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Resenha de A Cidade e Os Livros, de Antonio Cicero (Ed. Record, 2002)
Por Alberto Pucheu (Alberto Pucheu é poeta e professor de Teoria Literária da UFRJ)
Imagino como deve ter sido difícil para Antonio Cicero escrever seu mais novo trabalho poético, A cidade e os livros. Guardar, o anterior, recebeu elogios, honras, prêmios... merecidos; nele, havia poemas de primeira grandeza, como, por exemplo, o que o intitula, definitivamente incorporado aos melhores de nosso tempo e digno de representar nossa língua em qualquer olimpíada literária, se existissem tais festividades agonísticas. Assim, não são os seis anos de intervalo entre um livro e outro que me fazem vislumbrar a suposta dificuldade do poeta em escrever o que ora se publica - para a poesia, a cronologia não faz a menor diferença: refiro-me à responsabilidade com a qual um criador tem de se comprometer para intensificar suas melhores apostas, mantendo-se cada vez mais à altura delas e elevando-as a patamares ainda não atingidos. Pois foi essa a conquista maior de Antonio Cicero: a de se tornar o supra-sumo de si mesmo, através da consolidação de uma poética que desconhece o mínimo resvalo.
Penso que um artista só se mantém grande enquanto se surpreende com a obra que o atravessa - tornar-se si mesmo é descobrir-se, inventar-se. O próprio Antonio Cicero deve ter se admirado com o nascimento do coeso e harmônico conjunto de poemas que vai se desdobrando com a alta voltagem de pensamento que lhe é peculiar. Nele, até mesmo o rigor da métrica está submetido à sintaxe de um pensamento contundente, nunca se permitindo ser o adorno de um artesão que buscasse convencer o leitor de sua perícia técnica. Não! Aqui, a técnica está a serviço da completude da criação, não o inverso: entre o grito e os grilhões, a justa medida de um pensamento que se alia ao dizer do coração. Seduzido constantemente pelos excessos de Tâmiris, Ícaro e Prometeu, Cicero conhece as punições por eles recebidas, não ultrapassando nem ficando aquém, então, do extremo limite que lhe é destinado. Há, nesses poemas, a serenidade de um saber lírico, ou mesmo trágico, em constante estado de perplexidade: basta alguém abrir o livro, para um dos escritos manifestar o que estou dizendo, quem sabe Huis clos ou o maravilhoso e horaciano Buquê (Desprezar a morte, amar o doce,/ o justo, o belo e o saber: esse é/ o buquê. Ontem nasceu o mundo./ Amanhã talvez pereça. Hoje/ viva o esquecimento e morra o luto.), que alia a amizade do destinatário do poema a um saber... uma filosofia?
Já se tornou lendária a freqüente recusa do autor em associar poesia e filosofia (suas áreas de atuação), sob o pretexto hegeliano de a primeira se interessar pelo particular enquanto a outra se aventuraria pelo absoluto. Eis que, no primeiro poema de A cidade e os livros, Prólogo, pela primeira vez, se dá a reviravolta explícita, pois, implicitamente, ela já se fazia desde o primeiro poema do livro anterior. No Prólogo, atual, a poesia começa seu movimento justamente por aquilo que, outrora, se queria como o cerne apenas do filosófico: Por onde começar? Pelo começo/ absoluto, pelo rio Oceano,/ já que ele é, segundo o poeta cego/ em cujo canto a terra e o céu escampo/ e o que é e será e não é mais/ e longe e perto se abrem para mim,/ pai das coisas divinas e mortais,/ seu líquido princípio, fluxo e fim (o grifo é meu). Tal assimilação poética do absoluto não significa a submissão de uma das regiões do pensamento à outra, mas implica, mais propriamente, a atualização filosófica da arcaica ambiência mítica da poesia, como se essa viesse exigindo de poetas atuais a recuperação de um vigor esquecido, para que conseguisse ampliar suas manobras de reflexão no mundo contemporâneo. Se a poesia de Antonio Cicero pode ser filosófica, não é, evidentemente, à maneira dos poetas metafísicos ingleses, por exemplo, mas à maneira grega de um Parmênides e um Empédocles, à maneira latina de um Lucrécio...
Nesse ponto, entretanto, é preciso cuidado. Ao contrário de tentativas que acreditam visitar o mundo clássico pela erudição, privilegiando, nostalgicamente, a um presente supostamente ignóbil e constantemente ultrajado, a grandeza de um passado em que buscam se consolar, Cicero, em outro pólo, se arma da antiguidade com o único objetivo de conquistar uma afirmação incondicional do momento presente. Não há Grécia sem o elogio do aqui e do agora, quaisquer que sejam. Não há Grécia sem o assumir voluntário de nosso próprio destino e vicissitudes. Não há Grécia sem querer exatamente o que se passa na esquina próxima aqui da rua e neste quarto onde escrevo e nessa sala na qual você, leitor, lê o jornal de sábado. Não há Grécia sem que se consiga transformar a vitrine em poesia, como um dos poemas do livro faz belissimamente. Por isso, Antonio Cicero fala o tempo todo do momento atual, como em Alguns versos que, depois de mencionar o cotidiano na tela de seu computador, na acácia à sua janela, no companheiro que está para chegar, conclui: (...) E de repente, de fora/ do presente, pareço apenas lembrar/ disso tudo como de algo que não há de/ retornar jamais e em lágrimas exulto/ de sentir falta justamente da tarde/ que me banha e escorre rumo ao mar sem margens/ de cujo fundo veio para ser mundo/ e se acendeu feito um fósforo, e é tarde.
Contra o memento mori dos eruditos de certidão cartorial, o memento vivere de poetas que instauram uma completa adesão - tão necessária ao nosso tempo - a uma vida gratuita que sabe que Deus não existe nem faz falta, e que, justamente por isso, canta a beleza e a dor, a amizade e o amor, a cidade e os livros, a Alice e o museu de Niemeyer, o prisioneiro e o carcereiro, as criaturas, enfim, na luta da imanência. Nietzsche estabeleceu o único critério que me parece válido - um critério superior a todos os demais que conheço - para distinguir a arte: foi o ódio à vida ou o excesso de vida que aí se fez criativo? Não são muitos os livros que podem atravessar, felizes, essa pergunta. Leiam A cidade e os livros.
Publicado em 14/09/2002 no JB, seção "Cultura e Lazer", caderno Idéias
     
     
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