|
Francisco Stockinger, 80 anos, 53 anos de escultura. Uma
trajetória como a de poucos no país. Um país com imensas desigualdades
sociais, reverberando no silêncio profundo em que vive este artista.
Em sua linguagem direta, franca e objetiva, argumenta que não podemos
ficar impassíveis ao nos defrontarmos, no dia-a-dia, ali na esquina,
com a vida que ainda levam milhares de brasileiros. Diz que não
vamos ganhar a guerra, mesmo porque as utopias têm caído, uma a
uma. Mas segue operando o seu ofício.
Muito de sua escultura é carregada deste sentido social. Desde
os anos 60, em séries de “guerreiros“, “prisioneiros“, “torturados“,
“sobreviventes“, emprestou uma crítica combativa a seu trabalho,
negando-se ao que considerava colaboracionismo. Se não ganhou a
guerra, é certo que jamais perdeu a dignidade.
A constrangedora desnutrição crônica, de que sofrem populações
de norte a sul do país, tem gerado uma subespécie de de nanicos,
o homem-gabiru.
Gabiru, do tupi wawi‘ru - “que devora mantimentos“, sinônimo
de rato-de-paiol, rato-preto, rato-pardo. Ratos que vivem em lixões
junto às grandes cidades e que, em alguns momentos, fazem parte
da dieta dos catadores de lixo.
Nesta instalação de 27 figuras, Stockinger apresenta grupos familiares
desta subespécie, indivíduos flagrados em momentos diversos, da
extrema dor da perda de um filho, à intimidade e ao ócio. Delas
aflora uma série de emoções, mas sobressalta a conformidade. E é
isto, exatamente, o que mais agride.
Texto de Justo Werlang
|