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Renata Barros - Pedaços de mim
Alles was man mahlt ist Selbstdarstellung.
Tudo o que a gente pinta é uma representação de si mesmo.
(Otto Dix - pintor expressionista Alemão)
A maior parte desta exposição de Renata Barros
é o resultado do trabalho durante os dois últimos anos na Alemanha,
com a bolsa da Fundação Heinrich-Böll em Colônia, cuja atividade
privilegia o trabalho com vidro.
O desafio encarado pela artista, habituada
ao comportamento de materiais como a madeira, tela, látex e outros
mais flexíveis, permitiu o desdobramento de seu trabalho na vertente
plástica, com interessantes conseqüências temáticas e simbólicas.
Anterior à essa atual fase, a artista trabalhava
apenas com materiais opacos e planos, com os quais realizava recortes
de orgãos internos como pulmões e corações. Os recortes às vezes
eram preenchidos com folhas de látex, ou formas tridimensionais
do próprio órgão, revelando apenas parcialmente a figura.
Com o uso da transparência do vidro, Renata
consegue aprisionar em caixas ou lâminas, o que classifica como
seus "estados anímicos", configurando plasticamente um espaço, isolando
e protegendo-os do mundo exterior. O que aflorava ou era retirado
do plano - positivo e negativo do recorte, foi colocado em um "local
seguro" pela artista.
A questão se coloca importante quando nos
questionamos sobre o que, em sua linguagem, representam esses estados
de ânimo; que objetos preciosos são esses que a artista deseja,
dicotomicamente, isolar e mostrar ao mesmo tempo, prender e revelar
- fato praticamente impossível sem a transparência do vidro.
Ao colocar uma parte do próprio corpo para
representar um estado de ânimo, um sentimento, um estado de espírito,
ela materializa em um símbolo do interior do físico o que não é
visível - pois é sentimento.
Renata realiza um discurso sobre a importância
do não-visível (orgão interno) e do invisível (estado de ânimo,
sentimento) para a construção do ser humano. Ela se faz fisicamente
em pedaços em um processo de autoconsciência de cada um de seus
sentimentos, da mesma forma que uma criança o faz à sua boneca para
entender seu próprio funcionamento.
Ao percorrer a exposição, devemos nos questionar
sobre o significado de cada um desses orgãos ou objetos que a artista
aprisiona na transparência do vidro, ou revela em seus recortes
na madeira, e a mudança de significado de cada um deles, obtida
com suas diferentes cores ou texturas. Esse jogo proposto ao espectador
pode ser respondido às diferentes fotografias de olhos que segundo
a artista sempre perguntam: O que você veio fazer aqui? O que
você espera de mim?
Henrique Luz
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