Depoimentos

caetano

Verdade Tropical
Companhia das Letras

Acompanhe aqui o interessante relato de Caetano, no seu livro Verdade Tropical (págs 446-449).

"...É curioso que o livro de Heidegger sobre Nietzsche me tenha sido dado a ler, faz pouco tempo, por Antônio Cícero. Ao contrário de Mautner, Cícero, em Londres, parecia não querer interferir nos nossos pensamentos. No máximo, ele mais funcionava como um copy desk de nossas conversas. Com total despretensão, estava sempre disposto a rearranjar uma frase que um de nós tentasse construir, de modo a fazê-la mais adequada à veiculação da idéia que queríamos expressar. Ele sempre a fazia mais sucinta.

Cícero chegou ao 16 de Redesdale Street como um mensageiro sem qualificações especiais a não ser o fato de ser parente distante de Dedé e Sandra. Alguém da família tinha mandado não sei o que para elas através dele e nós logo o achamos simpático. Viera acompanhado de Ronaldo Bastos, o letrista das canções de Milton Nascimento, que eu já conhecia por causa de sua amizade com Torquato. Ronaldo contou que Cícero estava em Londres estudando filosofia. Aos poucos sabendo que ele lera marxista da linha althusseriana mas estava estudando lógica com os ingleses - o que não deixa de ser uma combinação curiosa.

Mas Cícero não falava dessas coisas assim diretamente em conversas. Lembro de um dia em que Brian Darling, um professor universitário inglês a quem Violeta Arraes Gervaiseau nos recomendara e que foi boníssimo conosco, discutia a crítica althusseriana ao "historicismo", e Cícero se viu instado a argumentar. Fiquei impressionado com sua clareza. Ele falava inglês com um acento britânico universitário e defendia sua posição com tanta segurança que Darling teve que desistir dos aspectos teóricos. "O que importa é que um Marxista esteja fazendo alguma coisa pela causa, o resto é complicação desnecessária".

Cícero falava de nossa aventura com entusiasmo contido. Mas sempre situava nossos atos e idéias de modo a pô-los em proporção. Seu realismo era sereno. Ele simplesmente dava grande importância ao clima que se fizera possível no Brasil por causa da entrada em cena dos baianos. Sem fazer confusão entre os estudos filosóficos e os poéticos - que sempre tinham sido o seu principal interesse - e os fenômenos de massa, e sem adotar o tom apocalíptico então em voga, Cícero considerava o peso do que acontecia na seara da música popular, sobretudo sentia-se estimulado pelo que nós tínhamos feito acontecer no Brasil.

Era importante que tivéssemos destronado o nacionalismo populista; era importante que considerássemos a modernidade como um valor universal e que tomássemos desafiadoramente o seu partido; era importante que algo assim ocorresse na órbita em que nos movíamos, isto é, a música popular e o show business.

Ao contrário de Mautner, Cícero quase nada nos revelava de suas pesquisas filosóficas em andamento. Não por falta de generosidade, mas por modéstia e medo de importunar. Foi somente a partir do instante em que lhe comecei a fazer perguntas muito específicas que se animou a me expor suas posições, certezas e dúvidas. Também ele veio a trabalhar com música popular depois da volta ao Brasil, embora isso nunca tivesse feito parte de seus planos. Ele sempre escrevera, ao lado de suas reflexões filosóficas, alguma poesia. Também, ao contrário de Mautner, poesia classicamente erudita, sem nenhum traço de cultura pop.

Marina, sua irmã mais nova, uma bonita menina de cabelos crespos e personalidade forte, revelou, ao fim da adolescência - que coincidiu com o nosso retorno ao Brasil -, talento para cantar e compor canções. Ao profissionalizar-se, ela pegou um dos poemas de Cícero e, para sua surpresa, transformou-o em canção. Marina, com uma voz personalíssima e um jeito determinado, veio a se tornar uma estrela pop nacional.

Por alguns anos manteve a tradição de gravar parcerias suas com seu irmão, que assim ganhava algum dinheiro. Depois de algum tempo, ele se afastou da canção para poder dedicar-se àquilo que mais gosta: filosofia e poesia. Várias das canções que compôs com Marina se tornaram grandes sucessos populares - e todas são bem escritas.

Recentemente, Cícero publicou um livro de filosofia ( O Mundo Desde O Fim) - o seu primeiro - que é - embora a academia finja ignorar um dos maiores acontecimentos intelectuais do final do milênio no Brasil. Trata-se de uma petulante retomada do cogito cartesiano em termos radicais, o que vale por um escândalo no ambiente acadêmico brasileiro, dividido entre comentadores e do marxismo frankfurtiano e comentadores do pós-estruturalismo francês.

Se eu lera, em 68, em Tristes Trópicos, de Lévi-Strauss, que "o eu não é simplesmente abjeto - ele também é impossível", e reconheço no esforço para superar o cogito - sobretudo no esforço para fingir-se que se o superou - a motivação básica das pretensões intelectuais e filosóficas do nosso século, não posso deixar de considerar o tamanho da ousadia de Cícero. E o próprio tom do livro - escrito num português excepcionalmente belo e sereno - revela que ele chegou a esse lugar depois de percorrer com sinceridade e inteligência os problemas essenciais que tal posição implica.

O livro é uma afirmação radical da modernidade nascida com Descartes - contra todas as investidas antiiluministas que inspiraram grande parte do pensamento contemporâneo - e põe o Brasil na responsabilidade extrema de ser, não o grande exotismo ilegível que se opõe à razão européia, mas o espaço aberto para a transição para (parafraseando Fernando Pessoa sobre Mário de Sá Carneiro) um Ocidente ao ocidente de Ocidente. O que não é, de modo nenhum, a mesma coisa que inibir o Brasil, como querem fazer muitos acadêmicos que se crêem antifolclorizantes, reduzindo-o a um bom comportamento dentro de parâmetros "ocidentais" cristalizados.

Com isso, Cícero destrói a falsa opção para o Brasil entre a bizarria estridente e imitação modesta. Ter ele chegado a esse ponto, para mim, representa uma confirmação da identidade profunda que senti com sua percepção das coisas, desde Londres. E o faz situar-se, em minha imaginação, não distante do Mautner do transliberalismo delirante - e com batuque.

Mautner é três anos mais velho que Gil e eu, e foi, sob vários pontos de vista, um precursor do tropicalismo (nós o chamávamos com ternura e ironia, de mestre), enquanto Cícero, uns quatro anos mais novo que nós dois (uns sete mais novo que Mautner), foi ele próprio levado a dar guinadas em seu pensamento por causa do que julgava ver no que fazíamos, sendo assim, em alguma medida, uma espécie de seguidor do tropicalismo - embora, é claro, não tivesse motivos para nos chamar, mesmo brincando, de mestres.

Mas eu os apresento aqui juntos nesse paralelo por atribuir a ambos - Mautner sendo mais influente do que Cícero na fase Londrina, e este o sendo mais do que aquele depois da volta ao Brasil - papel decisivo na (não por culpa deles precária) organização do meu pensamento."

Copyright © 1997 by Caetano Veloso
"Verdade Tropical" - pags 446 a 449