma pessoa amada receba (o órgão) para continuar viva, também não deveria ser contra a doação de órgãos de um familiar que está falecido e não vai mais se beneficiar daquele órgão, mas que pode, sim, fazer a diferença para alguém que está esperando."