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Cacilda celebra o teatro e os atores

Paulo Sérgio Scarpa
Do Jornal do Commercio

“Eu sou o Teatro”, grita a atriz Bete Coelho para uma platéia extasiada diante de tanta imaginação, no auge da grandiloqüente Cacilda, do polêmico José Celso Martinez Corrêa, o ‘inventor’ do Teatro Oficina de São Paulo. Nada mais verdadeiro: a peça não tenta, apenas, retratar a vida e a morte de uma das atrizes mais celebradas do teatro brasileiro, Cacilda Becker, morta em 69. Vai muito além do fato real, da biografia, das indagações e boatos criados nestes 31 anos após a sua morte. Zé Celso aproveitou para criar, com Cacilda, a história do teatro brasileiro a partir de um ícone que ainda instiga a imaginação dos dramaturgos, espectadores e encenadores. Retratou, assim, uma época em que o teatro vivia a guerra declarada entre o ‘teatrão’ dito ultrapassado do Teatro Brasileiro de Comédias (TBC) e as propostas de vanguarda e de um teatro engajado politicamente no social, representado pelo Oficina e o Teatro de Arena.

No meio desta briga, aparecia o Teatro Cacilda Becker, com seus dramas, comédias e uma platéia cativa formada pela classe média alta que teimava em ignorar as denúncias do Oficina e do Arena no período pré-ditadura militar.

Martinez Corrêa inicia a sua Cacilda defendendo a sua tese principal: Cacilda não viveu a própria vida porque dedicou-se toda ao teatro, justificando assim a sua existência através da personificação de tantos personagens. Alguns tão fortes que a marcaram para o resto da vida: como a mãe viciada em heroína para suportar a realidade de A Longa Jornada Para Dentro da Noite, de Eugene O’Neil; Estragon, o ingênuo personagem de Esperando Godot, de Samuel Beckett, peça da qual saiu direto para um hospital após sofrer um derrame em cena, que acabaria matando-a; Margarithe Gauthier, de A Dama das Camélias, de Dumas Filho, tuberculosa e estigmatizada pela sociedade.

E José Celso não perdoa em um só momento a curta existência de Cacilda Becker: envolve a personagem com drogas e sexo grupal, as experiências que teria experimentado em Nova Iorque (EUA); faz clone imaginativo da atriz aos 100 anos e ainda em ‘coma’, interpretada com vigor pela ex-bailarina Renée Gumiel, criadora da primeira escola de dança contemporânea em São Paulo, nos anos 50; relembra, com muita imaginação, as brigas com a também atriz Ruth Escobar, recém chegada de Portugal e com forte sotaque lusitano; e faz Cacilda dialogar com Madame Clecy, retirada a fórceps de O Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues, personagem que a teria introduzido numa provável profissão, em Santos, de acompanhante de senhores nos anos 30, ainda garota.

Cacilda é labirinto de idéias, imagens e sugestões que o espectador tenta captar, imaginar e até adivinhar para chegar ao verdadeiro propósito de Zé Celso. Tarefa nada fácil para quem não sabe quem foi Miroel Silveira, teórico teatral que a levou para o Teatro dos Estudantes; ou o fotógrafo José Yácones, a quem Cacilda quis namorar, mas que acabou se casando com a irmã Cleyde, motivo de briga ‘pro resto da vida’ entre as duas.

O texto, porém, é grande elogio à arte de representar e à celebração do teatro. Foi escrito por quem sabe, e como sabe, o que é estar num palco, por isto, escrito com raiva, amor e dedicação aos atores. Mas a atenção maior, por certo, foi dedicada à protagonista. Por isso, Cacilda não sai de cena e fala sem parar com todos. E quando não encontra um interlocutor, fala sozinha. Afinal, a peça é uma novela de oito partes. Uma declaração de amor endoidecido de José Celso pela atriz, que, ao final, é proclamada a ‘divina atriz’ do teatro brasileiro.