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ENTREVISTA/
Berta Zemel
"O que fazemos aqui é uma tentativa de contar causos"
Visivelmente cansada, mas recompensada e feliz. É com
essa aparência que a atriz Berta Zemel aparece, após
a encenação de Anjo Duro, para falar com seu público.
Gente que espera o fim da peça, a saída de todos,
para dar seu agradecimento especial àquela atriz de 63 anos
que trouxe para o palco, depois de 25 anos afastada da ribalta,
sentimentos e sofrimentos reais, abordando-os de modo delicado e
respeitoso. O sucesso foi tamanho que Anjo Duro ganhou uma mini-temporada,
somente nos dias 27, 28 e 29 de novembro, no Teatro Hemrilo Borba
Filho. Em entrevista exclusiva ao JC OnLine, Berta define: "Vocês
são uma grande platéia".
JC OnLine - Como você chegou ao trabalho de Nise da Silveira?
Berta Zemel - Eu tenho um curso de teatro há mais
de 30 anos. O Luiz [Valcazaras, diretor da peça] fez parte
de uma das turmas do meu trabalho, onde nós pesquisamos juntos,
trabalhamos juntos. Depois ele foi, como todos os meus alunos vão
e voltam, vão e voltam pra se reciclar, e um dia eu o encontrei.
Um dia antes, meu marido, que é psicanalista, tinha me dado
um livro da doutora Nise da Silveira chamado O Mundo das Imagens.
Eu li, passei a noite inteira lendo e disse que se eu puder voltar
com essa personagem, eu volto, volto para o teatro. Encontrei
o Luiz no dia seguinte e ele me disse que tinha voltado de uma das
viagens e estava com os direitos de Cartas a Spinoza, da
doutora Nise. Uns chamam de coincidência, outros de sincronicidade...
JC
OnLine - Luiz não acredita em coincidências...
BZ
- E depois aconteceram muitas outras, muito parecidas. A nossa
estréia foi no Teatro Sérgio Cardoso, com quem eu
estreei, no Teatro Bela Vista, na época, com Hamlet. Depois
voltamos a reestrear no Teatro de Arte, onde eu estreei com a minha
companhia e ele voltou a fazer o trabalho que havia feito e havia
visto com o Rubens [Corrêa, ator brasileiro que interpretou
um monólogo sobre Antonin Artaud, autor francês, uma
das referências de Anjo Duro]. Então, há um
certo paralelismo incrível entre o nosso trabalho.
JC
OnLine - O que determinou essa tua ausência dos palcos?
BZ
- Muitas coisas. Uma, de origem política, que o meu marido
fazia parte desses movimentos anti, se é que a gente pode
chamar de governo, anti-governo, na época dos golpes todos,
contra os militares. E ele tinha que voltar pra casa e encontrar
alguém e ele só tinha a mim e eu fiquei, esperando.
E passou-se o tempo... Quando eu ia voltar, eu senti que o teatro
não era mais aquilo que eu queria. Eu preferi ficar na retaguarda,
dando aulas e aprendendo com os alunos; cada um me trazia coisas
diferentes. E quando a doutora Nise apareceu, acho que foi o momento
de eu voltar.
JC
OnLine - Você disse que o teatro não era mais como
você queria. O que é que tinha de diferente em relação
à época em que você atuava?
BZ
- Todos os meus diretores eram estrangeiros, portugueses, poloneses,
italianos, maravilhosos. Mas cada um tinha a imagem da sua terra
e o conhecimento da sua terra e eu queria alguma coisa brasileira.
Todos os espetáculos de autores brasileiros que eu fiz foram
um imenso sucesso, os outros não, tirando Hamlet. E então
eu falei: eu tenho a impressão que o povo brasileiro quer
espetáculo brasileiro. E eu queria também, na arte
de representar, mais do que lógica ou mais do que só
aquelas coisas de imagens... Eu queria alguma coisa intermediária,
que ficasse entre o pensamento e a imagem, ou a loucura, sei lá
que fosse. Encontrei uma zona intermediária, meio proibida,
onde eu surfo, eu acho que o ator é isso. Eu tenho a lógica,
estudei, trabalhei, pesquisei. Há um outro caminho, decorrente
desse, que é a imagem, que essa lógica me dá
depois da pesquisa. Mas eu tenho que estar num caminho intermediário
que me dê liberdade, porque senão ou eu fico presa
na lógica ou presa na imagem. E eu não quero. Sabe,
isso que a gente faz aqui é uma tentativa de contar causos,
como aqui se contam as coisas?!
JC
OnLine - Qual a expectativa, até então, com o Festival
do Recife?
BZ
- Eu sempre conheci Recife como uma cidade altamente cultural. Tudo
aqui de vocês, todo passado, é de uma cultura, de um
conhecimento, todas as pessoas que a gente conhece, escritores,
literatura, artesanato, cultura mesmo, tudo, tudo tem uma grande
profundidade e eu sempre fui muito ligada a isso. E eu achei, intuitivamente,
que ia ser uma grande apresentação, que ia ser um
grande público e de fato foi. É um público
conhecedor, que ri, que acompanha, que sabe. Há muito público,
por exemplo, que muitas vezes hesita um pouco em rir, por medo.
Esse povo acompanhou, participou e riu e aplaudiu. É uma
grande platéia e eu esperava isso mesmo de Recife.
JC
OnLine - Uma das provas disso seria justamente a extensão
da temporada da peça aqui?
BZ
- Eu, particularmente, estou muito feliz, porque adorei a cidade.
Eu acho que a gente tem público pra isso e vocês têm
público pra muito mais que isso. E eu estou extremamente
honrada em ter sido convidada pra ficar mais três dias e fazer
esse espetáculo. Tomar contato, porque a gente foi procurado
por muitas escolas, o pessoal de teatro, o pessoal de outros Estados,
que veio pra cá... Talvez a gente parta daqui pra outros
Estados, pra outros espaços, enfim, é o centro de
uma série de coisas.
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