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Mistério Buffo desconcerta público no Hermilo

Renata do Amaral
Do JC OnLine

A primeira apresentação de Mistério Buffo, do grupo pernambucano Parcas Sertanejas, deixou o público desconcertado. Não há outra palavra para definir essa peça, que conta representações sacras de forma profana e satiriza dogmas cristãos. A direção é de Marcondes Lima sobre texto de Dario Fo, ganhador do Nobel de Literatura em 1997. Quem perdeu a montagem ainda tem a chance de vê-la nesta segunda-feira (20) no Hermilo Borba Filho, às 21h.

Já na fila de entrada, o público pôde ter idéia do mote da história: mendigos estão vendendo ingressos para quem quiser assistir à ressurreição de Lázaro. Distribuídos nas arquibancadas do Hermilo - agora com assento acolchoado, que só foi útil para as poucas pessoas que não tiveram que se sentar no chão -, eles também ansiavam por um milagre.

Personagens da Bíblia passeiam pelo tablado, com algumas modificações nada sutis, mas com forte significado implícito. O coxo e o cego se unem para que aquele possa andar e este possa ver, pois nenhum dos dois quer sofrer um milagre para ter que trabalhar e deixar de pedir colaborações alheias. O texto italiano foi transposto de acordo com a tão falada característica do "jeitinho brasileiro" e do pecado capital da preguiça.

O louco vai aos pés da cruz e teme começar a sentir dó, sentimento que desconhece. Enquanto os personagens vêem sua sorte em jogos com cartas de tarô, conhecem as várias faces - literalmente - da morte. Em outra passagem, Jesus é objeto de desejo de algumas mendigas. O mais impressionante da peça, além do final que dispensa comentários, é como temas tão polêmicos podem despertar risos e ser tratados de forma tão ácida e suave ao mesmo tempo.

O elenco, formado por Augusta Ferraz, Anamaria Sobral, Enne Marques, Gabriela Rocha, Lêda Santos e Rejane Cardoso, estava afinado. Como cada atriz vive diversos personagens, os figurinos e cenários são apropriados para trocas quase instantâneas. Só um toque para a organização: houve uma impressão geral de que a venda de ingressos excedeu o limite do aceitável.

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