Exposições
Artes Plásticas:

•Arcangelo Ianelli- pinturas
•Arcangelo Ianelli- esculturas
•Tomie Ohtake
•Wesley Duke Lee
•Alfredo Aquino
•Siron Franco - pinturas
•Siron Franco- esculturas
•Emanoel Araújo
•Arthur Luiz Piza
•Paulo Amaral
•Elizethe Borghetti
•Alex Flemming
•Manfredo de Souzanetto
•Thomaz Ianelli
•Frans Krajcberg
•Taro Kaneko
•Francisco Stockinger
•Felix Bressan
•Mauro Fuke
•Renata Barros
•Evandro Carlos Jardim
•Daniel Senise


Fotografias:

•Marcos Magaldi

•Pierre Yves Refalo

•Lily Sverner

•Manuel da Costa

•Cristiano Mascaro

•Luciana Napchan

•German Lorca

•Claudia Andujar

•Ella Dürst
•Mauro Holanda
•Leonid Streliaev

•Leopoldo Plentz
•Lisette Guerra

 


DESENHO ANÔNIMO

(sexta-feira - 10 de agosto de 2001)

Os imigrantes que vieram para o Rio Grande do Sul (inicialmente as levas do início do século XIX, logo após a Independência do Brasil, por influência direta da Imperatriz Dna. Leopoldina; e posteriormente no contexto das políticas de colonização do final do século XIX, estimuladas pela necessidade de nova mão de obra que substituísse a força da escravidão, em vias de se extinguir) portavam a herança de um conhecimento secular, desde as suas terras de origem.

Após a vinda dos açorianos (de origem portuguesa) que formaram os primeiros núcleos urbanos junto ao litoral gaúcho e sobre as planícies irrigadas mais acessíveis da região, os primeiros imigrantes ao Sul foram os alemães, provenientes das áreas mais urbanas próximas à Áustria, seguidos pela chegada de novos grupos procedentes das regiões rurais do vale do Reno. Estes imigrantes de origem prussiana, bávara e austríaca ocuparam regiões dos vales dos rios dos Sinos, Caí e as primeiras encostas das regiões serranas gaúchas. Dentro deste cenário logo incluíram-se as imigrações italianas a quem foram destinadas as escarpadas e úmidas regiões da serra, em meados e final do século XIX.

Eles trouxeram algumas poucas ferramentas e outros tantos objetos de uso doméstico, uma férrea vontade de trabalhar e a ambição de crescer integrando-se ao novo mundo (ambiente que, em certos momentos, mostrou-se-lhes áspero, preconceituoso e até mesmo hostil) onde havia a necessidade de muita coisa e, literalmente tudo a fazer.

Foram imigrantes pobres, de pouquissimas posses, com carências culturais significativas, crenças religiosas diferenciadas, falando e escrevendo em idiomas estranhos e que chegavam identificados como mão de obra barata. Isso foi motivo de inúmeros e graves conflitos nas regiões em que se instalaram, com habitantes anteriormente ali localizados, com seus preconceitos e hábitos arraigados; e pelo choque cultural inevitável que atingiu a todos e contribuiu para a formação das peculiaridades sociais da colonização efetivamente realizada por estes imigrantes.

Com o pensamento ordenado pelo bom-senso, dentro da economia em que viviam e o olhar voltado para as necessidades imediatas, para o núcleo familiar e para a sua comunidade, eles desenharam os artefatos, as ferramentas, os utensílios, os brinquedos para suas crianças e os enfeites e adornos para as suas festas (cerimônias religiosas, casamentos, etc.).


Cavalinho de brinquedo
Um belo e elegante exemplar dos brinquedos que eram confeccionados a mão pelos próprios imigrantes para suas crianças.


Este comportamento foi fruto da necessidade, de uma emergência para sobreviver, para conseguir trabalhar, construir uma cultura local, integrar-se e constituir núcleos comunitários vivos e atuantes, onde fosse possível produzir alguma coisa, gerar proteção e riqueza, estabelecer vínculos e resgatar tradições.

Os objetos desenhados e executados (em madeira, ferro, ligas de metais, cerâmica e porcelana) são os vestígios e os documentos materiais de uma saga onde os protagonistas anônimos modificaram a trajetória de seus destinos e nos legaram a beleza de suas pequenas peças, singelos potencializadores de esforços coletivos, onde não está ausente a força de suas individualidades criativas.

Nesta mostra Desenho Anônimo (a exposição é ampla e apresenta uma seleção de cerca de 2000 peças entre ferramentas, utensílios, objetos, brinquedos, quadros e adornos) podemos acompanhar didaticamente o desenvolvimento de um pensamento pragmático e direto que se junta aqui e ali a sutis manifestações de fantasia (onde esta se revela mais constante do que se poderia crer) - ou o que justificaria a existência de uma plaina esculpida em forma de barco, que resulta confortável e firme quando em uso? Ou o que determinaria a presença alusiva de uma pequena pata de cavalo com seu casco (uma imagem escultórica pontual e realista) num instrumento utilizado para a limpeza dos cascos destes animais, trazendo em si próprio a imagem da finalidade de seu uso ?

Este desenho, anônimo e de encantos singulares, pode ser representado simbolicamente por uma das peças da coleção - objeto singelo e curioso: um espremedor de laranjas, feito de maneira rústica onde a intenção não pode ser mais clara, no qual a engenharia é bastante simplificada, nele existe uma manivela, um eixo, uma ponta esculpida para a extração do suco, uma canaleta, uma base com reforço de travessas... no entanto, este objeto é capaz de surpreender por sua forma criativa, de captar a nossa admiração e de nos fazer esboçar um sorriso ao observá-lo.


• Espremedor de frutas
Artefato em madeira entalhada, cavilhada e fixada por pregos, traz um desenho simples,criativo e extremamente pertinente à sua função.

Ele é o símbolo potente desse desenho sem assinatura, que une a surpresa de um olhar curioso com a beleza e a aguda pertinência visual de sua utilização.

Esta é a mostra do Desenho Anônimo, legado da imigração no Sul do Brasil, e foi garimpada com flagrantes dificuldades e muito critério estético por colecionadores sistemáticos e eruditos, ao longo de mais de 30 anos de dedicação à coleta, à seleção e à classificação destas obras.

São peças raras, preciosas e fundamentais para se compreender o fenômeno cultural da imigração, que muitas vezes ficaram deliberadamente esquecidas, descartadas, destruídas ou relegadas aos sótãos empoeirados, nestas trilhas da memória dos esforços hercúleos de grupos que chegaram humildemente a um país estranho e aqui souberam deixar uma marca de dignidade.

São artefatos cheios de imaginação e onde todos eles possuem características em comum: estão carregados de história, sagrados pela utilização intensiva, produtores que foram de outros objetos ou de alimentos, instrumentos de serviços cotidianos (alguns simples, outros um pouco mais complexos) que são as testemunhas silenciosas da história do desenvolvimento e do enraizamento social destes grupamentos humanos que mudaram de continente, de hábitos e que renovaram elos de convivência, enriquecendo a formação de um País com o seu trabalho, a sua perseverança, sua disciplina e o seu fervor.




alfredo aquino
- É artista plástico, pintor e curador da mostra Desenho Anônimo.

http://www2.uol.com.br/animae/desenhoanonimo


para imprimir
envie esta página