Cidade Escola Aprendiz 02 de abril de 2004

30-07-04   A caixa de brinquedos

09-06-04   Carta a um amigo

08-04-04   A Quaresma e a tristeza divina

02-04-04   Meu caro ladrão (ou ladra) ...

19-03-04   Quarto de Badulaques XLV

12-03-04   Quarto de Badulaques XLIII

05-03-04   Quarto de badulaques XLII

13-02-04   Quarto de Badulaques XLI

06-02-04   "Que seria de nós sem o socorro do que não existe?"

27-01-04   Sob o feitiço dos livros

26-12-03   Quarto de Badulaques XXXIX

08-12-03   Os pássaros e os urubus

01-12-03   Receita para milagre

27-11-03   Quarto de Badulaques XXXVIII

06-11-03   Quarto de badulaques XXXVI

31-10-03   Quarto de badulaques XXXV

19-09-03   Se eu pudesse viver novamente a minha vida...

12-09-03   Livros que dão alegria

29-08-03   Uma criança chora...

22-08-03   Quarto de badulaques XXX

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Meu caro ladrão (ou ladra) ...

Estou triste. Roubaram os CDs que eu mais amava, meus companheiros de viagem. Sozinho, no carro, com as janelas fechadas, livre da barulheira do trânsito, era como se eu estivesse num mosteiro no alto de uma montanha. No silêncio, sem ninguém que o perturbasse, eles me faziam fazer amor com a beleza. Aprendi até a marcar a duração das viagens pelo número de CDs que eu podia ouvir. Estavam guardados numa bolsa porta-CDs. Mas eu, distraído, deixei a dita bolsa sobre o banco do carro e me esqueci de fechar o vidro. A tentação devia ser muito forte para qualquer pessoa que passasse.

O furto é uma das nossas vocações primordiais. Santo Agostinho, nas suas Confissões, relata do seu prazer infantil em roubar pêras azedas de um vizinho, embora as pêras de sua casa fossem doces. Ele roubava pelo simples prazer de roubar. Se o ato de roubar não produzisse prazer não haveria cleptomaníacos. Os cleptomaníacos não roubam objetos valiosos. Pode ser um bombom, um carretel de linha, um dedal, numa loja Americana. O que dá prazer não é o objeto roubado, é o ato de roubar. Citando Ovídio, Nietzsche escreveu: ""Nitimur in vetitum" - esforçamo-nos na direção do proibido. O proibido tem um gosto delicioso... A alma tem prazer em roubar. É por isso que Deus escreveu no Decálogo: "Não furtarás". Se roubar não fosse um desejo da alma a proibição não seria necessária. Se é proibido é porque é desejado.

Pois uma pessoa, vendo o vidro do meu carro aberto e a bolsa de CDs no banco, e vendo que não havia ninguém por perto, roubou-a. O "Carnaval", de Schumann e a "Rapsódia Húngara no. 2, de Liszt, executadas por Arthur Moreira Lima; a "Sagração da Primavera", de Stravinsky; as quatro "Baladas" de Chopin (a balada n. 1 foi aquela que o pianista tocou para o oficial alemão no filme " O pianista"); as "Variações Goldberg", executadas por Glenn Gould; Ravel, concerto para piano e orquestra em sol (o segundo movimento é uma das peças mais lindas que jamais ouvi); "Lambarena", músicas de Bach com ritmos da África, em homenagem a Schweitzer; mais três CDs de Nelson Freire, pianista incomparável, nascido em Boa Esperança... E alguns que não são considerados clássicos mas que eu coloco entre eles: Piazzolla, executado por Arthur Moreira Lima (a peça "Oblivion", de uma imensa tristeza, era uma das favoritas do Guido Ivan de Carvalho); as trilhas sonoras do filmes "I am Sam" (em português, "Uma lição de amor") e "O paciente inglês." Mas não há de ser nada: devagar eu comprarei outros...

Já fui roubado muitas vezes: o livro "Enciclopédia das coisas que não existem", muitos outros livros, especialmente os de arte, dinheiro, uma jaqueta, uma serra elétrica, dois carros. Minha primeira reação diante do roubo é a de justa e inútil raiva. Uma enorme vontade de encontrar o ladrão e dar-lhe o castigo merecido. Mas ele já se foi. Não há nada que eu possa fazer. A raiva fica dentro de mim, remoendo...Mas ao sentimento de raiva seguiu-se um outro, que passo a explicar.

Conta-se que um colecionador de pássaros raros se apaixonou por uma mulher. Como nada é perfeito nesse mundo a sua amada vivia com a sua mãe, uma robusta matrona de aspecto feroz. E a condição para o casamento foi que a sogra teria de morar com os dois. Essa perspectiva o aterrorizava mas a paixão torna os homens surdos à voz da razão. Casaram-se e foram fazer uma viagem de lua de mel pelo oriente. A sogra ficou em casa com raiva, porque imaginou que seria levada junto com os pombinhos. Num mercado da Tailândia o marido viu um pássaro de canto maravilhoso e penas coloridas que não conhecia. Não resistiu: comprou-o para acrescentá-lo à sua coleção. Como seria muito incômodo levá-lo pelo resto da viagem resolveu enviá-lo para a sua casa, certo de que a sogra haveria de ser abrandada por sua beleza. Passados alguns dias ele lhe enviou uma mensagem: "Qual tal achou o pássaro?" A resposta veio rápida: "Delicioso".

Coisa parecida deve ter acontecido com os meus CDs de música clássica. Imagino que o ladrão - ou a ladra, nunca se sabe... - até se dispôs a ouvi-los. Mas logo após os primeiros acordes percebeu que não era nem rock e nem sertaneja - lixo portanto. Assim, jogou-os num terreno baldio onde devem estar até hoje.

A sogra não foi culpada de comer o pássaro. Também os gatos não são culpados de comer pássaros. O gosto musical da sogra era igual ao gosto dos gatos. Seus órgãos de apreciação estética eram a boca e o estômago. O ladrão, igualmente, não foi culpado de haver jogado os CDs no terreno baldio. Seus órgão de apreciação estética não previam música clássica. Ele era, portanto, musicalmente castrado. Assim, seguindo-se à minha reação irada, seguiu-se uma reação de tristeza. Fiquei triste por ver tanta beleza jogada fora... E, por vezes, até transformada em motivo de deboche.

Deboche. Vejam o que fizeram com a "Pour Elise", de Beethoven, uma peça simples, delicada, amorosa. Transformaram-na em anúncio de caminhão de gás. O cachorro de Pavlov ouvia o sino e se punha a salivar. As donas de casa ouvem a "Pour Elise" e dizem: "O caminhão de gás!" Acho mesmo prudente que empresários advirtam os pianistas de fora sobre os riscos de tocar "Pour Elise" como um bis, ao final do concerto... Faz tempo apareceu na televisão um comercial que era assim: um regente regendo uma orquestra. A peça era o coral da cantata 147, de Bach, "Jesus alegria dos homens". Mas, de repente, a beleza da música era interrompida por algo estranho: regente e músicos começavam a mexer com os seus narizes, como se estivessem sentindo um cheiro diferente. Sim, um delicioso cheiro de café. Ante a sedução nasal do cheiro de café o que é a beleza de "Jesus alegria dos homens"? Nada. O maestro pára a música e todos vão para a cozinha tomar cafezinho. Lição de estética: uma xicrinha de café é mais importante que a música de Bach.

Contaram-me que a cerveja Skol fez coisa parecida. Para vender a cerveja que desce redonda resolveram criar a imagem do oposto do redondo, o quadrado, como imagem do ridículo. E o que escolheram para simbolizar o quadrado ridículo? Um grupo de pessoas com cara de tédio, ouvindo música clássica. Moral do comercial: quem bebe Skol é muito mais interessante que os quadrados que ouvem música clássica. Beba Skol para ficar interessante e fuja da música clássica. (O que me levou a tomar uma decisão ideológica de procurar outras cervejas que tenham o gosto musical mais refinado...)

O meu amigo João Nunes resolveu assistir o último concerto da Orquestra Sinfônica. Foi para o teatro esperando momentos de silêncio e beleza. Mas suas expectativas foram frustradas. Dois casais não pararam de falar enquanto a violoncelista russa realizava o seu solo. Como a sogra feroz, os casais devoraram a música com o seu falatório. E, coincidentemente, viajando de avião li um artigo no "Jornal do Brasil" em que o articulista lamentava o fato de não haver clima para música clássica no Rio de Janeiro.

Que pena! Isso me dá um sentimento de grande solidão. A música clássica é parte da minha alma. Já escrevi um estória sobre isso, "O Barbazul". Mas fico com vergonha de revelar minhas preferências musicais. Acho que vão me por no comercial da Skol, como um chato entediado. Assim, reservo a música clássica para meus momento de solidão. Posso ouvi-la quando quiser, no volume que julgar apropriado, em silêncio, deitado no chão. Isso me dá alegria e põe o meu corpo e minhas idéias no lugar. Que é que posso fazer? A culpada foi minha mãe que tocava Beethoven, Chopin e Schubert ao piano quando eu era pequeno.

As crianças gostam de música clássica. E eu fazia meus filhos dormir com música clássica. Lembro-me do Sérgio que me pedia: "Papai, põe o disco do violão..." Não era violão; era um violino que estava na capa da "Pequena Serenata", de Mozart. Como é possível morrer sem ter jamais ouvido a Pequena Serenata?

Mas, de repente, me veio uma outra idéia: "E se o ladrão gostou da música?" Tudo é possível. Lembro-me do senhor Américo, homem que durante a vida toda só havia ouvido hinos religiosos... Aos 80 anos descobriu, acidentalmente, a música clássica. E passou o resto de sua vida ouvindo música clássica. Lembro-me da cara jovem que ele fazia ao relatar-me suas últimas descobertas musicais. Pois é isso que eu desejo, meu caro ladrão, minha cara ladra: que vocês descubram a beleza da música clássica! Isso vai torná-los melhores. Mas temo que não os cure do desejo de roubar. Ao contrário, pode até aguçá-lo. Por via das dúvidas tratarei de fechar sempre o vidro do meu carro porque pode ser que vocês passem por lá de novo...