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"A idéia é espicaçar o público mesmo"

ENTREVISTA / Marcondes Lima

Depois da apresentação de "Mistério Buffo" no Hermilo Borba Filho, os comentários que (não) se ouviram eram compostos do mais profundo silêncio. Parecia que as pessoas estavam em dúvida entre o êxtase e a perplexidade. "Eu, pessoalmente, acredito que o texto assume o catolicismo", provoca o diretor Marcondes Lima. Ele falou ao JC OnLine com exclusividade na noite deste domingo.

JC OnLine - A apresentação foi um sucesso e a casa estava lotada. Há previsão de quando a peça "Mistério Buffo" vai cumprir temporada na cidade?

Marcondes Lima - A proposta do grupo Parcas Sertanejas é continuar com a temporada, mas como não participamos de nenhum concurso para ocupar palcos de teatros locais não há definição de data ainda. Na estréia, a coisa ainda está engatinhando, mas a idéia é seguir com a peça.

JC OnLine - Que tal a reação do público à apresentação de hoje? Muitas cenas, especialmente o final surpreendente, deixaram as pessoas desconcertadas.

Marcondes Lima - A gente não fazia idéia de qual seria a reação nem ao texto, nem ao tema, à abordagem nem ao final. Nesse momento, é muito estranho falar de Cristo e de religião. Parece que as pessoas nem ligam. A idéia é espicaçar o público mesmo, colocá-lo contra a parede e ver se eles vão reagir ou apenas aplaudir. Eu, pessoalmente, acredito que o texto assume o catolicismo.

JC OnLine - Como surgiu a idéia desse espetáculo?

Marcondes Lima - Tudo começou quando Augusta Ferraz pediu que eu a dirigisse em outra peça de Dario Fo e sua esposa, Franca Rame, chamado "A mulher só". O texto, bastante feminista, não conseguiu apoio das Leis de Incentivo à Cultura porque alegavam que Dario Fo escrevia para a realidade italiana apenas, que não tinha nada a ver com a gente. Houve um edital, fizemos um projeto e conseguimos apoio para a montagem pro festival. Juntamos várias alunas de artes cênicas que já trabalhavam com Augusta e começamos a trabalhar com o professor Paulo Michelotto, que fez a tradução direta do original em italiano.

JC OnLine - Como se deu a adaptação do texto e sua transposição para a realidade local?

Marcondes Lima - Com "Mistério Buffo", um compêndio de mais de 25 quadros, Dario Fo ganhou o Nobel de Literatura e foi excomungado pela Igreja Católica por causa desse texto. Ele pegou os mistérios medievais que eram representados nas ruas por artistas populares. Eram os chamados jograis, atores únicos que faziam vários personagens. Ele inseriu temas políticos do momento em que o livro foi escrito e nós apenas adaptamos, seguindo esse espírito que ele aponta. No "Manual mínimo do ator", Dario Fo pede para que seus textos sejam revistos para as realidades específicas de um determinado local. Nossos personagens podem ser sem-terra, cortadores de cana ou mendigos que contam essa história para a gente.