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Casulos : uma mostra singular
de Siron Franco
Texto de Alfredo Aquino, artista plástico,
pintor e curador da exposição Casulos (Foyer da Sala Villa Lobos
- Teatro Nacional de Brasilia) e Cocoons (Elms Lesters Painting
Rooms - Londres UK).
Siron Franco nos mostra a sua mais recente
série, a de seus Casulos, objetos escultóricos monumentais, uma
idéia que nos deslumbra pela surpresa da originalidade de sua criação
e pelo extraordinário métier desenvolvido para formar estes objetos.
Estas experimentações formais e as técnicas apuradas são características
do artista goiano e estão presente nos eventos onde temos a possibilidade
do encontro com o seu pensamento artístico, com o que ele produz
(seja em pinturas, gravuras, esculturas, instalações ou monumentos
públicos) e em especial nas propostas de suas linguagens, normalmente
bastante instigantes.
Os Casulos possuem uma sobriedade que nos
envolve, literalmente.
Seu silêncio, que nos remete a algo de sagrado
ou de hierático, nos exige um novo comportamento, a monumentalidade
que se impõe e os movimentos sutilissimos que os dinamizam alterando
continuamente o cenário, convidam-nos a adotar uma postura de recolhimento
(que se faz misteriosa pelo anterior desconhecimento de que dela
seríamos capazes em tal profundidade), na observação aguda e na
reflexão específica sobre nossas origens, sobre a natureza e e em
especial sobre a carga dos elementos artísticos que podem ser requisitados
pelo pensamento dos homens.
Esses casulos, seus detalhes, suas cores naturais
e sua iconografia nos convocam a circular ao seu redor, sem afastar
os olhos das texturas, das nuances de luz espraiadas, dos volumes
que causam muita impressão e a nos deixar, pouco a pouco, magnetizar
pelas formas, pelos seus bojos, atraídos ao tato.
São estruturas volumosas, alguns são longilíneos,
outros parecem até inchados, pulsantes, por vezes sugerindo-se semi-vivos,
amordaçados, envoltos, lacrados. Trazem esculpidos na terra, escolhida
em diferentes regiões do centro do continente americano, arestas
em ângulos, em dobraduras, em expansões e com vários outros objetos
enterrados na sua massa pictórica, em intervenções acrescentadas.
Trançados indígenas, penas de aves ou couros
dos mais diversos animais (rãs, peixes, aves), páginas de periódicos,
ceras naturais, fumo em corda (encontrado ainda nas regiões rurais
brasileiras mais rústicas) e asas coloridas de borboletas, fazem
parte desse alfabeto de imaginária que preenche a mente do artista
e que lhe serve de iconografia e de documentação eloqüente para
uma linguagem diferente, tão incomum que vai surpreender os visitantes
da mostra.
Alguns dos casulos são transparentes, realizados
em malha de alumínio ou de aço inoxidável e nos revelam os seus
interiores: ali estão os recortes de notícias de jornais, a palha,
os objetos de uso cotidiano, fragmentos, plumas, folhas de ouro,
mantas de tecidos, luvas mangueiras de borracha, os instrumentos
da elaboração das estruturas internas das próprias obras. A metamorfose
se faz contínua e alinha os ícones da comunicação do artista com
os observadores de sua obra, desvendando assim os seus métodos.
Observar e criar fazem parte do universo da
cultura e dessa transformação (o que tem já alguma pertinência com
o conceito dos casulos) surgem as propostas e as linguagens que
nos estimulam e nos movem com prazer pela vida e pelas veredas das
descobertas. Mas é necessário ver e ter isenção intelectual, é preciso
sensibilidade e mais do que isso, possuir o descortínio de se perceber
frente a algo realmente novo, onde os referenciais prévios estão
ainda ausentes ou que será muito difícil enquadrar certos valores
dentro de escaninhos já codificados.
Joan Miró, em seu final de vida teve a esperança
(frustrada) de ver colocada em praça pública na capital francesa
uma de suas esculturas, de grandes volumes coloridos, adquirida
pela Mairie de Paris e que demorou mais de cinco anos para ser admitida
pela crítica conservadora parisiense, que tivera enormes dificuldades
em reconhecê-la como escultura, propriamente dita. Era ousada e
iconoclasta em demasia. Tinha cores vibrantes estampadas nos volumes
e isso parecia inaceitável. Instalada na Défènse (bairro moderno
parisiense) somente após a morte do artista catalão, perto da escultura
vermelha de Calder, teve a aprovação serena do público que a compreendeu,
sem polêmicas.
As esculturas suspensas que se movem, de Siron
Franco, também apresentam cores, provenientes de pigmentos recolhidos
e fabricados pelo próprio artista, a partir de diferentes tonalidades
de terra, localizadas nas áreas rurais da região onde vive e tem
o seu ateliê. Alinham também em seu conjunto, uma riqueza de múltiplos
materiais, estampados e colados aos corpos dos casulos em técnica
de encáustica: ali estão o ouro 24 quilates, as ceras, as plumárias,
os elementos que se agregam por opção e destino.
São vários os casulos expostos, alguns deles
são foscos, absorventes de luz, muito negros, outros têm brilhos,
uns têm cheiros... Alguns possuem estruturas levíssimas e transparentes
em malhas de aço inoxidável, peças que nos solicitam a atenção rigorosa
aos detalhes, estes últimos até dissimulados, que podem passar desapercebidos
ao um visitante mais distraído ou confessadamente preguiçoso.
Siron Franco também traz suas idéias, com
propostas contemporâneas que fogem ao conservadorismo acadêmico
e o seu público, que não está só em Aparecida de Goiânia, São Paulo,
Basel, Paris, Barcelona ou Londres, aprecia e as observa atentamente.
Estes objetos escultóricos são grandes, angulosos,
coloridos e leves. São também majestosos, enigmáticos, poéticos
e seminais.
É bom e gratificante ver a mostra dos Casulos
de Siron Franco e testemunhar a paixão que transparece nas obras
expostas, o evidente denodo com que ele as fez e o respeito que
o artista atribui, com sinceridade, a seu público, que as compreenderá
em sua extensão e na sua singularidade (afinal, nada existe que
se lhes assemelhe, fora o casulo magistral da própria natureza),
sem a necessidade da orientação de palavras eruditas ou de polêmicas
estéreis, comprovando a qualidade de sua arte no próprio local da
exposição.
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