Sui Generis


*Herdeiro da Razão*
(Revista Sui Generis, Ano III nš 26 - pags. 40-43)
(Texto Gilberto de Abreu)


O poeta Antonio Cicero dá uma injeção de filosofia nas reivindicações gays e lança suas dúvidas sobre a origem da Aids


"Quando você se orgulha do que faz, os outros podem amar ou odiar você mas não conseguem desprezá-lo".

O poeta e filósofo carioca Antonio Cicero - conhecido do grande público como o parceiro musical da cantora e irmã Marina Lima - defende essa teoria desde a adolescência, quando ao apostar na liberdade sexual acabou por descobrir a autenticidade de seus desejos eróticos.

Mesmo depois de constatar que suas relações eram sempre mais fortes com os rapazes, Cicero não se privou da experiência de um casamento heterosexual, vivendo três anos com uma brasileira em Londres.

O casamento rompido em 1971, trouxe Antonio Cicero de volta ao Brasil no final do ano seguinte. E com ele um rapaz inglês, com quem rachava as despesas de aluguel em Londres e que aqui passaria a dividir a cama de casal nos dois anos seguintes.

Formado em filosofia pela Universidade de Londres, lançou seu primeiro livro sobre o tema - O Mundo Desde O Fim (Editora Nova Fronteira) - em 1995, no qual refundiu conceitos de modernidade e racionalidade.

Definido pelo crítico literário Silviano Santiago como um "herdeiro das superfícies e das profundezas", Antonio Cicero foi igualmente bem sucedido ao lançar, em Dezembro do ano seguinte, o livro de poesias Guardar, em que combina experiências e paixões em versos diretos e eloquentes.

Ele, que acaba de lançar um CD de poesias intitulado Antonio Cicero por Antonio Cicero, participou da passeata carioca em comemoração ao Dia do Orgulho Gay, em Junho, mesmo achando confusas as reivindicações gays do ponto de vista conceitual.

Talvez por isso tenha aproveitado essa entrevista para propor uma base filosófica para tais reivindicações."Na conjuntura atual, em que o neo-conservadorismo mundial se acha na ofensiva, achei que seria politicanmente importante."

Leia a seguir a íntegra da entrevista de Antonio Cicero à revista Sui Generis.


Q: Em que momento da sua vida você percebeu que era hora de assumir a sua homossexualidade?

Antonio Cicero -Na minha vida jamais chegou o momento de "assumir" coisa alguma porque jamais houve um tempo em que eu tivesse sido alguma coisa que não "assumisse".

Na infância, não posso dizer que tivesse qualquer orientação sexual definida. Não é que eu fosse então assexuado. Longe disso, eu diria antes que era pansexual.

Na adolescência, fiz a opção pela liberdade sexual, isto é, por dar vez aos meus desejos mais autênticos. Vivi com uma moça brasileira em Londres, de 69 a 71. Em 72 ela voltou para o Brasil e eu aluguei um quarto no apartamento de uns rapazes ingleses.

Apaixonei-me por um deles e fui correspondido. No final desse ano, eu o trouxe para o Brasil comigo.


Q: Quanto tempo viveram juntos?

Antonio Cicero -Vivemos juntos no Rio uns dois anos. Era uma época de experimentação maravilhosa no mundo inteiro. Aqui também as coisas estavam fervilhando, apesar da ditadura.

Eu e meus amigos fazíamos tudo o que queríamos e, como tínhamos a convicção de que o que fazíamos era certo, não escondíamos nada de ninguém. Desde essa época, minhas relações eróticas mais fortes sempre foram com outros homens. Isso não é problema algum: é antes a solução.

Quem se envergonha de suas disposições eróticas não as respeita e, com isso, não respeita a si próprio. Como pode, então, impor respeito aos outros?

Quando você se orgulha do que faz, os outros podem amar ou odiar você mas não conseguem desprezá-lo. Ninguém cuja amizade eu prezasse deixou, por causa do meu comportamento, de ser meu amigo.

Pois bem, tudo isso aconteceu muito antes de me tornar uma pessoa pública, isto é, antes de qualquer público se interessar pela minha vida.


Q: O que mudou nas suas relações homossexuais com a Aids?

Antonio Cicero -Com a Aids, que é uma das maiores catástrofes da história, a vida sexual de todo o mundo mudou para pior. No final da década de 70, todas as racionalizações para a repressão sexual haviam sido desmascaradas como puramente ideológicas. Mostrara-se que nenhuma delas tinha de fato qualquer fundamento racional.

Os reacionários estavam completamente desmoralizados. Rapidamente ruíam todas as instituições e as superstições pelas quais le mort saisit le vif, isto é, pelas quais o que está morto no ser humano controla o que nele está vivo.

Foi então que, para a satisfação mórbida dos inimigos do erotismo, isto é, da vida, surgiu, out of the blue, a Aids, que conseguiu literalmente associar a morte ao sexo.

Nessas circunstâncias, o espantoso não é que se tenham lançado suspeitas sobre a verdadeira origem dessa doença mas que essas suspeitas, que foram às vezes acompanhadas de denúncias específicas, tenham sido praticamente ignoradas pela comunidade científica, pelas instituições denunciadas e pela imprensa.

O professor alemão Jakob Segal, por exemplo, desde 1986 afirma documentadamente que a Aids foi produzida em laboratório.

Entre outras coisas, ele chama atenção para o fato de que, em 69, um oficial do Pentágono, chamado Donald MacArthur, obteve 10 milhões de dólares para elaborar, nos seguintes 5 a 10 anos, um micro-organismo novo e contagioso que neutralizaria o sistema imunológico humano.

Esses recursos foram utilizados num centro de pesquisa de guerra biológica situado em Fort Detrick, Maryland.


Q: Quem foi o encarregado dessas pesquisas?

Antonio Cicero -Ninguém menos do que o famoso (ou devo dizer "infame"?) dr. Robert Gallo, que, anos depois, como se sabe, tentou roubar do dr. Luc Montaigner o título de ter sido o primeiro a isolar o vírus da Aids. Aliás, se realmente Gallo produziu o vírus que Montaigner depois isolou, é natural que não aceitasse que este monopolizasse as glórias da precedência...

Num assunto tão sério quanto Aids, que envolve a vida e a morte de tanta gente inocente, era de se esperar que acusações como as do professor Segal fossem objeto de uma investigação.

Era de se esperar que o próprio Congresso dos Estados Unidos houvesse constituído uma comissão de inquérito, não só para dissipar a nuvem negra desse rumor mas para publicamente tomar providências no sentido de garantir que coisas semelhantes jamais pudessem ocorrer no futuro.

Longe disso, não só nada foi investigado como, apesar do fim da guerra fria, os laboratórios de guerra bacteriológica continuam em plena atividade: para que? Outros vírus terríveis não estarão sendo produzidos? E a imprensa norte-americana e mundial, por que não investigou o que foi feito em Fort Detrick? E por que não averiguou as atividades do dr. Gallo? São perguntas que, estranhamente, ninguém procura responder.


Q: O que espera da sociedade brasileira em relação ao preconceito contra o homossexualismo?

Antonio Cicero -Em particular, todo o mundo tem o direito de ter o preconceito que quiser: não se pode negar a ninguém o direito à burrice. Em público, porém, a história é outra.

Um país é tanto maior quanto mais for capaz de garantir a convivência do maior número possível de diferenças de idéias, comportamentos, projetos particulares, gostos, estilos de vida etc.

Riquezas são diferenças, como dizem os Titãs. Absolutamente nada é mais importante do que isso.

Por isso o comportamento gay, como todos, deve ter o direito de existir e se manifestar publicamente sem temer repressão do Estado ou da sociedade. Essa liberdade, e não o shopping center, é o verdadeiro legado da modernidade.


Q: Você se considera um militante da causa gay?

Antonio Cicero -Ocasionalmente. É claro que tenho posições políticas e apóio as causas que considero justas, como as gays, mas não tenho talento para a política dos políticos, para a política de tempo integral. O político com cujas posições mais me identifico é Fernando Gabeira.


Q: O que você tem a dizer sobre o projeto de união civil entre pessoas do mesmo sexo?

Antonio Cicero -Acho o projeto de parceria civil excelente. Os inimigos dessa lei se baseiam principalmente em convicções religiosas, preconceitos, superstições.

Ora, diferentes pessoas têm diferentes religiões, diferentes preconceitos, diferentes superstições, diferentes visões de mundo etc. Tais opiniões não são nem precisam ser racionais. Cada qual tem o direito a sua irracionalidade particular, cada uma das quais é capaz de ser perfeitamente incompatível com a outra. A lei porém não pode tomar o partido de nenhuma delas.

Ela não pode se basear senão no que é comum a todos os homens, e isso é a racionalidade. Pois bem, o único motivo racional para se negar a alguém um determinado direito é que tal direito fira os direitos de outras pessoas. Isso não ocorre no caso da parceria civil. Trata-se, portanto, de um direito incondicional.

A lei de parceria civil não faria senão reconhecê-lo, afastando os empecilhos legais ilegítimos que hoje impedem que ele seja exercido.

Em outras palavras, o que está realmente em jogo nesse projeto não é uma queda de braços entre os gays e simpatizantes, por um lado, e os evangélicos e carolas por outro, mas a vingência do princípio do direito, defendido por aqueles, ou do arbítrio, defendido por estes.


Q: Se o projeto fosse aprovado, você assinaria a parceria?

Antonio Cicero -Não sei. (continua...)