Cidade Escola Aprendiz 22 de dezembro de 2003

28-07-04   Uma cidade na mesa de um bar

27-07-04   Os mestres de Arthur Pugliese

26-07-04   Está em andamento uma rebelião sem volta

21-07-04   O tempo não pára

19-07-04   Estão julgando corretamente Marta Suplicy?

14-07-04   Do Brás para o mundo

07-07-04   Parto musical

05-07-04   A escravidão está na moda

29-06-04   A loja-laboratório de Adriana Bozon

28-06-04   Quem vai salvar São Paulo?

23-06-04   Paixão em três rodas

21-06-04   Mãe de UTI

16-06-04   Geração Segundo Andar

14-06-04   O que temos a aprender com os gays

09-06-04   À moda paulistana

07-06-04   Se Maluf não acabou, São Paulo acabou

03-06-04   Um som estrangeiro em Sampa

01-06-04   Os professores precisam ser salvos

31-05-04   Professor sabe-nada

26-05-04   "Cinema Paradiso"

25-05-04   A escola de invenções de Ziraldo

24-05-04   Marta é vítima do machismo ou da futilidade?

19-05-04   A menina do largo do Arouche

18-05-04   Como escolher um prefeito

17-05-04   Quem quer "ficar" com São Paulo?

12-05-04   ONG chique

11-05-04   Lula e a bebida

10-05-04   O melhor presente de Lula no Dia das Mães

05-05-04   A revanche da derrota de Nápoles

04-05-04   Haja paciência

03-05-04   O primeiro emprego a gente esquece

26-04-04   Professor-doutor desocupado

22-04-04   Se essa rua fosse deles

19-04-04   Repetência é coisa de pobre

14-04-04   "Pé de Moleque"

13-04-04   Lula acha que a culpa é da vítima

12-04-04   Soltem os animais

07-04-04   O prazer de derrubar grades

06-04-04   Escola de diretores: boa idéia do governo Lula

05-04-04   Uma notável aula de humildade

31-03-04   Paisagem mutilada

30-03-04   Lula está sofrendo de Brasilite?

29-03-04   Não era preconceito. Infelizmente

24-03-04   O mau aluno que virou mestre

23-03-04   O maravilhoso primeiro emprego do PT

22-03-04   Vida, leva eu

17-03-04   Vidas no papel

16-03-04   Regina Duarte estava mesmo errada?

15-03-04   As valiosas lições de dona Lindu, mãe de Lula

10-03-04   Mistérios da praça Benedito Calixto

09-03-04   Ignorância ajuda Lula e o PT

08-03-04   Você, caro leitor, faz parte do Clube dos 20%

03-03-04   Conto Pirandelliano

02-03-04   Trabalhadores do bingo têm direito a aviso prévio

01-03-04   Por que o Brasil não explode?

26-02-04   O menino ficou sem as lagostas

25-02-04   Uma solução chamada bolsa-universidade

24-02-04   Lula está tentando a sorte no bingo

18-02-04   O carioca que traduz São Paulo

17-02-04   As lições de Cristovam Buarque

16-02-04   O escândalo do bicho

11-02-04   Uma profissão sem nome

10-02-04   Fome zero, ladroagem 100

09-02-04   A luz no fim do túnel é uma chama de gás?

04-02-04   Vila vertical

03-02-04   A irresistível oferta dos traficantes

02-02-04   Como medir se um candidato a prefeito é sério

29-01-04   A identidade de Jorge Cordeiro

28-01-04   O assassinato das cerejeiras

26-01-04   Meu inesquecível janeiro em São Paulo

23-01-04   Erro de Cristovam Buarque foi a paixão

21-01-04   Expedição Gepp e Maia

19-01-04   Essa crise é uma asneira

14-01-04   Irmão de rua

13-01-04   Quanta bobagem

12-01-04   O futuro de uma cidade está escrito nas calçadas

07-01-04   Ela só queria andar de bicicleta

06-01-04   Deu no "The New York Times"

05-01-04   Lições da rua

26-12-03   Lula dá aulas para o Brasil

22-12-03   A verdadeira herança maldita

16-12-03   O PT está certo

15-12-03   Por que a goleada de Lula é um engano

10-12-03   Kart-escola

08-12-03   O futuro da educação está no hospital

01-12-03   Bom aluno não leva vestibular a sério

17-11-03   Estamos nos iludindo. Infelizmente

09-11-03   A geração dos filhos únicos

03-11-03   O direito de brincar

19-10-03   Capital de São Paulo é o Brasil

13-10-03   A geografia do medo

06-10-03   Uma universitária na cadeia resume cem anos de Brasil

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A verdadeira herança maldita

A expectativa de vida do homem brasileiro é de 67 anos; a da mulher é de 75 anos. Essa diferença de oito anos explica-se não apenas pela genética -as mulheres tendem a viver mais do que os homens- mas também pela mais inquietante estatística nacional: como informou o IBGE na quarta-feira, a violência não pára de aumentar. E, segundo os números divulgados, de cada dez mortes de rapazes entre 15 e 24 anos, sete são provocadas por atos de violência.

A pesquisa revela ainda que essa tendência está afetando cada vez mais as mulheres. "Há uma epidemia de violência no país", afirmou Celso Simões, demógrafo do IBGE.

É simplesmente inacreditável que, mesmo crescendo o número de adolescentes grávidas, como também mostrou a última pesquisa do IBGE, não se ouça falar em um esforço nacional de planejamento familiar. E mais: que pouco se faça para aumentar o número de crianças nas creches e na pré-escola.

No dia seguinte ao da divulgação das estatísticas sobre mortes violentas no Brasil, uma pequena prova de nosso grau de vulnerabilidade apareceu em uma frase, que passou despercebida, de um secretário de Segurança.

Numa entrevista coletiva, o secretário da Segurança Pública de São Paulo, Saulo de Castro Abreu Filho, lavou as mãos publicamente, ao dizer que o poder de polícia chegou ao "limite". "A polícia está chegando ao limite da repressão. O que é repressão? É prisão. Temos 124 mil presos em São Paulo. Já não existe mais lugar para colocar os presos."

Vivemos o paradoxo, incômodo de ser reconhecido, de que, no regime democrático, se tem produzido muito mais violência do que nos tempos da ditadura - o que revela, no mínimo, uma incompetência coletiva de promover a inclusão social.

Diferentemente do que disse o presidente Lula na semana passada, talvez influenciado pela amena ótica palaciana, jamais sairemos da era das incertezas com esse grau de insegurança nas ruas -de nada adiantam certezas econômicas enquanto reina a incerteza sobre o que pode acontecer nas ruas.

Se o Estado mais rico do país não sabe onde colocar os presos e se o seu secretário da Segurança acredita que a polícia tenha chegado a seu limite, imagine o resto. Mais um ano se encerra e podemos dizer, sem exagero, que o país não levou a sério a questão da violência. Pode-se argumentar que faltam recursos, que a crise econômica provoca limitações orçamentárias, que a polícia sofre de carências crônicas, que o nível de desemprego assumiu proporções gigantescas.

Pode-se argumentar que a exclusão que germina há séculos no país é que é a nossa verdadeira herança maldita.

Mas, não bastasse a falta de recursos, existe a falta de um projeto nacional de combate à violência, coisa que aparece somente nas intenções de candidatos em período eleitoral.

Para o grau de selvageria a que estamos submetidos, funcionaria apenas um esforço nacional que envolvesse de modo coordenado o presidente, os governadores e os prefeitos, associados à comunidade. Isso significa, para começar, estabelecer uma política de juventude que atue preventivamente nas áreas de risco. Na falta de um projeto, abre-se espaço para "mágicas" do tipo diminuição da maioridade penal.

O problema é que cada um tem o seu programa, alguns dos quais bastante interessantes. Mas é onde prevalece a engenharia de parcerias que se encontram os melhores resultados.

Na semana passada, a Abrinq promoveu um seminário em que mostrava como prefeitos das mais diferentes cidades conseguem evitar que jovens, depois de passarem pela Febem, voltem a delinquir. O sucesso está na criação de uma teia capaz de envolver a família, o Estado, empresas e associações comunitárias. O trágico disso é que os milhares de boas experiências brasileiras -nem precisamos ir lá fora à procura de tecnologia social- ensinam que é possível prevenir, com baixo custo, a violência.

Nunca se falou tanto no país em responsabilidade social, mas a epidemia faz com que nos sintamos como se nunca tivéssemos sido tão vítimas de uma irresponsabilidade coletiva.

Sei que muitas ações estão ocorrendo: aumenta o número de empresas preocupadas com questões sociais, cresce o número de voluntários, avolumam-se experiências valiosas no setor público, fazendo notáveis avanços. Mas isso ainda é pouco.

PS - Por falar em irresponsabilidade coletiva, parte do aumento do número de mortes violentas se deve ao consumo de álcool, que está presente tanto nos homicídios como nas brigas. O bombardeio publicitário de estímulos aos jovens para que bebam mostra como ainda faltam proteções à sociedade. Chega a ser covardia que, de um lado, fortunas sejam gastas para associar bebida a sensualidade, alegria, força e, de outro, um punhado de gente esteja tentando explicar, sem recursos, os perigos do álcool. É como se estivéssemos todos de porre.


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