<< - ÍNDICE - >>
 
 

Alice através do espelho é sucesso absoluto

Renata do Amaral
Do JC OnLine

"Pessoas inteligentes sabem que não há diferença entre real e irreal", bradou o Chapeleiro Louco, logo na entrada da peça "Alice através do espelho", do grupo paranaense Armazém Companhia de Teatro. O espetáculo era tão restrito a apenas cinqüenta pessoas que nem portadores de crachá de produção ou imprensa puderam entrar. Foi preciso chegar várias horas antes e enfrentar fila.

Quem viu, no entanto, aprovou e tomou ao pé da letra a declaração do personagem. É imposível não se deixar envolver pelo clima de fantasia que estava por vir. Não há pressa nenhuma. Todos são convidados a tomar uma chá antes de adentrar o misterioso cenário em forma de cubo. "Já está sentindo o efeito?", perguntam os atores.

O espectador - se é que se pode chamar assim, pois ele realmente participa da peça - se sente na pele de Alice e acompanha todo seu desespero no país das maravilhas. O primeiro passo é atravessar o espelho e seguir por um escorregador. Em meio a bolinhos onde está escrito "coma-me" e garrafinhas que pedem "beba-se", é possível se sentir gigante e pequenino, com somente oito centrímetros, devido a movimentos do teto.

Os efeitos especiais decerto ajudam no jogo, mas boa parte da magia está no texto de Maurício Arruda Mendonça e na interpretação dos atores. A Alice do espetáculo, como a Lolita de Vladimir Nabokov, mescla ingenuidade e malícia. Até mesmo as preferências pedófilas do autor Lewis Carroll estão mais explícitas na peça.

O que se vê adiante é pura alucinação, com direito a psicodélicas viagens ao som de Beatles, jardim de flores drag queens e passagens por hospícios. Apesar da velocidade de mudança de cenários, ninguém consegue se perder na história ou pregar os olhos por um minuto. O diretor Paulo de Moraes dosou a medida certa de fantasia e realidade. E qual é a diferença entre essas duas coisas, afinal?