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Arqueologia Sensível das Missões

Há na iconografia missioneira um anjo de olhar sereno, o braço recolhido junto ao corpo e o indicador apontando profeticamente para o céu.

Esta imagem, com que Elizethe sonha amiúde, preside o ambiente de seu ateliê transformado em laboratório de memórias quase irresgatáveis. É possível que sua pesquisa atual venha a cumprir o dever - há muito adiado por nossa impaciência ou por nosso temor ao desafio - de mergulharmos nas brumas das reduções jesuíticas para delas extraírmos novos mistérios. Corremos sempre o risco de nada descobrir.

É também viável que à partir desse trabalho tão rico e intenso possa o artista reunificar, recompor ou relacionar entre si, imagens mutiladas pela insensatez da ira iconoclasta.

Arremeter-se a essa empresa é como jogar-se de cabeça ao fundo de um poço escuro em que apenas acreditamos existir água, e implica fazê-lo com medo e coragem, com raiva e paixão, com sonho e desesperança e todos os sentimentos aparentemente contraditórios de uma alma inquieta e instigadora.

Elizethe é uma artista maior, possuindo, portanto, essa alma que a seduz ao mergulho. No ambiente barroco em que me recebe, vamos passando um a um os seus trabalhos, desenhados, pintados e - por que não ? - esculpidos sobre os mais diversos suportes como papel, ferro, tela, tijolos... Percebo-me diante de uma obra que dispensa a crítica, porque antes, arrebata o espectador com gritos de sentimento e verdade.

Pergunto a Elizethe se teria ela se demandado algo - naquele instante mais íntimo da criação, aquele em que artista e obra compõem um ser único - pergunto-lhe se em algum momento assim, ela se teria respondido a si mesma..."a arte me basta". Ela revela-me então o alto preço pago a cada vez em que se propôs a desenhar limites entre a dúvida e a certeza, extremos não tão patentes em sua obra fundamentada pela pesquisa, onde tantas vezes o acerto é a conseqüência prática do erro. No sonho de Elizethe inexistem relações lineares de pensamento, tudo está por acontecer.

Encanta-me sua belíssima obra de unidade, acabada, madura...

Correndo os olhos por seu ateliê luminoso, impregnado de incenso oriental e da música de Rachmaninoff, onde pontificam o anjo de dedo para cima, o Menino Deus Indígena, a Virgem Maria e o Senhor Crucificado, descubro imagens douradas do barroco, fragmentos de cartas, de memórias e de dores, plasmados à partir de técnicas diversas, que a artista domina com a mestria de quem deve ouvir-se confessando a si mesma ... "sim, a arte me basta."

 

Paulo C. Amaral
Diretor do MARGS - Museu de Arte do
Rio Grande do Sul Ado Malagoli









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