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Gritos da Rua

As fotos de crianças carentes gritando, realizadas por Luciana Napchan, nos desconcertam porque nelas não há o clichê esperado : o da tristeza, o da pobreza infame, o da violência absurda e o da iniqüidade covarde.

Quando vemos fotos de crianças dentro desse contexto, normalmente em preto & branco, o tema previsível e maniqueísta é o de um doentio mundo adulto, submetendo crianças à torturas definitivas - o exemplo comovente de cruéis bombardeios sobre crianças asiáticas, a olimpíada da fome africana ou cenas de brutal trabalho infantil , na América Latina.

Fica então uma pergunta, sempre sem resposta, sobre a ótica especular : de que lado estaria realmente o fotógrafo? o que ele fazia ali? por que o seu distanciamento, sua frieza, sua aparente falta de ação, sua superioridade?

O fotógrafo assume deliberadamente o papel fora da cena e nos dá a sua identificação, ele é como se fossemos nós, é o nosso olhar. Somos as testemunhas e os juízes da injustiça praticada por uma sociedade - "eles" - contra aquelas crianças. Tudo é terrivelmente inaceitável, as crianças sofrem e "eles" (figuras nebulosas e sem rosto) são os responsáveis. Essas fotos tão brutais, denunciadoras e quase caricatas passam ao largo da nossa responsabilidade.

As fotos de Luciana Napchan vão mais fundo nessa responsabilidade cidadã. São obras de arte, sem dúvida. São também mais sutis e arrebatadoras. As crianças, fixadas a cores como em nossa realidade objetiva, gritam com fervor e em sua humanidade existe alegria, inocência e principalmente esperança.

A nossa identificação não é com o fotógrafo que julga, passa nesse instante a ser com as próprias crianças e essa é a novidade que nos propõe a artista-fotógrafa.

São as cenas de uma realidade sem distanciamento, essa verdade que nos traz à reflexão sobre a nossa responsabilidade, sobre essa nossa cidadania arruinada pelo egoísmo do conforto individual e pelas limitações das dificuldades cotidianas. Como tudo está muito difícil, tentamos antes resolver nossos próprios problemas e deixamos essas crianças de lado - para o futuro, como se elas fossem um cenário onde o tempo não passa, como se elas próprias não tivessem um futuro...

Mas essas crianças estão aqui ao nosso lado e o seu alarido não é um desafio ou um enfrentamento... É um grito de alerta, uma possante remissão aos nossos gritos infantis. Descobrimos então, assustados e com certa amargura, que somos exatamente como elas e nessa lembrança está a contribuição arguta da fotógrafa, que se esvanece com delicadeza na sua autoria e nos deixa, silenciosos, a olhar (talvez com pouco mais de atenção) para essas pequenas criaturas que gritam...



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