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Paulo Amaral é um artista
paradoxal. Vem de Bagé, localidade em que a
tradição identifica a procedência de
importantes artistas gaúchos, entre eles Glauco
Rodrigues e Carlos Scliar (este nascido em Santa Maria, mas
também integrante do Grupo de Bagé). Uma
tradição exigente, por
conseqüência.
Seu trabalho como artista é sofisticado e com forte
conotação urbana, não se limitando
às esquinas de um povoado interiorano, ou às
de uma província isolada e distante, mas antes
liberto e ansioso de sua condição de
cidadão do mundo - em suas obras, em óleo
sobre tela, em aquarelas e gravuras estão expressas
as características de um artista atento aos aspectos
plásticos e arquitetônicos das cidades de
geografias diversas, à sutileza da
identificação de uma profunda solidão
humana, tão intrínseca ao contemporâneo
e à ausência das nacionalidades - basta aqui o
olhar sem inocência do artista.
Paulo Amaral não é um artista ingênuo.
Conhecedor da história da arte e observador do que
realizam os artistas contemporâneos de vários
países, estabelece com eles o seu diálogo
artístico, num mesmo nível e insere-se com sua
obra num universo atualizado e inquietante. Assim é
mais difícil e isso também resulta em novo
paradoxo. O Rio Grande do Sul tem forte tendência a
aceitar e promover as artes de inclinações
expressionistas, seja em pintura, desenho, gravura ou
escultura e mais uma vez o artista, arriscado, transita em
rota própria e inesperada. Seu trabalho é
sutil, evita os apelos sugestivos e orientadores do
espetacular ou do horripilante, "canta" baixinho, sustentado
pelo conhecimento técnico, pelo métier
apurado, pela erudição e por uma aguda
sensibilidade.
Cor, texturas, volumes e ritmos fazem a estrutura
visível da obra de Paulo Amaral. Outras leituras
são possíveis à partir da
percepção individual de cada observador, ou
seja , de cada um de nós: sobre uma veneziana antiga
entreaberta, a sombra sinuosa de um tronco de árvore
sobre uma fachada, a ambigüidade de uma cor
improvável sobre o frontão elegante e antigo
de três séculos...
Mas algo a mais chama a nossa atenção nas
rotas de colisão às quais o artista se
expõe (e das quais escapa com desenvoltura): um certo
prazer em nos oferecer uma postura de iconoclastia constante
frente aos dogmas dos materiais, de suas técnicas e
dos resultados previsíveis. Ao observarmos
atentamente suas serigrafias percebemos texturas
difícilimas de se obter, em
sobreposições multiplicadas de cores e um
certo sabor a outra técnica de gravura mimetizada
àquela primeira, são serigrafias que se
parecem a litogravuras, revelando um aspecto novo na
linguagem do métier gráfico e da pesquisa do
artista. Ao olharmos suas telas recentes, lá
está novamente a aventura do pintor : o óleo
trabalhado de maneira a sugerir a delicada aparência
fluída da aguada, da aquarela ...o que nos surpreende
e nos remete a novas maneiras de compreensão de sua
pintura - significa dizer - a renovadas e inusitadas
sensações, o que certamente é um dos
objetivos do artista.
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