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Companhia do Latão conquista de vez os pernambucanos

Por Renata do Amaral
Do JC OnLine

A segunda e última apresentação da peça "A comédia do trabalho", da paulista Companhia do Latão, foi um sucesso absoluto na noite deste sábado, no Teatro do Parque. O êxito de "Ensaio para Danton", "Ensaio sobre o Latão" (ambas de 1997) e "O Nome do Sujeito" (1998), apresentadas nas outras edições do festival, deixou o público ansioso para ver a nova montagem do grupo.

Dessa vez, foi a discussão sobre a luta de classes que causou risos desconcertados na platéia que lotou o local. Não foi por falta de aviso. Desde o começo da peça, os atores entoam canções explicando que a apresentação que está por vir não é de fato uma comédia, mas uma tragédia - o título alegre, segundo as personagens, foi escolhido apenas para atrair mais público. E a ironia já começa aí.

A trama conta a história de um país longínquo - será mesmo? - chamado Tropélia, onde os irmãos gêmeos Léo e Kréo enfrentam com pesar a crise em que caiu o seu banco de investimentos. Enquanto os dois tramam a venda da empresa para um grupo estrangeiro, com dinheiro surrupiado do governo, um ex-funcionário do banco sobe ao topo do prédio para tentar suicídio. Em meio à confusão que se arma embaixo do edifício, Léo e Kréo começam a temer o perigo de uma revolução socialista.

A gerente de recursos humanos no banco, Dominique, acaba perdendo seu emprego e se tornando mais uma na massa que ora clama para que o rapaz se jogue do prédio, ora pede que ele continue a lutar pela sobrevivência no mundo do capital. No fim, acaba sobrando para a telefonista, que resolve não tomar nenhuma atitude justamente por ser "apenas a telefonista" e quer mesmo ir para casa ver televisão.

As figuras que passam pelo palco são aparentemente absurdas, mas funcionam como uma caricatura bastante plausível da sociedade. Há pedintes que se julgam superiores a mendigos (sim, eles provam que há uma distinção entre as duas denominações), uma pretensa filantropa que quer solucionar todos os problemas do mundo e uma milionária que até gostaria de ajudar os pobres desempregados, mas precisa cuidar da sua pele para uma festa.

Parafraseando Delfim Neto e Fernando Henrique Cardoso, o governador de Tropélia pretende "repartir o bolo", mas só depois que ele aumentar. Antes disso, haja sofrimento e desemprego para fermentar a massa. A montagem reúne elementos marcantes de crítica social e política, mas não deixa de lado as dores do cotidiano, a mesquinhez, o orgulho, o sentimento de superioridade e outros tantos temas humanos.

A história é contada com leveza e ironia na dose certa, por um grupo afinadíssimo. Toda a sonoplastia é feita pelos próprios atores (Adriana Mendonça, Alessandra Fernandes, Heitor Goldflus, Maria Tendlau e Ney Piacentini, todos impecáveis), que interpretam diversos personagens ao mesmo tempo. O cenário é simples e a iluminação pretende ser a mais natural possível. Talvez seja justamente esse clima realista o fator que torna a peça mais cruel, mas não menos bela. A Companhia do Latão acertou outra vez.

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Site oficial da Companhia do Latão