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finalidades sem fim

finalidades sem fim

Companhia Das Letras

Antonio Cicero afirma que a filosofia é o oposto complementar da poesia. Finalidades sem fim é o ponto onde esses opostos se tocam. Nesta reunião de ensaios, o autor se debruça sobre os temas cruciais da criação nos tempos contemporâneos. A limpidez da sua argumentação, sem prejuízo da densidade, lembra o tom equilibrado e luminoso dos seus versos. Sem dúvida, quem comanda a escrita, aqui, é o Antonio Cicero filósofo. Mas também poderia ser o poeta.

O assunto principal é o fim das vanguardas. Para Antonio Cicero, elas cumpriram seu papel; abriram novos caminhos e possibilidades artísticas. No entanto, diz ele, "o fim da vanguarda não é o fim da modernidade, mas, ao contrário, a sua plena realização".

Esta idéia-chave permite ao autor fazer a crítica do vanguardismo sem se confundir com um simples reacionário, e ao mesmo tempo exaltá-lo sem passar por mero epígono. As vanguardas representaram um avanço cognitivo: elas mostraram que a forma artística não se deixa determinar de nenhum modo, e o horizonte da criação se abre em possibilidades ilimitadas. Daí Antonio Cicero poder dizer, sobre as teses vanguardistas em geral: "São verdadeiras na medida em que abrem caminhos, e falsas na medida em que os fecham".

Essa busca de liberdade já se enuncia na escolha do título, que alude à expressão de Immanuel Kant, para quem a beleza está na "finalidade sem fim" das obras de arte. O belo não se submete a nenhum fim: não se deixa determinar por nenhum conceito prévio de moralidade ou utilidade.

E com essa visão a um só tempo aberta e rigorosa que Cicero relê alguns de seus poetas preferidos, como Waly Salomão, Carlos Drummond de Andrade e Homero. Problemas de estética e liberdade também são examinados, num ensaio sobre o tropicalismo e a MPB e numa discussão da obra do crítico de arte Clement Greenberg.

A poesia e a filosofia, como "dois pólos do pensamento", não podem ser reduzidas uma à outra. Mas num ponto o poeta e o filósofo Antonio Cicero coincidem perfeitamente: na mais luminosa e generosa defesa da liberdade de criar.

finalidades sem fim Antonio Cicero nasceu no Rio de Janeiro, em 1945. Formou-se em filosofia na Universidade de Londres. Poeta, tornou-se conhecido em finais dos anos 70 como o letrista das canções de sua irmã, Marina Lima. E autor do ensaio O mundo desde o fim (1995) e de duas coletâneas poéticas: Guardar (1997, Prémio Nestlé de Literatura Brasileira) e A cidade e os livros (2002).


Jornal O Globo - PROSA & VERSO
Rio, 12 de novembro de 2005

Liberdade e aguda ironia
Francisco Bosco

Finalidades sem fim, de Antonio Cicero.
Companhia das Letras, 354 páginas. R$ 48

Pela clareza e rigor expositivos, pela vasta abrangência do olhar, pelo horizonte ético do pensamento (o zelo pela liberdade) e, sobretudo, pela perspectiva teórica original, o novo livro do poeta e filósofo Antonio Cicero, "Finalidades sem fim", uma reunião de ensaios escritos entre 1998 e 2003, deve ser saudado como um acontecimento intelectual relevante no país, uma contribuição teórica que se coloca em pé de igualdade com alguns dos maiores ensaios escritos, em português ou em qualquer outra língua, sobre os principais temas que se propõe pensar, notadamente: a questão da modernidade, a experiência das vanguardas, e a relação entre modernidade e vanguardas.

Ensaio de abertura sobre poesia e paisagens urbanas

Com efeito, são esses os temas que ora constituem o objeto principal, ora atravessam a mirada dos nove ensaios que perfazem o livro. A clara perspectiva teórica de Cicero já se deixa compreender inteiramente no ensaio de abertura, "Poesia e paisagens urbanas". Nele, o ensaísta defende que o saldo da experiência das vanguardas foi um "progresso conceitual ou cognitivo", isto é, a consciência, através da relativização das formas (não confundir com relativismo, que é uma corrente filosófica de cuja epistemologia Cicero parece discordar fundamentalmente), de uma "essência negativa" da poesia - leia-se: da arte -, ou seja, de que nenhuma das convenções formais que a poesia assumiu historicamente (por exemplo: a rima, a forma fixa, o metro, o léxico nobre, o tema, etc.) confunde-se com uma essência positiva da poesia.

Assim, "todas as possibilidades formais descobertas continuam disponíveis e são empregadas em algum momento ou lugar", pois "o verdadeiro sentido da vanguarda não foi a renúncia, mas a desprovincianização e a cosmopolitização da poesia". De onde se conclui que o poeta moderno - aquele "que vive depois que a experiência da vanguarda se cumpriu" - detém a liberdade de usar quaisquer formas, de acordo com suas necessidades estéticas, sendo obrigado, entretanto, a estar consciente desse saldo histórico das vanguardas. A consciência desse saldo é precisamente um dos sentidos possíveis da palavra ironia na contemporaneidade: consciência crítica de uma dada situação histórica.

A falta de uma tal ironia, como se observa em muitos artistas contemporâneos, pode verificar-se (com pífios resultados estéticos) tanto, por exemplo, em um poeta que escreve sonetos como se o verso livre nunca tivesse existido, como em um poeta que escreve poemas concretos como se a vanguarda não tivesse acabado.

E o acabamento da vanguarda é o que defende Cicero, em seu duplo sentido, o de plena realização e o de impossibilidade de continuação histórica: pois se o sentido das vanguardas (às vezes malgrado elas mesmas, que freqüentemente tinham como objetivo a determinação de uma essência positiva da arte) foi a consciência de que não se pode determinar "ex" ante uma forma enquanto garantia da arte, esse sentido já foi cumprido, e não se pode nem voltar atrás dele, nem ir adiante. Não estar consciente disso é o que leva alguns artistas à pretensão de fundar no experimentalismo formal uma garantia da arte.

Ora, primeiramente, esse suposto experimentalismo é ele mesmo questionável, pois, em geral, não passa de uma reedição formal de experiências de vanguarda; depois, tendo o "progresso cognitivo" da vanguarda se cumprido, o experimentalismo perde seu sentido conceitual (que, na época das vanguardas, era capaz de lhe dar uma garantia, não estética, mas, precisamente, conceitual) e passa a ser uma possibilidade formal como qualquer outra, tendo que fundar sua qualidade artística em sua própria composição interna.

Autor de sonetos totalmente contemporâneos

Daí a necessidade de todo e qualquer artista, use ele formas pré-modernas ou características vanguardistas (e é bom lembrar que, em um sentido mais profundo e decisivo, toda verdadeira arte é experimental), estar consciente de sua situação histórica. Nesse momento é oportuno lembrar que o poeta Antonio Cicero detém, como não poderia deixar de ser, essa aguda ironia (no sentido acima mencionado): ele é, por exemplo, autor de alguns sonetos absolutamente contemporâneos.

Até aqui, entretanto, em que pesem a clareza e a precisão conceitual na exposição do tema, acredito que não há propriamente originalidade na compreensão do sentido das vanguardas por Cicero. Tal originalidade reside em sua concepção de modernidade. Esta, segundo Cicero, determina-se menos por marcadores temporais do que por certas características éticas, ontológicas e estéticas. Fundamentalmente, a modernidade é a época (época de pensamento, mais do que histórica) da dúvida, do indeterminado, do aberto, ou, como queria Kant, da crítica. É assim que, no belíssimo ensaio "Proteu", Cicero argumenta que Anaximandro, com seu pensamento do ápeiron (que Cicero traduz do grego como "o indeterminado"), é mais moderno do que Platão, com sua ontologia essencialista. Para Cicero, portanto, toda vez ou toda época em que uma determinada essência positiva pretende usurpar o lugar do indeterminado como princípio, ocorre um afastamento da modernidade.

A plena realização da modernidade

Tendo o indeterminado, e seus corolários de abertura, relativização e liberdade como pedras-de-toque, Cicero pode então mensurar o grau de modernidade de artistas e pensadores. Dessa forma, não apenas o antigo Anaximandro (e também Homero, cujo Proteu é a própria indeterminação encarnada) é um pensador moderno, como certos modernistas acabam por se revelar um tanto "modernófobos": é o caso, por exemplo, e por diferentes razões, de Eliot e Pound, e, entre nós, de Mario de Andrade (como Cicero argumenta em "Limites do moderno, ou de Mario de Andrade?").

A formulação final, a conseqüência lógica de uma tal concepção da modernidade é a de que "o fim da vanguarda não é o fim da modernidade, mas, ao contrário, a sua plena realização". Bem diferente, seja da concepção baudelairiana de modernidade (segundo a qual toda época tem a sua modernidade), seja da concepção de acordo com a qual o fim das vanguardas conduz ao pós-moderno (com seus complexos de epigonalidade), a perspectiva de Cicero afirma a plena modernidade no momento mesmo em que muitos julgavam-na perdida. Como não acolher um pensamento que supera criticamente toda tendência à nostalgia e, no mesmo lance, afirma a imanência, a beleza, a liberdade? Agora descubra, de verdade, o que você ama: e tudo pode ser seu.

FRANCISCO BOSCO é escritor, ensaísta e letrista
http://oglobo.globo.com/jornal/Suplementos/ProsaeVerso/189126737.asp

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