Cidade Escola Aprendiz 19 de abril de 2004

28-07-04   Uma cidade na mesa de um bar

27-07-04   Os mestres de Arthur Pugliese

26-07-04   Está em andamento uma rebelião sem volta

21-07-04   O tempo não pára

19-07-04   Estão julgando corretamente Marta Suplicy?

14-07-04   Do Brás para o mundo

07-07-04   Parto musical

05-07-04   A escravidão está na moda

29-06-04   A loja-laboratório de Adriana Bozon

28-06-04   Quem vai salvar São Paulo?

23-06-04   Paixão em três rodas

21-06-04   Mãe de UTI

16-06-04   Geração Segundo Andar

14-06-04   O que temos a aprender com os gays

09-06-04   À moda paulistana

07-06-04   Se Maluf não acabou, São Paulo acabou

03-06-04   Um som estrangeiro em Sampa

01-06-04   Os professores precisam ser salvos

31-05-04   Professor sabe-nada

26-05-04   "Cinema Paradiso"

25-05-04   A escola de invenções de Ziraldo

24-05-04   Marta é vítima do machismo ou da futilidade?

19-05-04   A menina do largo do Arouche

18-05-04   Como escolher um prefeito

17-05-04   Quem quer "ficar" com São Paulo?

12-05-04   ONG chique

11-05-04   Lula e a bebida

10-05-04   O melhor presente de Lula no Dia das Mães

05-05-04   A revanche da derrota de Nápoles

04-05-04   Haja paciência

03-05-04   O primeiro emprego a gente esquece

26-04-04   Professor-doutor desocupado

22-04-04   Se essa rua fosse deles

19-04-04   Repetência é coisa de pobre

14-04-04   "Pé de Moleque"

13-04-04   Lula acha que a culpa é da vítima

12-04-04   Soltem os animais

07-04-04   O prazer de derrubar grades

06-04-04   Escola de diretores: boa idéia do governo Lula

05-04-04   Uma notável aula de humildade

31-03-04   Paisagem mutilada

30-03-04   Lula está sofrendo de Brasilite?

29-03-04   Não era preconceito. Infelizmente

24-03-04   O mau aluno que virou mestre

23-03-04   O maravilhoso primeiro emprego do PT

22-03-04   Vida, leva eu

17-03-04   Vidas no papel

16-03-04   Regina Duarte estava mesmo errada?

15-03-04   As valiosas lições de dona Lindu, mãe de Lula

10-03-04   Mistérios da praça Benedito Calixto

09-03-04   Ignorância ajuda Lula e o PT

08-03-04   Você, caro leitor, faz parte do Clube dos 20%

03-03-04   Conto Pirandelliano

02-03-04   Trabalhadores do bingo têm direito a aviso prévio

01-03-04   Por que o Brasil não explode?

26-02-04   O menino ficou sem as lagostas

25-02-04   Uma solução chamada bolsa-universidade

24-02-04   Lula está tentando a sorte no bingo

18-02-04   O carioca que traduz São Paulo

17-02-04   As lições de Cristovam Buarque

16-02-04   O escândalo do bicho

11-02-04   Uma profissão sem nome

10-02-04   Fome zero, ladroagem 100

09-02-04   A luz no fim do túnel é uma chama de gás?

04-02-04   Vila vertical

03-02-04   A irresistível oferta dos traficantes

02-02-04   Como medir se um candidato a prefeito é sério

29-01-04   A identidade de Jorge Cordeiro

28-01-04   O assassinato das cerejeiras

26-01-04   Meu inesquecível janeiro em São Paulo

23-01-04   Erro de Cristovam Buarque foi a paixão

21-01-04   Expedição Gepp e Maia

19-01-04   Essa crise é uma asneira

14-01-04   Irmão de rua

13-01-04   Quanta bobagem

12-01-04   O futuro de uma cidade está escrito nas calçadas

07-01-04   Ela só queria andar de bicicleta

06-01-04   Deu no "The New York Times"

05-01-04   Lições da rua

26-12-03   Lula dá aulas para o Brasil

22-12-03   A verdadeira herança maldita

16-12-03   O PT está certo

15-12-03   Por que a goleada de Lula é um engano

10-12-03   Kart-escola

08-12-03   O futuro da educação está no hospital

01-12-03   Bom aluno não leva vestibular a sério

17-11-03   Estamos nos iludindo. Infelizmente

09-11-03   A geração dos filhos únicos

03-11-03   O direito de brincar

19-10-03   Capital de São Paulo é o Brasil

13-10-03   A geografia do medo

06-10-03   Uma universitária na cadeia resume cem anos de Brasil

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Repetência é coisa de pobre

Repetência de aluno abastado é exceção; repetência de aluno pobre é regra.Basta ver a relação entre série e idade para constatar que apenas uma minoria -aliás, ínfima - dos estudantes de maior poder aquisitivo passa pela dolorosa experiência da reprovação, obrigados a ficar, humilhados, numa sala de aula com crianças ou adolescentes menores.

Se o presidente Lula tivesse o cuidado de entender a razão dessa diferença escolar, provavelmente ficaria envergonhado de sair atacando, como fez na quinta-feira, o sistema de ciclos do ensino fundamental - aliás, uma idéia inovadora introduzida no país pelo PT, mais precisamente quando Luíza Erundina, assessorada por Paulo Freire, era prefeita de São Paulo. "Podemos estar formando analfabetos dentro da sala de aula", atacou Lula, referindo-se ao que chamou de um "erro histórico".

Só não classifico essas críticas apenas de desinformadas porque, durante as eleições, o PT tinha em mãos pesquisas de opinião que mostravam que bater nesse assunto rende aplausos entre muitos pais e professores. Portanto, a colocação do presidente é resultado de uma perigosa confluência de marketing rasteiro com desconhecimento de educação.

Os mais ricos, senhor presidente, já são submetidos, em essência, à progressão automática. É fácil entender.

Que acontece quando o estudante de uma escola de qualidade apresenta problemas de aprendizado ou de comportamento? Os pais são chamados pela coordenação pedagógica e informados, em detalhes, sobre a vulnerabilidade de seu filho. Discute- se, então, o que fazer para tentar sanar as deficiências.

Se a escola não consegue enfrentar as fragilidades do aluno, recomendam-se professores particulares, psicólogos e psicopedagogos. Mesmo que tais recursos não funcionem muito bem, o estudante, desde que demonstre algum progresso, não é retido, na esperança de que, devidamente apoiado, consiga prosperar, tapando lentamente os buracos.

Mas, quando, apesar de todos os esforços, não há evolução, o pior é evitado com uma discreta sugestão para que o aluno mude de escola -talvez em outro ambiente, com diferentes métodos e novos ares, ele venha a encontrar estímulos.

Tanta cautela é tomada pelo simples motivo de que a repetência é, na imensa maioria das vezes, um trauma absolutamente antieducativo. Abate a auto-estima; é uma trava na relação do indivíduo com o aprendizado.

Quando se trouxe para o país o sistema de ciclos, o que se pretendeu foi dar aos mais pobres os mesmos benefícios assegurados aos mais ricos -o de não serem massacrados psicologicamente. Depois de tanto ser reprovado, o estudante sentia-se burro e, envergonhado, ia para a rua e entrava no círculo vicioso da marginalidade. Esses jovens são candidatos a engrossar estatísticas como as divulgadas na semana passada pelo IBGE, segundo as quais, em 20 anos, 600 mil pessoas foram assassinadas.

O sistema de ciclos, ao contrário do que muitos pensam, exige uma avaliação ainda mais rigorosa e atenta; os testes devem ser analisados e as reparações devem ser feitas imediatamente. Os educadores devem melhorar para que o aluno também melhore. E aqui está o problema: a regra são as deficiências, ou seja, salas cheias, professores com baixos salários, pouca qualificação e pesadas cargas horárias, laboratórios e bibliotecas defasados. Em muitos lugares, violência.

O professor é massacrado e vê na ameaça da repetência um mecanismo disciplinar. É a vítima fazendo vítimas.

Sem bons diretores, não existem boas escolas. O bom gestor é um empreendedor social, capaz de motivar os professores, a família e a comunidade, estabelecendo parcerias. Não há programas de qualidade para a formação de diretores que os tornem habilitados a lidar com os desafios da educação contemporânea.

Algumas experiências estão em andamento, como as que ocorrem em São Paulo e em Santa Catarina, financiadas por uma fundação privada, para a formação mais ampla de diretores; o projeto é comandado pela ex-secretária da educação de São Paulo Rose Neubauer. Por enquanto, ainda é um projeto piloto.

Em São Paulo, começaram, neste mês, conversas para que universidades estaduais criem um curso inovador para dirigentes escolares, com um currículo feito por pedagogos e especialistas em tecnologia comunitária e em empreendedorismo. O ministro Tarso Genro disse a esta coluna que vai apoiar a idéia. Ainda são, porém, conversas.

Sem diretores preparados, esqueça: não existe educação que prospere. É como imaginar que uma empresa possa sobreviver sem um executivo qualificado. Para usar uma metáfora ao estilo de Lula, se o técnico for ruim, os jogadores, por melhores que sejam, vão se embolar no campo.

A repetência é o sinal trocado. Invertem-se as responsabilidades. O problema não é do sistema que não educa direto, mas do aluno que não aprende. Essa visão é inútil - afinal, repetir não significa aprender, pelo contrário- e, sobretudo, perversa: a vítima da escola ruim torna-se vilão de seu fracasso.

PS - Ainda prefiro o aluno que não aprende e fica na escola àquele que repete e vai para a rua. Aquele que fica na escola ainda tem alguma esperança de salvação. Aquele que vai para a rua é candidato a engrossar as estatísticas do IBGE sobre assassinatos.