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A pintora do
Brasil.

m Tomie Ohtake, tudo conspira pela forma.
É a sua evidência, a sua clareza, a sua
definição, o elemento-chave que identifica e
justifica a ação da artista. Num país
jovem como o Brasil, tudo ainda está por construir;
é preciso criar elementos formais que alimentem o
arquivo da memória coletiva, da identidade nacional.
Foi por essa razão que o modernismo,
entre nós, surgiu de maneira híbrida, distinta
dos países europeus, para os quais os investimentos
nos aspectos e questões fundantes da arte dispensavam
querelas e discussões de caráter nacionalista.
No Brasil, recuperar o passado, as tão propagadas e
atacadas raízes, foi uma estratégia de
inteligência. O modernismo, ao trabalhar os nossos
mitos esquecidos, visou antes de tudo, construir um
repertório mais rico e variado do imaginário
nacional.
Foi o que se deu de maneira brilhante com Tarsila do Amaral,
que, sem abandonar os postulados cubistas aprendidos com
Léger, a eles acrescentou uma "cor local", um olhar e
um pensamento específico, um algo-além da mera
transposição. A arte é metade
cálculo, metade equilíbrio, metade pesquisa e
reflexão; mas ela se supera e se justifica
através do inusitado, do imprevisto, do encantamento,
da surpresa e do talento. A vida não vale a pena sem
o mistério. E a arte é, e será, o
instrumento e o agente dessa surpresa, dessa
paixão.
Ao aproximar Tomie de Tarsila, Roberto Pontual na verdade
estava identificando as relações e
interações de uma "forma" nacional sobre a
qual não temos a posse, mas sobre a qual nos
relacionamos e nos identificamos. A sensualidade, o gesto
amplo e generoso, a delicadeza das linhas que formam
movimentos de vôo, o "arredondamento", as passagens de
cor orientadas por um mesmo gesto, unem a "caipira vestida
de Poiret", a "dona de casa" imigrante e o "malandro
carioca" que desenha no espaço. Tarsila, Tomie,
Niemeyer constroem, cada qual à sua maneira, o olhar
e reflexão desse olhar brasileiro. Portanto, o
caráter nacional na obra de Tomie Ohtake não
é de maneira alguma epidérmico,
propagandístico. Ela não ocorre devido a uma
atitude, a uma disposição da artista a
valorizar a questão dessa temática. Ao
contrário, é a identificação e a
apropriação desse universo formal por parte da
gente brasileira que faz com que o universal, o geral, o
coletivo, transforme-se em algo que, graças ao afeto,
seja também nacional, particular, individual.
No meio de tanto pessimismo e de tanta desesperança,
a arte de Tomie Ohtake seduz e se impõe soberana em
sua clareza e limpidez.
Conforme anotou poeticamente o mais destacado analista da
arte brasileira da atualidade, Frederico Morais, "O que
primeiro surge no processo criador de Tomie Ohtake é
a forma: nítida, precisa, clara. Uma forma que, vista
no quadro, acrescida de cor e matéria, nós a
guardamos na memória, para sempre: um losango amarelo
desfazendo-se em verde, uma sequência de arcos
amarelos, uma cápsula nublada ou esta forma alada,
azul, numa de suas telas recentes. Formas que nos emocionam
como certas manhãs de sol, muito claras, quando todas
as coisas parecem adquirir o mais perfeito equilíbrio
e unidade, como certas tardes em que a luz pousa suavemente,
deixando-nos maciamente felizes, como certos momentos em que
nos reconciliamos com o sagrado e nos sentimos quietos, em
paz com a vida".
É essa "paisagem" reconstruída por Tomie, essa
aura de harmonia e transcendência, que faz de suas
pinturas um encantamento para o olhar. A cor surge
através da pincelada; ela se esconde, vela e revela,
enriquecendo a matéria pictórica e sugerindo
um corpo estranho e sensual que, ao se vestir, acaba por
acentuar ainda mais a sua nudez.
Marcos de Lontra Costa
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