Olhar Meridional
 
 
 

A fotografia está cada vez mais presente no dia-a-dia das pessoas. Nos periódicos, nas informações coloridas através da imprensa, nos vídeos e em especial agora, na internet. O mundo (como sempre foi) se faz cada vez mais visual, pela praticidade e pela riqueza de documentação que a fotografia propicia. As pessoas, de um modo geral, sentem-se capazes de fotografar, impelidas pelo desejo de documentar momentos familiares, paisagens, trabalhos, etc.

A publicidade e os quiosques 1hora são, em boa parte, responsáveis pela convicção geral de que todos podem fotografar competentemente.

Existe, de fato, um número crescente de pessoas que sabe enquadrar um tema, resolver problemas de incidências de luz, sabe controlar bem os tempos de exposição, acertar o foco e realizar assim fotos de qualidade.

Isso também se aplica ao profissionais que dominam a técnica, dispõem de equipamentos sofisticados, computarizados, com lentes de altíssima definição. O universo tecnológico é dinâmico e novas conquistas no segmento tecno-científico chegam às revistas especializadas e aos estúdios rapidamente. A fotografia publicitária, por ser mais rica (e profissional), sempre se equipa primeiro e avança velozmente no domínio dos truques da luz e das aparências.

No entanto, se existem muitos fotógrafos bons, amadores ou não, existem bem poucos grandes fotógrafos e estes são conhecidos, individualmente, pelos nomes. É assim no Brasil, como no mundo todo.

Porque isso acontece? Aqui entramos num espaço mais exigente e sensí-vel, o do plano das idéias, o do pensamento individual e o da conduta original. Por esses motivos, estes grandes fotógrafos são nomeados, são reconhecidos como indivíduos criativos.

Fotógrafos que desenvolveram suas temáticas, suas formas singulares de olhar o mundo e inscreveram seu nome nesse seleto grupo de artistas - Atget, Cartier-Bresson, Doisneau, Sebastião Salgado, Irving Penn, Man Ray, Helmut Newton, Ansel Adams, David Hockney, etc.

Ocorre ainda o fato significativo desses fotógrafos publicarem livros com seus trabalhos, revelando a sua maneira de olhar - fotografias têm a reprodutibilidade como necessidade de origem e por vocação primeira. Surpreende e emociona ver como esses fotógrafos lançaram seu olhar sobre o mundo e sobre os seus temas, com enfoques tão pessoais.

Alguns profissionais procuram imitar essas formas originais, vão buscar confortavelmente o conceito das idéias daqueles grandes fotógrafos - isto os faz fotógrafos mas não os faz grandes.

Essa decisão os circunscreve ao círculo de giz de sua próprias regiões, limita-os a ter uma linguagem universal que somente se aplica a um pequeno local, uma vez que, em outras paragens, aquelas fotos que eles ainda farão amanhã já foram vistas e já mereceram a atenção generalizada (pelo menos, as originais o foram). Naturalmente isso só engrandece o nome daqueles fotógrafos que foram capazes de pensar antes, desenvolver suas idéias, realizar suas fotos e divulgá-las pelo mundo.

Leonid Streliaev é um grande fotógrafo. Ele sabe fotografar e isso é apenas o fundamento necessário. Ele se torna grande a partir do fato, importante, de ser o primeiro a esquadrinhar e fotografar a sua região de uma maneira pessoal e muito original.

Ele fotografa exaustivamente os hábitos, os costumes, a gente, os casa-rios, as ruínas, as praias, as paisagens inusitadas ou não. Ele o faz de uma maneira subjetiva, única, com uma estética pessoal, inventada, que não se compara a de ninguém.

Sua trilha de garimpagem especular se estende da Bacia do Prata aos contrafortes e planaltos da Serra Geral (regiões gaúchas com línguas e bandeiras de países diferentes, de sotaques e colonizações extraordinariamente mescladas), com as quais o fotógrafo tem familiaridade e sobre as quais lança seu olhar meridional. É por ali que ele conversa com as pessoas, divide o alimento, recolhe as imagens que terão uma poética somente divisada, à distância, em alguns textos de Jorge Luis Borges, Bioy Casares e Érico Veríssimo.

O fotógrafo Leonid Streliaev percorre a sua região como ninguém o fez anteriormente, fotografando. Ele se faz intensamente regional e com isso amplia-se de maneira global. Sobre suas imagens, que não se referenciam em quaisquer similitudes, recai o interesse de outros locais, de outros povos, de outras formas de olhar, que se surpreendem e se interessam por suas revelações e pela sua originalidade.

   
   

 

 
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