Guardar é o primeiro livro de poemas de Antonio Cicero
(Vencedor na categoria poesia do Prêmio Nestlé de Literatura Brasileira 1997)
Nem por isso se trata de um livro de estréia. Tendo se dedicado tanto a letras de canção quanto à filosofia, ele já era um autor
conhecido.
E na sua poesia agora impressa convergem ambas as vertentes, que, aliás, raramente
costumam coexistir numa mesma pessoa.
Seus poemas reúnem elementos de um discurso filosófico que não se deixou engaiolar num
prosaísmo árido e o "cantabile" de canções que nada têm de ingenuamente romântico.
Não o fazem, porém, todos da mesma forma nem em proporções idênticas.
Há, em "Guardar", baladas em metros curtos e regularmente cadenciados e textos em verso livre; há uma vertente epigramático-irônica e uma sonetístico-rebuscada, tudo oscilando entre um pólo que, mais do que barroco, é maneirista na complexidade sintática de seu desenvolvimento e um outro, oposto, que poderia ser chamado de celebratório.
Como diz Silviano Santiago em sua apresentação:"Antonio Cicero é um herdeiro das superfícies e das profundezas".
Vários são os recursos mobilizados no correr do livro.
A paronomásia merece um lugar de honra em poemas como "Rapaz". "Hesitante entre o mar e a mulher/ a natureza o fez rapaz bonito,/ rapaz pronto para amar e zarpar.// Também ao poeta apraz/ o ser rápido e rapace" - um texto em que o "Rapaz" do título reaparece em "zarpar", "apraz", "rápido", "rapace", estabelecendo um nexo subterrâneo que, sem escancará-la, patenteia a obsessão do poeta por aquilo que observa.
Recurso parecido multiplica os sentidos de um poema breve como "Voz": "Orelha, ouvido, labirinto:/ perdida em mim a voz de outro ecoa? Minto:/ perversamente sou-a".
A chave aqui é a seguinte: "sou-a" ecoa "soa" de modo a que, no poema, realize-se, primeiro, uma fusão entre soar e ser, concretizando o eco que aparecera acima em forma verbal, para em seguida materializar
"perversamente", na confusão entre "eu" e "outro", o próprio labirinto (sonoro? do ouvido?) em
questão.
Um labirinto que, por sua vez, ecoa outros.
Este parágrafo aqui - na sua minudência
descritiva - é mais uma prova de quão distintos são os instrumentos da prosa dos da poesia e de
como o poeta mobiliza estes últimos para realizar, com ilusória singeleza, operações complicadas numa coletânea que reevoca temas gregos clássicos sem derrapar no kitsch neoparnasiano; que é capaz de envolver um surfista num soneto sem ser artificial ou artificioso; que se equilibra no limite estreito entre o amoroso e o erótico, sem esquecer que: "Qualquer poema bom provém do amor/ narcíseo".
"Guardar", porém, é um livro que, para revelar todos os seus segredos, requer atenção dobrada, ou melhor, um olhar atento, pois, como o autor diz no poema inicial que dá nome ao conjunto:
''Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la/ Em cofre não se guarda coisa alguma./ Em cofre perde-se a coisa à vista./ Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por admirá-la...''.
Paradoxal? Sim e não. Claro que se guardam coisas num cofre: segredos guardados em geral por
um número codificado que também se chama ''segredo''.
E é claro que a retina guarda, por alguns segundos, alguma coisa ou, pelo menos, sua imagem que, depois, passa à memória que pode igualmente guardá-la.
Acontece que o verbo ''guardar'' vem do germânico ''wardon'', cujo sentido era mais ou menos o
de prestar atenção em algo com intuito de protegê-lo, resguardá-lo, sentido que, em português, resultou em ''esguardar'', ou seja, ter consideração por, olhar atentamente, e, em italiano, deu ''guardare'', olhar.
Em inglês, ''to look after'' é tomar conta.
Portanto, como o poema explicita, guardar é antes de mais nada olhar, ainda mais porque só pode ser devidamente guardado o que está sempre não-escondido, mas à vista, debaixo dos olhos.
Em suma, o que o título do livro anuncia ao leitor e o poema título desenvolve se traduz simplesmente por: ''Em guarda!'' e ''Atenção!'', ''olhe bem, senão tudo o que vem adiante se perderá, nada será guardado...''
Este tema, que inicia e percorre o livro, retorna em contraponto ao poema ''Guardar'' num outro, intitulado ''Minos'', em que o rei que mandou edificarem uma prisão ''sui generis'' para o seu monstruoso filho, após declarar ''Não ocultei o monstro'', enumera quantos acessos - ''canais estradas viadutos ferrovias funiculares''- construíra para que se pudesse chegar ao Minotauro.
E é na reiteração minuciosa e delirante dos acessos que se configura que estes mesmos constituem o próprio labirinto.
Ou seja, rejeitando a facilidade e reafirmando o difícil da poesia, o poeta como
que diz que abrir demasiadamente o sentido equivaleria, paradoxalmente, a cifrá-lo, obscurecê-lo,
fechá-lo.
(por Nelson Ascher/FSP de 09/02/97)
Depoimento
Depois de uma conversa de cinco minutos ao telefone, o poeta, filósofo e letrista Antonio Cicero
avisa gentilmente: ''Eu me expresso melhor pela palavra escrita''.
Conhecido pela parceria com sua irmã, a cantora Marina Lima, Cicero, 49, lança agora ''Guardar'', uma seleção de sua obra poética.
Antes dos versos em livro, já havia publicado ensaios sobre filosofia, ''O Mundo Desde o Fim'' (ed. Francisco Alves). E foi sobre poesia, e observações filosóficas, que ele fala abaixo, em trechos da entrevista feita por e-mail.
Antonio Cicero - Minha poesia também é oral no sentido em que, com raras exceções, ou ela consiste em letra de música - o que significa a palavra cantada - ou ela fica melhor quando lida em voz alta.
O som, o ritmo, a musicalidade ou a antimusicalidade do verso são extremamente importantes para mim... já na comunicação prosaica, hoje eu prefiro a escrita em todos os sentidos.
A tendência espontânea de meu espírito é a oralidade, a ilusão - correspondente a uma das mais
fortes tradições da cultura brasileira - de que há algo de mais autêntico no falado do que no
escrito.
Mas, com a morte de meu pai, Ewaldo Correia Lima, um intelectual brilhante que praticamente não escreveu coisa alguma, compreendi com uma clareza dolorosa que, ao menos que fossem escritas, as minhas próprias idéias ágrafas estavam sujeitas a um processo progressivo de erosão.
Q: ''Guardar'' traz versos que remetem à busca de uma identidade. Esse é o tema?
Antonio Cicero - Uns 30% de ''Guardar'' são produção recentíssima. Demorei muito para publicar um livro de poesia porque, como muitas de minhas letras são gravadas, transmitidas pelo rádio, considero-as publicadas a seu modo.
Acho que isso em parte me eximia da ansiedade do poeta quanto a ter sua obra publicada. Era
mais importante para mim publicar um livro de filosofia.
Para mim a filosofia - não a filosofia frufru, antifilosófica, que anda na moda, mas a filosofia que se
preza - pretende dizer verdades, e até verdades absolutas, e essas verdades devem ser ditas.
A questão da identidade, ou da negação da identidade, é constitutiva de toda a poesia porque a arte está sempre aquém ou além dos conceitos e da identidade.
Q: E há as constantes imagens do Rio.
Antonio Cicero - Tenho horror aos carioquismos, provincianismos, mas alguns de meus poemas celebram os sentidos, as sensações, a sensualidade, o erotismo, o acaso, e por acaso é aqui que vivo.
A poesia não gosta de abstrações, mas de concretudes; e num poema os nomes próprios de alguns lugares do Rio funcionam como condensações taquigráficas.
Q: O país parece esperar um novo boom de poesia.
Antonio Cicero - Em um determinado momento da história civilizadora da vanguarda, muitos poetas devem ter tido a impressão de que se ou se renunciava ao verso e aos recursos poéticos tradicionais, ou se renunciava à modernidade.
Nessas circunstâncias a música popular representou uma saída interessante. Ora, a música pop faz parte do show business e sua mistura vital de negócio e espetáculo, glamour e sordidez. Sua própria vulgaridade lhe dá mais liberdade em relação à poesia livresca.
Hoje essa situação mudou com o triunfo absoluto da vanguarda; os artistas finalmente se deram
conta de que todas as formas tradicionais da nossa e de outras culturas, se lhes tornaram disponíveis. Gosto muito dos poetas Carlito Azevedo, Nelson Ascher, Aberto Pucheu e Arnaldo Antunes, entre outros.
Livro: Guardar
Autor: Antonio Cicero
Lançamento: Record
Notas
Várias poesias do livro Guardar foram musicadas. Entre elas, podemos citar:
Solo da Paixão , Virgem , Eu Vi o Rei Passar e Cara, que são variantes de letras escritas para melodias de Marina Lima e o poema Canção da Alma Caiada que foi, com o nome de Alma Caiada , por ela musicado.
Variantes dos poemas Dita , Logrador e Onze e Meia (este com o nome de O Circo ) que foram musicadas por Orlando Moraes.
Inverno e Água Perrier que são variantes de letras escritas para melodias de Adriana Calcanhoto.
Variante de Ignorant Sky que foi musicada por Philip Glass.
À Francesa que é variante de letra escrita para melodia de Cláudio Zoli.
Paulo Machado, que musicou Maresia.
Música oculta nos poemas de Cicero consolida uma tradição da cultura brasileira
(Jornal do Brasil de 8 de Março de 1997, por Pedro Maciel)
O poema é feito de palavras, medida e ritmo. O ritmo é o núcleo do poema.
Os poetas verdadeiros são necessariamente músicos de primeira ordem. A poesia da letra de música é uma
escrita cadenciada, sonora. Soneto, em italiano, é "sonzinho" .
"Um soneto não é um poema mas uma forma literária, exceto quando esse mecanismo retórico - estrofes, metros e rimas - foi tocado pela poesia. Há máquinas de rimar, mas não de poetizar...'', anotou certa vez o poeta mexicano Octávio Paz.
Talvez a Música Popular Brasileira seja a alta cultura do país, apesar de, nos últimos tempos, a música vir sendo forjada por uma máquina de rimar, azeitada no mais ingênuo romantismo.
As antologias compiladas pelos críticos mandarins não incluem nenhuma letra como exemplo de poema. Vinícius, Caetano ou Chico Buarque são considerados pelos mandarins como poetas de segunda categoria. Estes e outros escreveram letras e canções de tamanha estatura poética que é difícil achar paralelos na poesia escrita no mesmo período.
Mas o poeta José Lino Grunewald redimiu o espírito da poesia brasileira com o lançamento do livro Pedras de toque da poesia brasileira (Nova Fronteira), seleção dos melhores poemas em antologia e que inclui de Castro
Alves a Noel Rosa, de Drummond a Caetano Veloso. Antonio Cicero poderia ter sido incluído nesta coletânea.
Cicero é parceiro de Marina Lima, uma das revelações da música dos anos 80, tradução pop de Rita Lee e Tom Jobim. Ezra Pound advertia que a poesia não evolui, quando se afasta muito tempo da música, sua origem e destino.
Cicero é uma das boas surpresas da poesia brasileira. Guardar é o seu primeiro livro, mas não se trata de um estreante, já que lançou um livro de Filosofia. A maioria de seus poemas apresenta os traços sonoros típicos do trovador, do cantador popular.
Guardar é um livro musical. Há poemas em verso livre, poemas de fala irônica, sonetos quebrados, versos curtos e dissonantes, como em ``Voz''. ``Orelha, ouvido, labirinto:/ perdida em mim a voz de outro ecoa. Minto:/ perversamente sou-a.'' Indagação filosófica, sem pedantismo acadêmico.
O autor evoca temas gregos clássicos em poemas como "Narciso". Narciso é filho de uma flor aquática/ e de um rio meândrico. É líquido/ cristalizado de forma precária/ e preciosa, trazendo o sigilo/ de sua origem no semblante vívido/ conquanto reflexivo...''
Cicero faz poesia lírica; erótica: "Qualquer poema bom provém do amor/narcíseo..."; e rumina em torno de questões existenciais como no poema "Dilema''. "O que muito me confunde/ é que no fundo de mim estou eu./ No fundo/ sei que não sou sem fim/ e sou feito de um mundo imenso/ imerso num universo/ que não é feito de mim./ Mas mesmo isso é
controverso/ se nos versos de um poema/ perverso sai o reverso./ Disperso num tal dilema/ o certo é reconhecer:/ no fundo de mim/ sou sem fundo."
Guardar nos apresenta o mundo do som, do sentido, da lógica, da sintaxe, da física, da metafísica. O poema conhece sua instrumentação. Maneja a língua com maestria. Cicero utiliza a linguagem comum das ruas, e recupera uma voz ideal, capaz de alçar o universo poético.
Ainda hoje pergunta-se qual o sentido da poesia. O sentido da poesia é a própria poesia. A poesia explica-se a si mesma. Talvez a arte poética nos conduza a uma tentativa de salvação do meio existencial.
A poesia é revelação de um mundo sagrado, maldito, real, imaginário. Alcança a todos e ninguém. Inventa o próprio homem para que este se revele a sim mesmo.
(Pedro Maciel é poeta e jornalista, autor entre outros, de Longe da terra dentro do ar, Massao Ohno Editora)
     
     
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