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FELIX BRESSAN: A EXPERIÊNCIA DA TRANSFIGURAÇÃO
Fascinada. Foi como me senti a primeira vez em
que vi trabalhos de Felix Bressan. Foi na I Bienal Mercosul. No
centro de um dos depósitos do DC Navegantes, onde estavam em exposição
as obras da chamada geração Último Lustro, lá estavam também as
estranhas e fascinantes esculturas de Felix. Eram cinco, se me
recordo bem.
No início - creio que como todos os que se vêem
diante dessas obras -, fiquei confusa. Minha percepção estava
desorganizada, perturbada e, ao mesmo tempo, inquieta para entender
do que se tratava afinal. Quem era Felix Bressan. Decidi então
confrontar as esculturas. E vieram tantas surpresas, tanto encantamento,
tantas sensações agradáveis, que percebi que estava diante de
verdadeiras obras de arte. E de um verdadeiro artista.
Através de suas esculturas, Felix nos convida a
olhar permanentemente de forma dúbia. A fazer o jogo do visível
e do não visível. Do óbvio e do obtuso. E isso aparece desde sua
belíssima série O Corpo Ausente, de 1996, com a qual ele defendeu
a tese de Mestrado no Instituto de Artes da Universidade Federal
do Rio Grande do Sul. O artista criou cerca de 30 esculturas ergonométricas,
com as medidas equivalentes às do corpo humano, sobretudo feminino.
Porém, não existia a representação do corpo. O que havia era a
escultura, como um prolongamento deste, e servindo, também, para
redesenhá-lo de forma idealizada.
Muitas dessas esculturas têm sistemas de armação
e recursos de articulação - através de manivelas, roldanas ou
mesmo por meio dos encaixes das peças - que possibilitam a abertura
ou fechamento, a condensação da obra numa forma menor. Essa característica
nos remete à idéia de casulos, como se a escultura pudesse sofrer
uma metamorfose, libertar-se dessas amarras e mostrar-se, esplendorosa,
depois. Ao mesmo tempo, ela revela a possibilidade de interferência
do espectador, uma vez que ele pode propor outras composições.
Quer dizer: a interatividade e a participação, tão presentes nos
Bichos de Lygia Clark e tantas vezes enfatizadas pelo teórico
italiano Umberto Eco, em seu A Obra Aberta, encontram em Bressan
um novo arauto.
Utilizando-se de ferro, madeira, couro e látex,
essas esculturas da série Corpo Ausente, quer pelas formas e materiais,
trazem uma conotação agressiva e sádica em perfeita harmonia com
o conjunto da obra, o que lhes dá uma forte referência à sexualidade.
Elas parecem sugerir desejos contidos, fantasias não reveladas.
Há toda uma simbologia de resignação presente nessas peças. Diante
delas, o constrangimento dos mais pudicos é totalmente compreensível.
Felix, que muito bebeu da fonte duchampniana, produziu
em seguida esculturas em que utilizava sucatas de objetos de uso
cotidiano, como a enceradeira, a roda de bicicleta, o banco, vassouras,
peças de máquina de escrever, entre tantos outros. Criou obras
que ora citam referenciais da arte contemporânea, como o próprio
ready-made Roda de Bicicleta, de Marcel Duchamp (1913), ora estimulam
a analogia com formas e elementos diversos. Alguns de seus trabalhos,
por exemplo, remetem à forma do rabo, da cauda, seja ela composta
de uma estrutura alongada e cilíndrica, ou de vassouras. Foi,
inclusive, com a Cauda formada de várias vassouras que ele ganhou
o primeiro prêmio no XVI Salão do Jovem Artista de Porto Alegre,
em 1996.
A soma e a repetição, nesse sentido, são elementos
importantes na obra do artista, ancorando muitas de suas criações.
Recentemente, na II Bienal Mercosul, Felix mostrou dois lindos
trabalhos, ambos sem título, que se utilizavam da proliferação
de um mesmo elemento.
Um desses trabalhos, montado no chão, era uma grande
coroa formada por dezenas de estruturas circulares idênticas colocadas
lado a lado. Essas estruturas, no entanto, não eram arcos fechados.
Confeccionadas em ferro e madeira, traziam em uma das extremidades
uma espécie de garfo de metal, com suas quatro pontas apoiadas
no solo.
Na outra obra, o escultor apropriou-se totalmente
de uma pequena sala retangular, fixando picaretas estilizadas
nas paredes e teto. O resultado foi uma escultura que se estende
pelo ambiente. É como uma instalação vertiginosa, cheia de tentáculos
que avançam em direção ao espectador que percorre o centro da
sala.
Além de picaretas, Felix já se utilizou de pás
e cavadeiras, compondo novas ferramentas de trabalho e imaginação.
Cada uma dessas "ferramentas", digamos assim, é uma peça especial,
com movimento e dinâmica própria. O artista, porém, prefere agrupar
cinco, seis, dez delas, todas iguais, criando uma série e, portanto,
uma nova forma, uma nova escultura. Novamente, essas peças são
tão abertas à experimentação, que se pode encaixá-las de várias
modos: mais próximas, distanciadas, com a cavadeira para baixo
ou para cima, com as pás para um lado ou outro. Tanto faz... elas
estão receptivas à mudança.
É esse caráter inquieto e mutante, essa vocação
para a quebra de paradigmas e a transfiguração que faz da escultura
de Felix Bressan objeto de admiração entre os mais diversos públicos.
E o torna, seguramente, uma das maiores revelações da escultura
contemporânea brasileira nos últimos dez anos.
Paula Ramos

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