(Mix Brasil - Setembro de 2002) - Texto e fotos por Pedro Stephan

"Diz pra eles: olha, todo mundo já conhece o Cicero através das letras das músicas da Marina, por isso não precisa de apresentação, e vá direto à entrevista". Dessa maneira cool, o poeta e filósofo Antonio Cicero, 54 anos, sempre discreto e avesso à badalação, sugeriu que fosse feita a abertura desta entrevista concedida ao Mix Brasil a propósito do lançamento de seu novo livro de poemas "A Cidade e os Livros", no dia 19 de agosto, às 20 horas, na Livraria Argumento, no Leblon, Rio de janeiro. Com certeza, nós sabemos de cor esses poemas musicados, pois foram trilha sonora de nossas vidas por todos esses anos. Agora a eles se juntaram às belas poesias editadas em seu primeiro livro "Guardar", cujo poema-título virou profissão de fé de muita gente. O novo livro é, nas palavras do intelectual José Miguel Wisnick, "um livro espantosamente belo, e ainda capaz - homoeróticas - das mais límpidas declarações de amor que temos visto." Com certeza teremos, para nosso deleite, uma nova fornada de seus maravilhosos poemas com temática homossexual. Se Cicero faz parte de nossas vidas, nada mais justo que saibamos um pouco mais sobre esse poeta e cabeça pensante da comunidade homossexual brasileira. Nesta entrevista ele, que detesta se expor e sempre preferiu o anonimato, relaxa e fala de sua vida pessoal e de sua obra. Mas que ninguém se iluda: não dá para perguntar abobrinha ou frivolidade ao Cícero. Quanto a suas respostas elas são sempre marcadas por uma retórica erudita e raciocínio brilhante, dos quais de maneira alguma abre mão.

Q: Seu primeiro livro foi editado em meados dos anos 90, e agora, muitos anos depois, está lançando seu segundo livro, o que mudou na sua obra e na sua vida daquela época para cá?

Antonio Cicero - Fora ter ficado mais velho, acho que a minha vida não mudou muito. Quanto à obra, acho que o livro novo, "A cidade e os livros", possui uma unidade mais orgânica do que o antigo, "Guardar". É fácil entender a razão disso. "Guardar" foi o meu primeiro livro de poesia. Cerca de 30% dos seus poemas eram novos; os outros haviam sido escritos em diferentes épocas de minha vida. O critério que usei para selecionar cada poema foi o sentimento de que ainda poderia escrevê-lo e irrestritamente orgulhar-me de assiná-lo. Entretanto, o fato é que só os 30% novos haviam sido feitos para integrar um livro. Já os poemas de "A cidade e os livros" foram feitos nos últimos quatro anos, e, com uma ou outra exceção, feitos para integrar esse livro.

Q: Qual é o seu processo de criação? Você trabalha muito os textos antes de chegar à forma final ou eles já nascem quase prontos? Quanto tempo demora para um poema ficar pronto?

Antonio Cicero - Isso varia muito. Alguns poemas já nascem quase prontos, como o poema que deu nome ao último livro, "Guardar". Mas, em geral, trabalho muito, depois que tenho as intuições iniciais. Escrevo as primeiras idéias, normalmente numa folha de papel. Depois passo para o computador. Aí vou trabalhando, acrescentando algumas coisas, polindo outras. Às vezes, deixo-o ir ficando como ele quer; às vezes, em determinado momento, estabeleço a forma que terá: se os versos serão livres, se serão metrificados, se obedecerão a algum esquema rítmico, quantos serão, se serão rimados etc. De quando em quando, imprimo o que estou fazendo, para ver como fica no papel, pois a tela do computador engana a gente. Escrevo com caneta no papel, risco, adiciono palavras ou versos, e volto a passar tudo para o computador. E o ciclo recomeça. Às vezes chego a imprimir vinte, trinta páginas, antes de considerar pronto um poema. Mas não há prazo fixo.

Q: Alguns de seus poemas, inclusive os homoeróticos, remetem a temáticas e formas literárias da poesia clássica (greco-romana), você tem influência desses autores? Quais? Qual a importância dessa referencia clássica homoerótica pagã no mundo atual cada vez mais cristão? Por que?

Antonio Cicero - Os poetas clássicos são os que mais leio, hoje em dia. Amo as línguas clássicas. Para mim, o maior poeta de todos os tempos foi o romano Horácio. Mas adoro muitos outros: principalmente, entre os romanos, Ovídio, Catulo e Lucrécio. Entre os gregos, é difícil escolher, pois gosto de muitos. Além de Homero, Hesíodo e Píndaro, gosto de Teógnis, Teócrito, Meleagro, Anacreonte, Safo, Calímaco e tantos outros... De fato, o homoerotismo tem uma presença imensa na poesia clássica. Mas não penso que o mundo atual seja cada vez mais cristão. Penso que, no fundo, estamos vendo os estertores das religiões moribundas. Sei que essa agonia é violenta, como se vê tanto no fundamentalismo muçulmano quanto no cristão e no judaico, mas é uma agonia. De qualquer modo, não é de hoje, mas desde o Renascimento que o mundo ocidental, oprimido por uma religião devotada à morte e, conseqüentemente, inimiga de todo erotismo (principalmente do erotismo pelo erotismo, representado por excelência pelo homoerotismo), encontra um respiradouro na cultura clássica.

Q: Ainda que sua poesia não fique restrita apenas a essa temática, todos os seus poemas de amor e erotismo são homossexuais, por razões óbvias, mas não foi sempre foi assim, pois as suas letras de música não eram de conteúdo "explicitamente gay". Houve um momento em que você decidiu fazer esse "outing" literário? O que o motivou a isso? Foi fácil? E a reação do seu público?

Antonio Cicero - Acho equivocado dizer que os poemas dos meus livros sejam mais explícitos do que os das minhas letras. Mas entendo a origem desse equívoco. O que ocorre é simplesmente que não sou cantor nem músico, de modo que as minhas letras são musicadas e cantadas geralmente por minha irmã, Marina. Assim, as letras que eu fizesse para um rapaz, que, se tivessem sido publicadas num livro, teriam sido lidas como homoeróticas, podiam, na voz da Marina, ser ouvidas como heteroeróticas. Por outro lado, se eu fizesse uma letra para um amor homoerótico da Marina, ela podia ser ouvida como um poema heteroerótico meu. Mas nada disso foi ruim, pois as leituras homoeróticas também eram possíveis e, dada a postura da Marina, até estimuladas. Não se esqueça como ela transformou o sentido de "Mesmo que esse homem seja eu", do Erasmo Carlos. Essa ambigüidade era percebida como libertária pelas pessoas, pois lhes permitia embarcar em fantasias homoeróticas, tanto mais atraentes quanto não significavam entrar na prisão de um gueto, mas sair da prisão das convenções. Assim, o que ocorreu não foi que eu tenha feito um "outing". Só quem está no armário pode fazer um "outing". Não era o meu caso. Nunca estive no armário. Desde a adolescência, tenho desprezo pelas convenções repressivas. O que ocorreu foi que, ao pôr os meus poemas num livro, o seu caráter homoerótico deixou de ser ambíguo, pois, no livro, sou eu mesmo enquanto eu mesmo que digo o que escrevo.

Q: Muitos artistas homossexuais, mesmo assumindo sua sexualidade para uma roda pequena de amigos, não querem que isso venha a público. Alegam que não querem "carregar bandeira", ou seja, não querem ser porta-vozes, desse público. Você acha que o simples fato de uma pessoa ter a sua orientação sexual conhecida pelo público a torna obrigatoriamente porta-voz de um grupo? Ou apenas se torna uma referência para alguns?

Antonio Cicero - Não acho que ninguém tenha que sair por aí falando da sua vida sexual. Isso é escolha de cada um. Contudo, acho que o que jamais se deve fazer é mentir no que diz respeito ao sexo, isto é, dizer que se faz o que não se faz, ou que não se faz o que se faz; pois, quando alguém mente sobre os seus atos, é porque se envergonha deles; o que quer dizer que os acha vergonhosos. Ora, é de fato uma vergonha para uma pessoa fazer uma coisa que considera vergonhosa, mesmo que os outros não a considerem tal. A coisa mais importante que se descobriu na época moderna é o fundamento da ética e do direito, é a liberdade: liberdade de fazer tudo aquilo que não prejudique igual direito do outro. Aquele que tem por princípio máximo do seu comportamento a liberdade é moralmente superior àquele que tem por princípio a escravidão: à religião, à sociedade ou à tradição, pouco importa. Ora, é o moralmente superior o indivíduo que, em virtude do amor à liberdade, superou a opressão dos preconceitos que secularmente pesam sobre o homoerotismo. Essa pessoa acaba, graças à sua ostensiva superioridade moral, por causar vergonha naqueles que, com base na escravidão à estupidez e à ignorância dos séculos, pretendem continuar a oprimir o homoerotismo. O "orgulho gay" é o justo orgulho de quem funda a ética na liberdade, contra a escravidão. Quanto à bandeira gay, o símbolo do arco-íris, que é alto-astral e chique. E acho que os gays são uma elite bacana e privilegiada.

Q: Como letrista você é extremamente bem-sucedido e recebe o feedback do público de música de uma maneira rápida. Como é a resposta do público de literatura?

Antonio Cicero - Raramente alguma pessoa me pára na rua para dizer alguma coisa: o que é bom, pois, quando alguém o faz, fico encabulado. Recebi apenas um prêmio, que foi o Nestlé, que foi bom, mas me rendeu alguns desafetos. Acho que o "Guardar", para um livro de poesia (note bem), não foi mal de vendas. Passei a receber muitos e-mails a partir do momento em que um amigo meu, o Paulo Garcez, fez a minha home page (http://www2.uol.com.br/antoniocicero/). Procuro responder a todos os e-mails bem intencionados que recebo.

Q: Em alguns de seus poemas homoeróticos do livro anterior e deste, você descreve com lirismo e delicadeza cenas de cruising, de paqueras ao ar livre (tão comuns aos heterossexuais, principalmente no Rio , uma cidade propicia ao namoro à luz da lua, onde os casais hétero sem o menor constrangimento deitam e rolam...) O cruising que estava tão na moda, nos anos 70 e no início do anos 80, quando foi descrito em letras de música e poemas de Cazuza, Caio Fernando Abreu, Caetano, Jorge Mautner etc., depois caiu em desuso e foi estigmatizado até mesmo pelos gays. O que você acha que houve então para que a pegação deixasse de ser uma prática comum e se tornasse algo reprimido brutalmente pela polícia (com a anuência da comunidade e da militância gay) e tão mal visto pelos gays? Apesar de tão condenado moralmente, o cruising tem poesia, tem beleza?

Antonio Cicero - Claro que tem poesia e beleza. O homoerotismo representa a afirmação da autonomia do erotismo, isto é, a afirmação do seu direito de existir, mesmo desatrelado do amor e desatrelado da reprodução biológica ou social: a afirmação de que o sexo é bom em si, sem necessidade de nenhuma justificativa que o transcenda. É na pegação que esse princípio se manifesta de maneira mais clara. Acho que não é toda pegação que se tornou mal vista pela comunidade gay e que ficou sendo objeto de repressão. A pegação feita pelo gay de classe média, em lugares como boates ou saunas, já foi institucionalizada. O problema é que as classes populares brasileiras, inclusive - e, talvez, sobretudo - as pessoas que não se consideram gays, sempre praticaram pegação em determinados lugares públicos, como, por exemplo, na Quinta da Boa Vista, no Rio, em determinadas horas. Essas pessoas estão sujeitas a prisão, achaques, chantagens etc., e não contam nem com a assistência dos movimentos gays nem com a solidariedade dos gays de classe média. Acho isso lamentável. O erotismo lúdico do brasileiro, que é uma das suas características culturais mais interessantes, está sendo violentamente atacado tanto pelo pseudo-puritanismo religioso quanto pela repressão. Não estou dizendo que as pessoas devam trepar no meio da rua, mas a pegação de que estou falando se manifesta justamente em áreas e/ou horários especiais e que não são expostos a transeuntes desavisados. Os casais que estão a namorar no parque - casados ou recém-formados, homossexuais ou heterossexuais, pouco importa - deveriam ser respeitados e protegidos, jamais perseguidos.

Q: Seu livro anterior traz um lindo poema, de amor dedicado à pessoa com quem está casado. Você acha importante para o ser humano (especialmente para o homossexual tão reprimido pela sociedade) investir numa relação afetiva? O que uma relação de casamento, de parceria, traz de bom à sua pessoa?

Antonio Cicero - Eu e meu companheiro vivemos juntos há mais de quinze anos e cada vez nos amamos mais. Entretanto, não tenho a pretensão de saber o que é bom para os outros.

Q: Você acha que o modelo burguês de casamento tradicional (não estou me referindo aos direitos civis de uma relação de parceria mas à conduta pessoal), por ser uma referência, deve ser copiado pelos casais homossexuais, ou as pessoas deveriam tentar viver as relações sem convenções sociais ou falsos moralismos, descobrindo a sua própria maneira de conduzir um relacionamento?

Antonio Cicero - "Falso moralismo" é, para mim, uma expressão tautológica, porque todo moralismo é falso. Mas sou contra o moralismo na exata medida em que sou a favor da ética, pois esta é imprescindível para qualquer sociedade. O perigo de qualquer modelo é que ele é um ideal de relacionamento. Ora, todo ideal tende a atropelar, encobrir e degradar o real. E os ideais de relacionamento não fogem à regra. O perigo específico do modelo burguês é que se trata de um ideal extremamente complexo. Ele idealiza um feixe de relacionamentos que compreende: (1) a idealização da heterossexualidade exclusiva (o que significa o atropelamento, o encobrimento e a degradação do homoerotismo); (2) a idealização da exclusividade do relacionamento amoroso endogâmico (o que significa o atropelamento etc. dos relacionamentos amorosos exogâmicos); (3) a idealização da exclusividade do relacionamento sexual endogâmico; (4) a reprodução biológica; (5) a reprodução social da progenitura; (6) a idealização da divisão do trabalho com base na distinção dos sexos; etc. Ora, a mera descrição que acabo de fazer já mostra a total inadequação desse modelo para um relacionamento homoerótico. Para começo de conversa, os itens (1), (4), (5) e (6) já não se aplicam. Sobra a atrelagem de (2) e (3), o que fica longe de constituir o modelo burguês. Imitar esse modelo no contexto homossexual seria, portanto, uma ridícula paródia do casamento burguês. O que é mais repressivo e opressivo no modelo burguês é exatamente a atrelagem forçada de todas essas funções. A realidade crítica da modernidade acabou por liberar, isto é, por autonomizar cada uma delas. Longe de imitar o casamento burguês, os gays devem se orgulhar de ter tido um papel de vanguarda na dissolução dele. Em primeiro lugar, eles contribuíram para a desagregação desse feixe, já por mostrarem a viabilidade da separação de, por um lado, o relacionamento amoroso e o sexual e, por outro lado, a reprodução biológica e social; em segundo lugar, mostraram a viabilidade do abandono da idealização da heterossexualidade nos relacionamentos amorosos e sexuais; em terceiro lugar, desatrelaram de fato o relacionamento amoroso do relacionamento sexual; em quinto lugar, em virtude de tudo isso, mostraram a viabilidade de se abandonar a idealização da monogamia. Isso não significa que as pessoas não possam mais ter relações amorosas duradouras, mas significa que também essas relações têm que ser construídas na base do respeito mútuo, isto é, da atenção recíproca à realidade dos seus integrantes e do cuidado com os desejos, as necessidades e as possibilidades de cada um, e não a partir de ideais repressivos. Cada casal é absolutamente singular.

Q: De uns 2 anos para cá (você que sempre teve ótima saúde), de repente descobriu que estava com um sério problema físico, e acabou tendo que se submeter a uma delicada cirurgia. Como foi a experiência de lidar com o risco de vida, com a possibilidade de morrer? Como isso te mobilizou? E como foi o período de convalescença, em que teve que ficar muito tempo em casa "de molho" sem poder sair à rua? Isso repercutiu no seu trabalho?

Antonio Cicero - De fato, eu descobri que estava com uma bolha grande no pulmão direito. Não se sabe exatamente como ou quando surgiu. Não era uma excrescência maligna, mas teve que ser retirada, pois prejudicava a minha respiração e podia estourar a qualquer momento, com conseqüências imprevisíveis. A cirurgia em si não foi um grande problema, mas eu peguei uma infecção hospitalar. Por causa disso, tive que me submeter a duas operações subseqüentes e quase morri. Minha atitude diante da morte é a que aprendi com Epicuro e Lucrécio. Não temo não viver. Como eles, penso que bom não é viver, mas viver bem. Esse é um dos temas do meu novo livro. Aliás, o que eu lamentava, quando pensei que fosse morrer, era não ter terminado o livro de poemas "A cidade e os livros", que é o que está sendo lançado, e um segundo livro de filosofia, que projeto há um tempo. A iminência da morte me deu vontade de trabalhar mais. O período de convalescença foi muito incômodo, mas melhorou, quando comecei a poder ler e usar novamente o computador. A partir daí, não foi ruim, pois as coisas de que mais gosto são ler e estudar. Mas eu não teria sobrevivido sem os cuidados abnegados de duas pessoas: o meu companheiro e a minha mãe, nos seus oitenta anos. Por isso dediquei-lhes o livro que, sem eles, não teria chegado a vir à luz.

Q: Estamos muito próximos das eleições presidenciais. Você não julga ser importante que os homossexuais pensem em votar em alguém que além de ser bom administrador tenha compromisso com a cidadania homossexual? O seu voto pessoal vai ser motivado por esse fator?

Antonio Cicero - Claro que sim. Eu jamais votaria num candidato homofóbico ou que, como Garotinho, se manifestasse contra os gays. Entre os candidatos a presidente, acho que, desse ponto de vista, Lula e Serra são os mais aceitáveis. Ciro tem feito bons pronunciamentos sobre essa questão, mas, além de ter um histórico de declarações machistas, está aliado com o PFL, que é um partido onde se concentram muitas forças tradicionalistas e, por isso mesmo, homófobas.