30-07-04 A caixa de brinquedos
08-04-04 A Quaresma e a tristeza divina
02-04-04 Meu caro ladrão (ou ladra) ...
19-03-04 Quarto de Badulaques XLV
12-03-04 Quarto de Badulaques XLIII
05-03-04 Quarto de badulaques XLII
13-02-04 Quarto de Badulaques XLI
06-02-04 "Que seria de nós sem o socorro do que não existe?"
27-01-04 Sob o feitiço dos livros
26-12-03 Quarto de Badulaques XXXIX
08-12-03 Os pássaros e os urubus
27-11-03 Quarto de Badulaques XXXVIII
06-11-03 Quarto de badulaques XXXVI
31-10-03 Quarto de badulaques XXXV
19-09-03 Se eu pudesse viver novamente a minha vida...
12-09-03 Livros que dão alegria
22-08-03 Quarto de badulaques XXX
Carta a um amigo
Meu querido amigo: Havia tantos anos que
não nos víamos! E, de repente, num estacionamento, os
nossos caminhos se cruzaram. Dizem que isso se chama "coincidência"
- quando encontros acontecem acidentalmente, sem ter sido
preparados. De fato, foi um acidente. Não havíamos marcado
hora, não havíamos marcado lugar. E, na infinita possibilidade
de lugares, na infinita possibilidade de tempos, nossos
tempos e nossos lugares coincidiram. E deu-se o encontro.
Dizem alguns, entre eles Jung, se não me engano, que "coincidências"
não existem. Coincidências, eles dizem, só são coincidências
quando vistas na face direita do tapete. Mas, se pudéssemos
olhar o avesso, encontraríamos os fios do destino que
fizeram aquele encontro inevitável. Os homens vêem o direito;
os deuses tecem o avesso.
À coincidência segue-se sempre a surpresa: não estávamos
esperando! E foi assim mesmo. Tive uma surpresa alegre
ao vê-lo. Muito embora, nessa idade, os reencontros repentinos,
depois de muitos anos, causem um pouquinho de susto. Quando,
depois de vários anos, encontramos "aquilo" que conhecêramos
como uma menina, a reação automática é dizer: "Mas como
você cresceu! Você está uma moça!" Na "nossa" idade o
impulso é dizer: "Mas como você..............!" Deixei
o espaço em branco de propósito, para que você o completasse.
Sim, eu e você envelhecemos.
Mas o que me comoveu e convenceu de que aquela coincidência
fora planejada pelos deuses foi a sua primeira frase:
"Rubão, estou apavorado. A hora está chegando!" Sem explicações.
Eram desnecessárias. Você sabia que eu sabia o que você
estava dizendo. A morte está próxima. Chegará um dia em
que teremos de nos despedir desse mundo. Isso é verdade
para todos. Nunca se sabe em que esquina a morte nos aguarda.
Mas, quando jovens, espantamos o pavor dizendo que ainda
vai demorar muito. Na velhice esse consolo já não é possível.
( Ah! Pobres dos saberes acadêmicos que eu e você aprendemos
e ensinamos! Como eles nos deixam desamparados diante
do Grande Mistério!)
Tive uma grande vontade de abraçá-lo, mas fiquei com vergonha.
Senti "compaixão". "Compaixão" quer dizer "sentir com".
Eu senti o que você sentia. Já estive no seu lugar. Desde
a minha infância fui aterrorizado pela morte. Tinha medo
de dormir, pois temia que ela, valendo-se da minha distração,
me ferisse. Mas durante o dia, em meio aos brinquedos,
com meus amigos, eu me esquecia dela. Mas ela voltava
com o crepúsculo. Também aos domingos, quando eu ia à
igreja e lá o pastor ensinava que aqueles que não estão
bem com Deus ( o Deus dele, é claro...), seriam mandados
para o inferno, por toda a eternidade. Pelo medo os clérigos
católicos e protestantes conseguiam a submissão dos fracos.
Depois, por razões que desconheço, o meu terror pela morte
desapareceu. O "lado de lá" já não me assusta. Pois só
há duas possibilidades. Primeira: o "lado de lá" não existe.
Se não existe, serei devolvido ao lugar onde estive desde
o big-bang, treze bilhões de anos atrás. E não tenho a
menor memória ruim desses treze bilhões de anos. Pode
até ser que as mãos dos deuses que tecem o avesso me façam
nascer de novo. Se isso acontecer será ótimo porque gosto
muito de viver. Segunda: o "lado de lá" existe. Se existe,
estou tranqüilo. Como entendem os poetas, Deus é amor,
e sendo amor não posso imaginar que nada de mau esteja
à minha espera.
Muito do terror da morte resulta das coisas que nos ensinaram
nas igrejas, coisas que nossas mães nos ensinaram. São
sempre elas, as mães, as portadoras da religiosidade,
não sei bem porque. Talvez porque, tendo Deus ao seu lado,
elas consigam que seus filhos as obedeçam. Como se sabe,
Deus castiga as crianças que desobedecem as suas mães.
Por amor às nossas mães, continuamos a acreditar...
Mas as coisas que as religiões ensinam são invenções dos
homens. Um Deus de amor iria estragar o seu universo com
uma câmara de tortura chamada inferno? Pelo que sei Deus
é jardineiro e se ocupa com a beleza. Como disse Bachelard,
os tipos que inventaram o inferno tinham muitas vinganças
a realizar. Mas o amor não se vinga. Pelo menos foi isso
que aprendi de Jesus.
E o fato é que ninguém acredita. Se as pessoas religiosas
acreditassem que o céu é tão bom assim elas não iriam
tanto ao médico e não se esforçariam tanto para continuar
vivendo. Tratariam era de morrer logo para apressar sua
viagem para a colônia de férias permanente. O que elas
desejam, mesmo, é continuar nesse mundo tão bonito, tão
bom.
O que tenho não é medo. É uma tristeza. É-me insuportável
a idéia de ser expulso de campo...
Assim, não tenho palavras de consolo. "Com que tristeza
avisto o horizonte aproximado e sem recurso. Que pena
a vida ser só isto!" Era o sentimento da Cecília Meireles.
Os poetas dizem a verdade. E por falar em poetas, leia
o poema do Alberto Caeiro que começa assim: "Num meio
dia de fim de primavera..." É lindo. Trás paz à minha
alma. Trará paz à sua também. E gosto de rezar essa linda
oração. E nem é preciso acreditar em Deus. Basta se alimentar
das palavras. Como diz o evangelho, "a palavra é Deus".
Pelos que vão morrer
"Ó Tu, Senhor da Eternidade, nós que estamos condenados
a morrer elevamos nossas almas a Ti à procura de forças,
porque a Morte passou por nós na multidão dos homens e
nos tocou, e sabemos que em alguma curva do nosso caminho
ela estará nos esperando para nos pegar pela mão e nos
levar... não sabemos para onde.
Nós te louvamos porque, para nós, ela não é mais uma inimiga,
e sim um grande anjo teu, nosso amigo, o único a poder
abrir, para alguns de nós, a prisão da dor e do sofrimento
e nos levar para os espaços imensos de uma vida nova.
Mas nós somos como crianças, com medo do escuro e do desconhecido,
e tememos deixar esta vida que é tão boa, e os nossos
amados, que nos são tão queridos.
Dá-nos a graça de ter um coração valente para que possamos
caminhar por esta estrada com a cabeça levantada e com
um sorriso no rosto. Que possamos trabalhar alegremente
até o fim, e amar os nossos queridos com ternura ainda
maior, porque os dias do amor são curtos. Sobre ti lançamos
a carga mais pesada que paralisa nossa alma: o medo que
temos de deixar aqueles que amamos, os quais teremos de
deixar desabrigados num mundo egoísta. Nós confiamos em
ti porque durante toda a nossa vida foste o nosso apoio.
Ó tu, pai dos órfãos, protege os nossos pequeninos. E,
antes de partirmos, pedimos-te que chegue logo o dia no
qual os que estão morrendo morrerão sem medo, porque os
fracos já não mais serão as vítimas dos fortes, e a grande
família que é a nação a todo abraçará com sua força e
o seu cuidado.
Nós te agradecemos porque experimentamos o gosto bom da
vida. Somos-te gratos por cada hora de nossas vidas, por
tudo o que nos coube das alegrias e lutas dos nossos irmãos,
pela sabedoria que ganhamos e será sempre nossa. Se tivermos
de partir logo, sabemos que inda assim foi através de
ti que vivemos e a nossa vida continuará a fluir através
da raça humana. Pela tua graça nós também ajudamos a moldar
o futuro e a trazer dias melhores.
Se nos sentirmos abatidos com a solidão, sustenta-nos
com a tua companhia. Quando todas as vozes do amor ficarem
distantes e se forem, teus braços eternos ainda estarão
conosco. Tu és o pai do nosso espírito. De ti viemos e
para ti iremos. Regosijamo-nos porque, nas horas das nossas
visões mais puras, quando o pulsar da eternidade é sentido
forte dentro de nós, sabemos que nenhuma agonia da mortalidade
poderá atingir a nossa alma inconquistável e, para aqueles
que em ti habitam, a morte é apenas a passagem para a
vida eterna. Nas tuas mãos entregamos o nosso espírito."
( Walter Rauschenbusch, Orações por um mundo melhor)