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Delírio
de Cacilda Martinez conquista o Recife
Gustavo
Belarmino,
Do JC OnLine
O
GERAL - "Tem uma multidão chegando aqui no Hospital. Estão
gritando... Agora, deixa ouvir... Espera um pouco. Toma nota. Estado
Gravíssimo. Uma parada Cardíaca. Estava todo mundo palpitando com
ela, agora. E um silêncio. Parou o mundo." ...E recomeçou
no delírio de José Celso Martinez Corrêia quando
resolveu trabalhar na sua mente controversa a saga de vida e pós-morte
da maior estrela do teatro brasileiro: Cacilda Becker.
A consciência inconsciente de um coma. A parada brutal de
um mito, no lugar onde todo mito deveria morrer. Em cena. Cacilda!,
do Teatro Oficina Uzina Uzona é grandiosa. Sem
dúvidas uma das mais produzidas, (e longas) peças
apresentadas no III Festival Recife do Teatro Nacional. Durante
3h45, o público recifense teve a oportunidade de aprender
e consumir os conceitos formados acerca de uma atriz que foi considerada
um marco de sua época.
O espaço ainda não inaugurado do Terminal Marítimo
de Passageiros foi transformado na zona de atuação.
Uma pista de 30 metros de comprimento no chão dividia dois
lances de arquibancadas, lotados por um público que assistia
à peça, vezes perplexo, vezes apático. Nas
extremidades desta pista, dois mezaninos, de onde eram encenados
atos, digamos, de complementação à peça.
Palcos paralelos, de onde se via o céu e o inferno, o sexo
e a castidade, além de um minipalco com camarim. No meio
de tudo uma faixa de terra.
Imprimiu agilidade aos muitos elementos de composição
de cena, como uma lua de fogo que desce do teto, várias TVs
que reproduziam cenas das cenas e um telão, com imagens da
diva. Destaque para as fitas azuis que cruzaram os 'céus'
do palco para formar, ao fundo, um varal extenso no quintal de um
barraco e para o figurino, assinado por nomes como Lino Vilaventura
e Andréa Canton.
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DRAMA
- Na pele de Bete Coelho, Cacilda interpreta sua última cena,
em Esperando Godot, de Samuel Becket. Isso foi em 1969. A atriz
tinha 48 anos e estava se exibindo para estudantes secundaristas.
No intervalo da peça, antes de ver Godot e conhecer os seus
mistérios - que nunca vêm, por estarem onde menos se
espera - tem rompimento de um aneurisma cerebral. Do coma, que durou
40 dias, Cacilda vê sua infância, seus amores, seus
personagens, é seqüestrada pelo Deus da morte e renasce
de sua própria filha.
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1º ATO - A primeira parte do espetáculo segue
uma linha do tempo mais racional. Apesar de acontecer de trás
para frente, como um eterno ciclo morte-renascimento-morte, é
possível se traçar ícones subjetivos sobre
a infância carente, o sonho de ser bailarina - quando foi
duramente reprimida pelo diretor polonês Ziembinski (o próprio
Zé Celso) - e a vitória nos palcos, quando veio a
ser a primeira dama do Teatro Brasileiro de Comédia(TBC).
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INTERVALO - Vinte minutos para beber uma água e o suficiente
para procurar uma outra banda da arquibancada para mudar a posição
do pescoço.
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2º
ATO - Na volta, o carimbo de Zé Celso - um pouco menos
presente do que na escatológica Para dar um Fim no Juízo
de Deus - , em oito figuras que, nuas, se masturbavam e repetiam:
"ela está estressada com sua carroça. Ela está no seu palquinho,
sua quitanda. Ela vá tudo fazendo um 69. Todas as coisas
que tem boca chupam sexos. Cacetas e bocetas. Cabeças enterradas
em sexos 68, vira 69 69, vira 96. Ela vá o único encaixe possível".
Era a despedida de Bete.
Platéia desacostumada com a loucura ácida de Martinez
viu um segundo ato de caos, configurado na interpretação
de Leona Cavalli. O delírio do coma beirou o inimaginável
e Cacilda entregou-se à própria morte. Drogas, sexo...
nos palcos paralelos os junkies preparavam ritualmente a heroína
pra um pico. Cacilda fumava estrume, enquanto participava de uma
sessão espírita.
Em um ritmo de clipe, as luzes fazem com que as cenas pareçam
ainda mais surreais. Em um determinado momento do espetáculo,
seguindo para a guilhotina, se veste de mundo e aprecia o seu próprio
cortejo para a morte. Todos dão um grande viva à Cacilda.
Mas este não era o fim... pelo menos não até
que Cacilda, realmente, encontrasse Godot.
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O pernambucano que embarcou no circo
de Zé Celso Martinez
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