(Estado de São Paulo, 22 de Dezembro de 1996)

Antonio Cicero investe no ofício de poeta

"Mesmo que seja recomendável que o poeta fique o tempo todo sozinho, nada garante que o que ele faz sozinho seja melhor do que aquilo que ele produz para o show biz"


Foto CiceroAntonio Cicero, o letrista consagrado, parceiro da irmã Marina Lima, o filósofo independente autor de O Mundo Desde o Fim, brilhante ensaio lançado pela editora Francisco Alves em 95, investe-se agora, plenamente da personalidade de poeta. Estão chegando às livrarias os primeiros exemplares de Guardar, seu primeiro livro de poemas, com o selo da Record.

Mas, em vez de clarear uma identidade, o livro vem, sim, ajudar a confundir mais ainda a imagem do intelectual Antonio Cicero.

Antes de tudo, publicar um Livro de poemas não significa, para ele, abandonar a música popular - e morrem aqui as esperanças daqueles que ainda julgam a atividade de letrista uma função menor, se comparada com a suposta nobreza da prática poética.

Cicero não está encenando, de trás para a frente, a vida de Vinicius de Moraes que, em determinado ponto de carreira, saiu da poesia quase que completamente, para entrar nos palcos do show biz. Não está revivendo Vinicius desde o fim.

Outro problema: 14 dos poemas de Guardar são, originalmente, letras de música, de modo que a atividade do letrista, e a do poeta continuam, mais que nunca, a se confundir e a se equivaler.

Antonio Cicero já planeja uma segunda coletânea de poemas, mas continua a produzir letras de música a pleno vapor. E não pretende parar. Cicero já escreveu mais de 150 letras ao longo de 20 anos de carreira.

O percurso na trilha do show biz, de início, surpreendeu os amigos que o conheciam como aplicado e quieto estudante de filosofia na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e, depois, na Universidade de Londres.

Há quem tente atribuir a opção pela música popular à influência da irmã, Marina Lima. Totalmente falso. Cicero escreveu sua primeira letra em 1976. Marina só começou a carreira de cantora três anos depois. Desde muito garoto, porém, já escrevia poemas.

Antonio Cicero é, hoje, um intelectual independente, que pratica a filosofia sistemática, mas está fora dos quadros da academia, que escreve poemas sofisticados, mas frequenta palcos e estúdios de gravação, que compõe letras de música popular, e prefere ler poetas gregos e latinos no original.

Em 1994, em um momento igualmente doloroso e inquietante, ele perdeu o pai, o economista Evaldo Correia Lima, que participou ativamente da célebre equipe do Iseb.

Deu-se conta, então, que, embora fosse um intelectual brilhante, o pai que não gostava de escrever publicou um único artigo ao longo de toda a vida - e, ao morrer, sua obra como que se evaporou.

Cicero olhou para si mesmo e não gostou nem um pouco do que viu: um intelectual que sempre preferiu falar a escrever. Temeu ter o mesmo destino injusto do pai.

Resolveu, então, calar-se e começou a fixar as idéias no papel.
O Mundo desde o Fim, seu primeiro livro de filosofia, foi o resultado mais imediato dessa importante mudança.

Guardar, agora, vem selar em definitivo o aparecimento de um escritor maduro, que não pretende mais parar de escrever.


Q: A poesia é uma novidade em sua vida?

Antonio Cicero - Sempre escrevi poesia, desde os primeiros poemas de adolescente não parei mais. Escrevia, mas não me preocupava em publicar. Depois, veio a carreira de letrista. Muitas das primeiras letras de música que escrevi eram, originalmente, poemas que Marina tomou para ela e musicou.


Q: A música sempre foi mais forte que a poesia?

Antonio Cicero - Ao contrário. Nunca pensei em ser letrista. Minha formação, desde cedo, é em filosofia e, além do mais, não tenho nenhum talento musical. Nunca estudei música. Há três ou quatro anos, decidi fazer uma tentativa tardia e comecei a ter aulas de violão com o AImyr Chediak. Elas não duraram mais que um mês. Desisti logo, descobri que a música não é para mim. Sou completamente desafinado. É engraçado, porque sou um letrista que não sabe cantar, nem tem qualquer jeito para música.


Q: Foi uma surpresa, então, quando os poemas começaram a se encaixar nas músicas?

Antonio Cicero - Muito grande. Alguns poemas tiveram de sofrer pequenas alterações em alguns trechos para se transformar em letras, porque não se adequavam completamente. Não tive nenhum pudor em mexer nos poemas, fiz essas alterações sem nenhum problema de consciência. É o que dizia o Yeats: os amigos que se queixam de que eu não devia mudar o que está escrito, deviam ver melhor do que se trata, pois é a mim próprio que estou mudando.


Q: Você chegou a ter dúvidas em relação à carreira de letrista ?

Antonio Cicero - Não tive tempo. Devo à Marina ter começado a escrever letras. Foi, desde o início, uma surpresa, uma coisa muito inspirada. Aprendi a escrever letras de todos os jeitos: oferecendo o poema pronto ao parceiro, para fazer pequenas modificações depois; trabalhando com ele desde o inicio; ou, o que me parece mais interessante colocando letra em uma música que me é oferecida.


Q: Escrever uma letra para uma música pronta não é uma experiência limitadora?

Antonio Cicero - Não vejo as coisas assim. No passado, os escritores herdavam as formas prontas de poesia: os sonetos, as redondilhas, etc. No nosso século, essas formas fixas se perderam, passaram a ser contestadas e até mesmo ridicularizadas. Mas a música vem oferecer ao letrista uma nova forma fixa que não é vista como ridícula. São as formas fixas, na verdade, que estimulam o trabalho do poeta, que permitem que ele seja feito, e só quem não é poeta se atrapalha com elas. Elas são grandes oportunidades de jogos, de brincadeiras com as palavras. É maravilhosa essa técnica em que a música força o poeta a se enquadrar. Já vi muitos poetas se glorificarem que só fazem letras se podem escrevê-las primeiro, antes da música. Acho isso uma bobagem.


Q: Houve, então, um engano, nessa contestação radical das formas tradicionais.

Antonio Cicero - A contestação das formas tradicionais não é abandoná-las, mas criar outras formas fixas. A invenção de novas formas faz com que as formas tradicionais percam a aparência de sagradas. Por isso, podemos voltar, hoje, às formas fixas. Muitos de meus poemas são sonetos - e escrever sonetos, em um determinado momento de nossas vidas, parecia uma atitude reacionária. Nesse momento, a música popular foi uma saída para os poetas que gostam de trabalhar com formas fixas. Tome um grande poeta como Chico Buarque. Ele gosta de escrever versos tradicionais, em forma de rimas. Se ele praticasse esse tipo de poesia em livro, seria chamado de reacionário, de conservador. Mas na música ele faz e ninguém pode dizer nada. Logo, a música popular permitiu que se exprimissem esses talentos poéticos que gostam da formas tradicionais, como Chico Buarque e Caetano Veloso, e sem ela não teriam como se expressar e talvez até se calassem.


Q: As vanguardas, com certeza, impediram o aparecimento de muitos talentos que não aceitavam, que não se interessavam por seus cânones experimentais. Elas se tornaram muito conservadoras?

Antonio Cicero - As vanguardas cumpriram uma função maravilhosa, uma função civilizadora. Elas destruíram a ilusão de que existem culturas particulares, que são propriedade de cada povo, e abriram o espaço poético para o mundo, inventaram outras culturas. E isso é civilização. Elas tiveram a função de civilizar o mundo. Mas já cumpriram essa função, seu tempo já acabou.


Q: A experimentação se tornou sem sentido?

Antonio Cicero - Claro, ainda existe a experimentação, mas ela não tem mais a mesma função. No Brasil, a vanguarda se manifestou como um movimento construtivista, até por causa de nossa tendência tropical à dispersão. Ela surgiu para trazer o rigor na invenção das formas. Mas isso inibiu muita gente. Os artistas se sentiam o tempo todo obrigados a inventar formas novas. Fazer algo na forma tradicional era o mesmo que nada. Aqueles que não estavam engajados na aventura construtivista passaram a se sentir simples diluidores, e não inventores, ou mestres, para usar os conceitos de Pound.


Q: Como é sua relação com a vanguarda brasileira?

Antonio Cicero - Tenho uma admiração pessoal imensa pelo Augusto e pelo Haroldo de Campos. Tenho até medo de dizer certas coisas e magoá-los, mas é preciso dizer. Acho que essa hierarquia poundiana que coloca os inventores de um lado e os diluidores de outro é absolutamente errada. Não se deve pensar a poesia assim. Na poesia, não é a novidade que conta, mas o imponderável. Goethe, por exemplo, não escreveu o primeiro Fausto, mas fez o melhor. Essa hierarquia poundiana acaba sendo injusta.


Q: Vinicius de Moraes sofreu um grande patrulhamento de seus amigos poetas quando começou a escrever letras de música. Você sente algo parecido?

Antonio Cicero - Nunca achei que o fato de ser letrista me atrapalhasse o percurso de poeta. Há uma diferença básica: para escrever letras, eu dependo sempre de outras pessoas. Eu não faço música, não componho, não sei cantar. A música, para mim, envolve muitas outras pessoas (o parceiro, o instrumentista, o cantor, o arranjador), não é uma atividade solitária como a poesia. Há algo de vulgar, sim, na música, pois ela é uma atividade ligada á indústria Isso não quer dizer, no entanto, que seja melhor o poema que eu escrevo sozinho do que a letra que faço no embate com o mundo real.


Q: Quando você escreve a letra para uma música de Marina, você pensa também na cantora que depois vai interpretá-la?

Antonio Cicero - Escrevo, sim, pensando nela. Mas não me limito a pensar. Quando escrevo, tento também assumir a personalidade de meu parceiro. Ela me faz escrever coisas que eu não poderia escrever com minha voz. Isso se dá, sobre tudo, quando componho com Marina. Envolvo-me muito também com outros parceiros, como a Adriana Calcanhoto. Se é uma música da Adriana, a persona já muda. Mas a persona mais forte é a da Marina, já que ela é minha irmã, conversamos muito e temos muita intimidade. Já no caso de outros parceiros, é diferente. Não sei se posso dizer, por exemplo, que baixa uma Adriana em mim. Até certo ponto, sim.


Q: Por que existem tantos preconceitos contra os poetas que escrevem também letras de música?

Antonio Cicero - Desde Nietzsche que sabemos que o belo não esta ligado ao bem, que o ético é diferente do estético. Mesmo que seja recomendável que o poeta fique o tempo todo sozinho, nada garante que o que ele faz sozinho seja melhor do que aquilo que ele produz para o show biz. Caetano é um ótimo poeta e muitos dos que publicam poemas em livros não chegam a seus pés. Há muita poesia livresca que é uma porcaria. É bom recordar, ainda, que toda a poesia grega, que é a que eu mais frequento hoje em dia, toda ela foi musicada, toda ela não passava de letra de música.


Q: Que poetas você mais lê hoje?

Antonio Cicero - Uma das coisas mais importantes que fiz na vida foi ter estudado grego e latim, durante minha temporada na Universidade de Londres. Hoje leio Homero, Píndaro, Horácio no original e, sobretudo, Ovídio. Tornei-me um leitor muito seletivo. Acho errada essa tendência de hoje que diz que as pessoas devem saber tudo o que se passa sobre o planeta. Acho, ao contrário, que as pessoas devem, agora, selecionar o mais possivel. Quem quer ler tudo, saber tudo, dominar tudo, acaba perdido. Ainda temos muito, no Brasil, esse complexo de "última palavra". É uma coisa muito provinciana. É preciso ir com calma, ir vendo o que realmente pode interessar, o que de fato importa.


Q: Não é uma atitude muito comum. O mundo contemporâneo, com redes a cabo, satélites, fax, Internet, parece exigir que o indivíduo esteja sempre ligado em tudo o que se passa no planeta.

Antonio Cicero - Eu distingo, sempre, o moderno do contemporâneo. O moderno é centrado em si próprio, enquanto o contemporâneo é sempre centrado no outro. Ora, o que importa é a autonomia, é estar centrado em si e não nos outros. As pessoas andam completamente afogadas em informação e isso é muito ruim. Cada um quer estar mais "plugado" que o outro, mais "in", e entramos todos nessa competição louca. Mas eu não sou assim. Sinto-me até meio deslocado, mas essa posição mais solitária me faz muito bem.


Q: Por que você custou tanto a publicar seus poemas em livro?

Antonio Cicero - Eu ouvia meus versos no rádio ou em shows para imensas platéias, então não sentia necessidade de publicar. Nunca tive muito ansiedade em publicar minha poesia. Sempre foi mais importante, para mim, publicar um livro de filosofia e só consegui realizar esse desejo em 1995, quando lancei O Mundo desde o Fim. Tenho uma relação diferente com a filosofia. A poesia não pretende dizer nenhuma verdade, são palavras gratuitas, são proezas, não têm a obrigação de existir. Já a filosofia, pelo menos a filosofia que me interessa, tem a pretensão de dizer verdades e até verdades absolutas. E eu acho que precisam ser ditas.


Q: Dai vir primeiro o livro de filosofia?

Antonio Cicero - Sim. Eu não tinha culpa alguma de não ter publicado meus poemas, mas achava que tinha a obrigação de publicar minhas verdades filosóficas. E a filosofia - a minha filosofia é sistemática, não escrevo aforismos -só pode tomar forma por meio de um livro.


Q: O filósofo inibiu o poeta?

Antonio Cicero - Acho que havia uma inibição, sim. A filosofia inibia a poesia, porque cada vez que eu começava a escrever poemas, eu precisava de disponibilidade total. A poesia exige tempo livre, você tem de estar inteiramente dedicado a ela ou não consegue escrever direito. Ela tem também um lado que não parece sério. Você está todo o tempo brincando com as palavras e isso pode resultar em algo, mas pode ser apenas um delírio. Eu tinha muitas verdades filosóficas engasgadas. Brincar com as palavras me dava sempre muita culpa.


Q: E como esse conflito se resolveu?

Antonio Cicero - O grande impulso veio com uma notícia triste: a morte de meu pai, em 1994. Meu pai, Evaldo Correia Lima, era um economista de profissão e um intelectual brilhante - foi um dos fundadores no Iseb -, mas em toda a vida publicou um único artigo. Com sua morte, eu vi se dissipar todo um mundo cultural, já que praticamente nada ficou registrado e isso me chocou muito. E achei que minhas idéias também estavam sofrendo por não tomarem corpo em livros. Resolvi, então, dar um basta na situação. E comecei a escrever.


Q: Por que você não se preocupava em publicar?

Antonio Cicero - Meu prazer com a filosofia não vinha da escrita, mas sim da fala. Eu tenho essa tendência oral, de gostar de expor as idéias aos amigos, essa tendência da retórica que é uma coisa muito brasileira. Mas a morte de meu pai me chocou muito e eu achei que, então, ou eu partia para escrever, ou simplesmente desistia. Eu tinha muito medo de que meu projeto de livro entrasse para o folclore dos amigos, que virasse "o livro do Antonio Cicero", quer dizer, aquele livro que nunca sai, que nunca ninguém vai ler. Passei, então, a reprimir minha tendência oral, porque descobri que essa ânsia de estar sempre falando para os amigos me tirava muita energia, e eu precisa guardar forças para escrever. E não me arrependo não. Hoje, gosto muito mais de escrever do que de falar.


Q: Como você avalia a repercussão de O Mundo desde o Fim?

Antonio Cicero - Quando se trata de escrever filosofia, há sempre um problema: Ou você escreve para professores e estudantes, e ninguém entende e se interessa, ou você escreve para o público mais amplo, que não lê filosofia. Como eu não dou aula em universidade, mas também não faço filosofia leiga, fiquei sem público. O público universitário, afora exceções, é muito corporativista e se se interessa por aquilo que ele mesmo escreve. A área acadêmica acha que a filosofia pertence a ela, e não pertence. A filosofia é muito anterior à academia.


Q: A poesia surgiu, então, como uma solução ?

Antonio Cicero - Eu não diria assim, mas com a poesia eu já posso sentir outro interesse, porque todo mundo, ou muita gente, lê. Não é preciso ser um especialista para ler poesia, cada um lê como pode. Os leitores de poemas são artistas, pessoas comuns, mais próximas de mim. Então, isso está me dando muita alegria. Pensei que agora ia escrever outro livro de filosofia, mas eu já decidi que antes vou me dedicar a fazer um segundo livro de poemas.


Q: Você tem muitos poemas guardados?

Antonio Cicero - Eu até tenho, mas eles passaram por uma peneira muito fina. Para falar a verdade, eles não são tantos assim. O titulo de meu livro, Guardar, já se refere a isso: só se guarda escritos publicando e não jogando na gaveta. A maioria dos poemas que eu escrevi quando tinha 20 anos hoje não significa mais nada para mim. Outros foram canibalizados, peguei pedaços para usar em letras de música. Mas, se eu os tivesse publicado aos 25 anos, eles não estariam mais guardados em minha gaveta e, ai sim, estariam verdadeiramente conservados. Logo, com o passar do tempo, se você não publica, os poemas vão diminuindo de número e não aumentando.

Texto de Jose Castello/Estado SP