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24-03-04 O mau aluno que virou mestre
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"Cinema Paradiso"
Há um fato quase desconhecido, capaz de surpreender até mesmo especialistas na realidade social brasileira. Da população empregada na cidade de São Paulo no mês passado, cerca de 46% têm diploma de ensino médio ou superior. O que impressiona, porém, é a evolução desse indicador nos últimos 20 anos.
Considerando os dados de escolaridade de quem trabalha em São Paulo, segundo a Fundação Seade, notamos que o salto é expressivo. Em 1985, apenas 27% dos profissionais estavam naquela faixa de escolaridade. Em apenas uma geração, portanto, por pouco não se dobra o número de pessoas ocupadas com, no mínimo, 11 anos anos de estudo. Nesse período, o número de diplomados em alguma faculdade saltou de 9,8% para 14,6%.
Em 1985, 55% deles tinham só o ensino fundamental incompleto; agora, essa porcentagem baixou para 31%. Isso significa que, ano a ano, mais centenas de milhares de jovens cursam o ensino médio e superior. Em mais 20 anos, a seguir esse ritmo, quase todos terão, pelo menos, o ensino médio; um em cada três profissionais exibirá canudo universitário. Que significam esses números?
Significam várias coisas. Uma delas é positiva: as grandes cidades no geral e as metrópoles em particular estão promovendo um boom de conhecimento como nunca se viu em nossa história. Outra é negativa: não estamos preparados para essa demanda.
Mais uma prova desse despreparo foi divulgada na segunda, numa pesquisa da Unesco sobre o perfil do professor brasileiro das redes pública e privada. Veja o drama: 1) 45% nunca foram ou foram só uma vez a um museu; 2) 40% nunca foram ou foram só uma vez ao teatro; 3) 25% nunca foram ou foram só uma vez ao cinema. Na chamada era do conhecimento, cerca de 60% não usam internet ou e-mail.
Até porque sabem bem onde trabalham, alguns dos professores de escolas públicas optam (outros, se pudessem, optariam) por matricular seus filhos numa instituição particular.
Alguém sabe como se cria uma nação democrática sem escola pública de qualidade? Alguém sabe como se faz uma boa escola sem bons professores, conectados com o mundo? Resposta óbvia: isso é impossível.
Sei que é exigir muito, mas a melhor ação que o prefeito a ser eleito neste ano pode fazer para aprimorar o capital humano - a maior riqueza de sua comunidade - é investir na formação dos professores. Eleitoralmente, até compreendo por que não se investe mais dinheiro e energia nessa formação. São ações invisíveis, ao contrário da inauguração de obras. Além disso, a semente plantada hoje será colhida por outra pessoa - talvez muito tempo depois. Para complicar, a opinião pública não demanda essa prioridade, refém que é, muitas vezes, do show de marketing - ou, pior, refém da ignorância.
O que mais existe, até agora, são projetos fracos, inconsistentes, limitados, ao lado de algumas experiências que, embora sejam férteis, ainda estão escassamente disseminadas. No geral, o professor, principalmente de instituições públicas, é massacrado em salas superlotadas, com equipamentos defasados, em meio a alunos e famílias desmotivadas etc. Na prática, são heróis, cujo entusiasmo acaba sendo implacavelmente corroído.
A receita para o bom desempenho nem precisa ser inventada. Esteve na semana passada, no Brasil, Ary Wilson, referência nos Estados Unidos graças a suas experiências em escolas deterioradas em seu país. Ele virou uma estrela porque fez a lição de casa em escolas tidas como condenadas, localizadas em bairros pobres e violentos. Fez delas exemplos de aprendizado. Uma de suas dicas: os diretores devem ser não apenas profissionais habilitados a lidar com pedagogia mas líderes comunitários. "É o princípio básico de uma escola de qualidade", diz. "Eles são a peça motivadora dos professores, conectados com a riqueza comunitária."
Em geral, os programas de gestores escolares no Brasil formam, na melhor das hipóteses, pessoas limitadas à sala de aula. É tão óbvio que esse é o investimento mais barato que se pode fazer em educação e o de melhor retorno, mas pouco (para não dizer quase nada) se faz.
Uma das medidas, entre tantas, para avaliar a seriedade de um candidato a prefeito é saber o que pensa (e o que pretende fazer) para promover a qualidade dos professores e facilitar-lhes o acesso a bens culturais. O fenômeno paulistano, afinal, é só a vanguarda de uma tendência nacional.
Professor sem internet, que não lê jornal nem livro, não vai a museu nem a teatro, pode ser qualquer coisa menos um bom professor. É um professor que até pode conhecer alguns conteúdos curriculares, mas que, na prática, não sabe nada.
PS - Uma das melhores iniciativas comunitárias para ajudar os professores é dar-lhes o que chamo de "kit cultural". Através de parcerias com empresas e poder público, eles deveriam ter descontos para teatro, museus, cinema e concertos, além de facilidade para comprar livros, revistas e jornais. Esse é um investimento baratíssimo considerando o retorno. E, além de tudo, poderiam ser usadas leis de incentivo fiscal já existentes. Não é discriminação, mas apenas aposta num fator vital de desenvolvimento coletivo.