São Paulo, 09/08/2000 |
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Brincando com o papel
O papel sempre foi fundamental no meu trabalho de pintor: primeiro vieram os desenhos feitos com bico de pena; animais e seres muito estranhos que se desbordaram em traços obsessivamente trabalhados a nanquim, sempre preto e branco (anos 50). Depois foi a convivência com papel de arroz japonês delicado, artesanal, transparente. Durante doze anos, de 1957 a 1968, esse foi o papel trabalhado: na impressão das xilogravuras com a colher de bambú pressionando o papel, a tinta, o corte na madeira e no linóleo. O esboço era feito sobre qualquer pedaço de papel: folhas de caderno, calendários, guardanapos, blocos de anotações onde os traços de caneta, lápis de cor e grafite se misturavam aos números de telefone, nomes de pessoas, recados, contas a pagar, dinheiro a receber, datas, endereços, horários, compromissos, preços, pensamentos, lembretes...
Desgovernada, a mão inconsciente ia traçando meandros, ocupando espaços verbais, desmontando a linearidade da frase, das cifras, dos telefones... A cor vem forte... e no papel derramam-se aquarelas, aguadas, guaches e as palavras se transformavam em pinturas, desenhos preparatórios, esboços à lápis: pequenas janelinhas que se desenvolveriam em formas construídas no óleo e na tela. Nesta fase, eu via antes o esboço, depois o resultado em óleo.
Hoje, o desenho, na liberdade do gesto, é ao mesmo tempo: esboço e resultado, "obra" sem intenção consciente. O gesto sem razão de ser, direto do sistema nervoso central, emocional. O gesto não verbalizável, sem conceito que o anteceda. Sem idéia e sem proposta estética que o explique e anterior ao pensamento consciente.
Não tem, na verdade, o menor sentido. Ou propósito. A não ser o de existir no papel. Não tem "em cima" nem "embaixo", nem esquerda nem direita, nem figura ou fundo, não tem centro... Acontecem na superfície do papel sem estória nem causa (de efeito). Não é veículo de propostas intelectuais nem se fundamenta em conceitos, idéias ou projetos estéticos; não se pretende inteligente, ecológico, social ou político. Não participa, não defende, não ataca nem reflete.
O papel me dá a oportunidade de fazer o gesto sem proposta e "brincar" com as cores. O desenho é a própria idéia, o próprio conceito. Não há nada por detrás destes desenhos. Eles não são feitos para representar princípios, coisas, pessoas, animais, paisagens, sonhos, fantasias, comentários sociais, palavras ou objetos. Não representam nada e nada pretendem. É o movimento do gesto, da cor e dos traços ao se fazerem. Nada mais.
É isso apenas que estes desenhos são. Atemporais, transformam o passado e evidenciam assumida e confessa incoerência.
No papel me permito uma certa leveza... descompromisso, despropósito, a "não intenção".
Quando me perguntam se tenho trabalhado, respondo: "trabalhado" não: apenas desenho, usando pastel seco, oleoso, lápis de cor, grafite, óleos, terebentinas e solventes, brinco com minhas mãos sobre folhas de papel...
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