|
|
Das
séries: a visão singular do artista

obra de Wesley Duke Lee constrói-se
por meio de séries que se relacionam a
técnicas, materiais, processos e
concepções próprios a cada uma. Em
contracanto, permanecem conceitos, substâncias da
forma que o artista capta (por vezes numa narrativa intensa)
e "apresenta" em desenhos, pinturas, gravuras, ambientes,
livros de artista, instalações e
vídeos. Pode-se dizer que a poesia (no sentido mais
amplo e originário da expressão) permeia estas
seqüências, representações diversas
de uma preocupação essencial: os
mistérios da origem, do sagrado, da sexualidade e da
morte. O experimentalismo de Wesley atravessa seu modo de
ser e criar; entretanto, uma conexão profunda subjaz
a essas variantes e orienta as
modificações.
As fontes mais remotas deste conjunto de
idéias/imagens fundamentais estão na
literatura religiosa do ocidente, nos poemas
clássicos, na filosofia e na mitologia gregas, nas
Mil e Uma Noites, nas fábulas infantis, além
de um grande fascínio por textos esótericos em
que o artista inclui os orientais. O ponto de partida de
seus processos criativos, entretanto, é o momento em
que se estabelece um contexto entre eles e os
estímulos do cotidiano, figuras, cenas, pessoas,
animais, "visões" nas quais flagra
manifestações profundas da psique. Diante
delas, o artista procura recriar a realidade das imagens
interiores, dialogando com a tradição e
preocupando-se com o "saber fazer".
Identifica-se com Villa-Lobos pela brasilidade do que chama
"lamentos"; a originalidade de Guimarães Rosa o
encanta; mas, é em Oswald de Andrade e Flávio
de Carvalho que encontra inspiração para
aventuras de vida e espírito.
O aprendizado com Plattner efetua-se num sentido quase
renascentista, tanto pela vivência do atelier, onde
é introduzido ao seu mundo mágico de
reminiscências medievais, quanto pela
iniciação às técnicas mais
antigas.
Assim, entre 1951 e 60, empenha-se em ver e aprender o
domínio sobre os instrumentos, embora não
tendo como objetivo primordial a habilidade e, sim,
manifestar os registros individuais que começam a
emergir. Pode-se dizer que elementos dispersos tempos e
espaços diferentes unem-se, aos poucos, num universo
próprio do artista, território de onde procura
exercer sua capacidade poética.
A lista dos mestres que o mobilizam é muito grande. A
História da Arte não é vista como carga
mas como experiência e cultura, rica herança
com que se relaciona e que incorpora ao seu trabalho, dentro
do sentido grego de que o artista, no momento da
criação, tem contato com Mnemosine - a
memória - o tempo passado no presente.
A cada período de vida, soma encontros, achados,
referências e novos instrumentos da técnica que
lhe abrem territórios para a expressão. Da
têmpera sobre fundo a ouro com que principia, passa
pelo óleo e acrílica sobre tela, colagens,
frotagens, xerox, polaroid, vídeo, computador
gráfico e chega à pintura escaneada
eletronicamente.
O desenho permanece como técnica fundamental,
processo primordial de delineamento da imagem,
expressão visível mais direta dos
conteúdos interiores.
Cacilda Teixeira da
Costa
|
|