A SUPERFÍCIE NOS TRABALHOS DE MAURO FUKE

Nas recentes esculturas em madeira de Mauro Fuke há uma preocupação com a superfície, o que não é novidade dentro de sua obra. Suas esculturas sempre enfrentaram o público exibindo superfícies com acabamento impecável. Após serem submetidas a vários tipos de lixas, as superfícies recebem várias camadas de protetores e são lustradas, escondendo todo o caminho percorrido pelo artista até o resultado final.

Nesse processo aparece o Mauro Fuke artesão, indispensável na realização dos trabalhos. O artista tem sido fiel ao uso da madeira deste o início de sua carreira. Seus trabalhos tem origem numa empatia natural com ela. Seus primeiros encontros com o material mostram-nos formas onde o que mais transparece é o imenso prazer de esculpir.

Em trabalhos anteriores, as entranhas da forma eram mostradas através de complicados mecanismos de abrir-fechar, onde pequenos universos escondidos eram meticulosamente planejados para atiçar o espectador, sua maior presa. Atualmente nada entra e nada sai das esculturas de Fuke, pois os mecanismos sumiram. O que encontramos agora são verdadeiras jóias com formas geométricas lacradas, que impossibilitam o acesso ao seu interior e mostram a obsessão do artista pela precisão matemática.

Nas superfícies podemos ver um impecável trabalho de marchetaria com cubos desenhados em perspectiva. Esse tipo de solução distrai propositadamente o espectador com sua beleza e ilusão de ótica, substituindo o apelo tátil, tão característico nas obras do escultor, pelo visual. Juntamente com goivas e lixas, o computador auxilia na elaboração dos cálculos e projetos para as esculturas do artista. É interessante acompanhar o cotidiano do Mauro, que organiza seu dia separando metodicamente o trabalho mais mental, feito com o computador, daquele que exige maior esforço físico, o trabalho na madeira.

Mauro Fuke não está interessado em mudanças bruscas, suas conquistas são lentas, seus trabalhos levam meses para ficar prontos, nada faz com que ele tenha pressa.

O processo de trabalho obedece à um ritual que se repete inabalável com o passar dos anos. O artista parece ter um pacto com o tempo. Imagino suas esculturas sendo apreciadas geração após geração, protegidas, silenciosas e belas.

Lia Menna Barreto

 

 
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