Cidade Escola Aprendiz 12 de março de 2004

30-07-04   A caixa de brinquedos

09-06-04   Carta a um amigo

08-04-04   A Quaresma e a tristeza divina

02-04-04   Meu caro ladrão (ou ladra) ...

19-03-04   Quarto de Badulaques XLV

12-03-04   Quarto de Badulaques XLIII

05-03-04   Quarto de badulaques XLII

13-02-04   Quarto de Badulaques XLI

06-02-04   "Que seria de nós sem o socorro do que não existe?"

27-01-04   Sob o feitiço dos livros

26-12-03   Quarto de Badulaques XXXIX

08-12-03   Os pássaros e os urubus

01-12-03   Receita para milagre

27-11-03   Quarto de Badulaques XXXVIII

06-11-03   Quarto de badulaques XXXVI

31-10-03   Quarto de badulaques XXXV

19-09-03   Se eu pudesse viver novamente a minha vida...

12-09-03   Livros que dão alegria

29-08-03   Uma criança chora...

22-08-03   Quarto de badulaques XXX

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Quarto de Badulaques XLIII

Prometi que iria relatar o caso clínico do homem que confundiu a sua esposa com um chapéu. Não se trata de ficção. O que quero dizer com isso é que esse caso não é uma estória inventada, como "A Terceira Margem do Rio" ou "O afogado mais lindo do mundo". Mas que tem uma pitada de ficção, isso lá tem. Não conhecemos aquilo a que damos o nome de "fatos". Os ditos "fatos" são apenas uma matéria prima bruta que a imaginação, essa artista que mora em nós, usa para fazer suas "artes", no sentido duplo da palavra. Cada um conta do seu jeito...

Quem conta é Oliver Sacks, um famosíssimo neurologista. Aconselharia a todos que lessem os seus livros. São fascinantes, porque nos fazem entrar no mundo bizarro da alma humana. Pois ele foi procurado por um homem que a ele veio, empurrado por amigos, para lidar com algo estranho em sua forma de ver as coisas. Sacks relata a primeira entrevista, ele e o homem conversando de maneira normal, sem que fosse possível notar qualquer coisa que sugerisse alguma perturbação mental. Mas Sacks ficou intrigado com um sentimento estranho: ele tinha a impressão de que aquele homem que o encarava de frente não o estava vendo. Tinha os olhos perfeitos, via tudo, mas não via... Até que ele, Sacks, atinou com o mistério dos seus olhos: eles viam as partes perfeitamente bem, mas não eram capazes de juntar as partes num todo significativo. Via as orelhas, a boca, o nariz, os cabelos - mas os viam soltos, sem que se encaixassem para fazer um rosto. Sim, os olhos daquele homem não eram capazes de ver um rosto.

Diante de uma fotografia do seu irmão que lhe foi mostrada com a pergunta "Quem é essa pessoa?" ele se pôs imediatamente a descrever as partes da imagem com a maior precisão. A testa larga, os lábios finos, o nariz ligeiramente achatado, o maxilar... Esse maxilar, com esse ângulo me faz pensar... Sabe? Meu irmão tem um maxilar com um ângulo exatamente igual a esse. Será, por acaso, uma foto do meu irmão? "Ele foi incapaz de reconhecer o rosto do irmão. Chegou ao irmão através da geometria: a igualdade dos ângulos do maxilar. "O que é isso?" - Sacks lhe perguntou, mostrando-lhe uma luva. "Bem, trata-se de um saco maior do qual saem cinco sacos finos e compridos..." Isso é precisamente uma luva. Mas ele era incapaz de reconhecer, naquilo que via, uma luva. Seus olhos só percebiam as partes.

O interessante das patologias é que elas frequentemente não passam de traços comuns das pessoas ditas normais, aumentados por meio de uma lupa. A patologia, assim, serve-nos como um espelho. As grande bizarrices da patologia são nossas pequenas bizarrices vistas através de um "zoom"... Como é o caso do homem que assistiu a um concerto e dele o que mais o impressionou foi a calva do clarinetista... Às vezes eu tenho a impressão de que a especialização científica pode produzir um efeito semelhante: os cientistas se tornam especialistas nas partes e as conhecem com grande precisão. Mas ficam perdidos quando se trata de ver o "rosto" da realidade. Na verdade nem mesmo reconhecem o seu próprio rosto quando o vêem no espelho. Essas associações foram provocadas pelo homem, desconhecido, que toma a sopa mas só percebe o lascado na beirada do prato...

Existe uma grave falha na minha formação: não aprendi a jogar xadrez, talvez o jogo mais fascinante jamais inventado. Claro, conheço as peças e sei movê-las. Mas, no xadrez, sou como o dito homem descrito por Sacks: não consigo perceber o "rosto" do jogo. Não me dediquei à aprendizagem da totalidade. E na guerra quem não tem a visão do todo, perde. Eu perco sempre e rápido. Xadrez é um jogo de guerra. Ou de política. Porque política e guerra são a mesma coisa. A guerra é a política quando feita com o uso das armas. Claro que na política se faz uso de armas também. Mas esse uso é dissimulado.

Xadrez: dois exércitos que se defrontam. O confronto só é possível graças a um espaço vazio. Se não houvesse esse espaço as peças ficariam imóveis, sem sair do lugar. O objetivo é mover as peças de tal forma que, ao final, o rei adversário fique sem saída e abdique. O que se chama "xeque mate". No tabuleiro estão presentes as forças, cada uma delas com um potencial de fogo diferente. Os bispos, se movendo sempre na diagonal. Os cavalos, se movendo aos saltos. As torres, nas horizontais e nas perpendiculares. Os peões, infantaria, andam na frente, um passo de cada vez. Serão as primeiras vítimas na batalha. E a rainha, poder supremo, que desliza nas horizontais, nas verticais e nas diagonais!

Com certeza o inventor do jogo morava num país em que quem mandava era a rainha, o rei sendo nada mais que um fantoche, um símbolo, uma simples bandeira, com pouquíssimo poder de ataque, e que fica o tempo todo se escondendo por saber que o exército inimigo está atrás dele. Há muitos estilos diferentes no jogo. Mas, qualquer que seja o estilo, uma coisa é certa: as regras são fixas. Os jogadores têm liberdade para escolher o estilo, mas não têm liberdade para escolher as regras. Não é possível jogar o jogo do poder com ética. Porque o poder não conhece limites. É insaciável. Quer crescer cada vez mais. Deseja ser absoluto. E a ética é um empecilho a essa pretensão. Não existe lugar para ética no tabuleiro.

Há uma única pergunta: "Que movimento fazer para derrotar o adversário?" Isso é verdadeiro para o jogo de xadrez, o jogo econômico e o jogo político. Maquiavel, Marx e Weber sabiam disso. A ética é sempre invocada pelos que estão perdendo. Não conheço caso de partido no poder que tenha invocado princípios éticos para colocar limites ao seu uso de poder. Transparência! Que lindo princípio ético! Somente um louco seria transparente! Ser transparente é ser vulnerável. E quem é vulnerável fica fraco.

Maquiavel, nos seus conselhos ao Príncipe, faz a seguinte pergunta: "O que é mais importante? Que o príncipe seja virtuoso ou que o príncipe pareça ser virtuoso?" A ética responderia: "Que ele seja virtuoso, transparentemente virtuoso!" A esperteza política responde: "Que ele pareça ser virtuoso. O que o príncipe é, na realidade, deve ser protegido dos olhos por uma cortina opaca .."

O jogo de xadrez pode muito bem nos ajudar a entender o nosso momento político. Tudo se faz para "parecer ser" e tudo se faz para evitar a transparência. Compreende-se o esforço do governo para preservar a "rainha". Afinal de contas é a peça mais importante para proteger o "rei"... É preciso entender: ninguém é culpado. Os jogadores não têm alternativas. Eles têm de se submeter às regras. Assim é a política, sempre.

Tive um sonho: é o título de um livro delicioso, escrito pela psicanalista Irene de la Puente. Eu fico logo aflito quando alguém me dá um livro de sua autoria. Pode ser que não me agrade... Pois o livro da Irene me agarrou e não descansei enquanto não o li de cabo a rabo. Juro que você vai gostar. Já se encontra nas livrarias Liubliu (Barão Geraldo), Technart, do shopping D. Pedro, e da Unicamp.

Canários da Terra: Moravam nas árvores da minha infância. Amarelos, cabeça vermelha, eram também conhecidos como "Cabecinhas de fogo." Aos poucos foram sumindo. Pensei que haviam nos abandonado, definitivamente. De medo. Para sobreviver. Teriam ido para longe dos homens...Bachelard, falando sobre sua experiência com um pássaro que havia feito um ninho em seu jardim, nos descreve como aqueles que perderam a confiança dos pássaros. E com razão. Tantas coisas horríveis lhes fizemos. Nos meus dias de infância o esporte favorito dos meninos era matar passarinhos com estilingue, pelo puro prazer de matar. Ou engaiolá-los.

Há uma canção do Chico sobre a passarada onde a alegria é sempre interrompida pelo refrão "...o homem vem aí, o homem vem aí." Mas eles estão voltando. Sempre que passo no cruzamento da Maria Monteiro com a Sampainho, pelas manhãs, ouço o canto de um "Cabecinha de Fogo. Espero que o seu canto venha do alto de uma palmeira e não de dentro de uma gaiola! Pois nos dias de Carnaval, nas montanhas de Minas, vi um espetáculo maravilhoso que nunca imaginei que existisse: bandos de mais de 50 canários da terra, voando. Isso me deu alegria. E esperança. Pena que os nossos meninos não saibam o que são Canários da Terra e nem saibam identificar o seu canto. Deveriam aprender isso nas escolas. Versão pedagógica de um ditado velho: "Vale mais um pássaro voando que um dígrafo e uma mesóclise na prova."