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O Brilho de um
Iceberg.

ascido em 1921 em Kozienice (Polônia) de uma
família de comerciantes judeus, desaparecida em 1945,
no holocausto - a vida de Frans Krajcberg será sempre
uma cicatriz - rasgada por réquiens do homem em
constante fuga, em permanente conflito. A guerra da
incompreensão e do medo. Há um grito de
revolta na alma deste artista maior, que fez de sua obra a
essência da própria vida e a síntese
mais completa da existência.
Em 1952/1954, isolado na floresta em Monte Alegre no
Paraná, depois de abandonar seu emprego de engenheiro
na Klabin, Krajcberg se inicia nos caminhos e nas nervuras
dos mistérios da natureza. Ali vem a ter a maior
coleção de orquídeas do Brasil. "Quando
estou na natureza eu penso a verdade, eu falo a verdade, eu
me exijo verdadeiro".
É no norte do Paraná que o olhar do artista
percorre o horizonte em chamas. As grandes queimadas. O sol
imenso feito uma bola de fogo anunciando silêncio e
trevas. Uma densa cortina de cinza de fumaça. Os
olhos cheios de lágrimas. A impotência plena.
Um palco de cinzas e carvão. O silêncio brutal
da destruição. O privilégio dos
senhores das terras e das madeireiras, cuja história
se encarregará - um dia - de lembrar e contar da
barbárie e dos crimes consetidos e calados. O
enriquecimento ilícito.
Em poucas décadas o Paraná converte-se num
imenso deserto verde de químicos e monocultura. Onde
estão os pinheirais que já não
há ?
Krajcberg não suporta as imagens e a visão
apocalíptica deste universo e abandona este
estado.
Se, por um lado, é aqui que se encontra com a
natureza, é aqui que as imagens do fogo e da morte -
numa permanente celebração de um holocausto -
lhe dão o sentimento religioso de comunhão com
a vida através da própria
destruição. É deste ritual de
ambição que seu coração passa a
criar e a desenhar o mimetismo com a própria
natureza. A sincronicidade com Deus enquanto mistério
e criação.
Na verdade, a vida deste grande artista - é uma
oração e um grito.
A contemplação transcede a estética
primorosa, para se estabelecer como ponto de
referência às questões éticas e
intrínsecas do homem. É preciso criar um pacto
com a coerência e a decência de gestos e
atitudes. Um ato de coragem.
"Os artistas são antenas da raça" dizia
Pound.
O percurso de Krajcberg lembra um iceberg que, em seu
caminho solitário, tem o brilho e a aura do
próprio sol. A chama da vida. Uma lâmina afiada
que navega no universo da arte e da poética de um
novo tempo, cortando fronteiras, rasgando conceitos e
preconceitos. Um tempo de compreensão e de encontro.
Um tempo de sangue e de luz. A carreira de Frans Krajcberg
extrapola os limites geográficos da terra que
escolheu como pátria - o Brasil.
Hoje, sua obra e seu currículo internacional
são, certamente, os mais significativos e
representativos no universo das artes plásticas no
nosso país. Suas esculturas e seus relevos fazem
parte dos acervos dos principais museus do mundo. Sua casa
em Nova Viçosa, no sul da Bahia, é um
monumento vivo à arquitetura da madeira. Uma
escultura e um modo de vida. Suspensa sobre enorme tronco de
uma árvore gigante, que serve de base à sua
construção, fica acima da mata atlântica
nativa que a rodeia e de onde tem a visão do mar e do
descobrimento. Ao mesmo tempo que lembra um farol
sinalizando o olhar do homem, lembra também à
noite - um objeto não identificado, cuja viagem tem a
centelha cósmica de seu solitário nauta.
Orlando Azevedo
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