Cidade Escola Aprendiz 13 de fevereiro de 2004

30-07-04   A caixa de brinquedos

09-06-04   Carta a um amigo

08-04-04   A Quaresma e a tristeza divina

02-04-04   Meu caro ladrão (ou ladra) ...

19-03-04   Quarto de Badulaques XLV

12-03-04   Quarto de Badulaques XLIII

05-03-04   Quarto de badulaques XLII

13-02-04   Quarto de Badulaques XLI

06-02-04   "Que seria de nós sem o socorro do que não existe?"

27-01-04   Sob o feitiço dos livros

26-12-03   Quarto de Badulaques XXXIX

08-12-03   Os pássaros e os urubus

01-12-03   Receita para milagre

27-11-03   Quarto de Badulaques XXXVIII

06-11-03   Quarto de badulaques XXXVI

31-10-03   Quarto de badulaques XXXV

19-09-03   Se eu pudesse viver novamente a minha vida...

12-09-03   Livros que dão alegria

29-08-03   Uma criança chora...

22-08-03   Quarto de badulaques XXX

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Quarto de Badulaques XLI

Não escrevi nada sobre a Hilda Hilst. A sua poesia me deixa mudo. Quando a leio tenho a sensação de estar no meio de uma floresta densa, encantada, cheia de mistérios. Frost escreveu: "Os bosques são belos, sombrios, fundos..." Nos bosques belos, sombrios, fundos há silêncio. Assim eu faço silêncio diante da Hilda e da poesia que a escolheu. Sinto que cada palavra minha seria profanação de um lugar sagrado.

É preciso entender que os poetas nunca falam sobre as coisas sobre que estão a falar. Falam sobre as coisas para falar sobre si mesmos. É isso que são as metáforas. Retratos da alma. Fernando Pessoa escreveu sobre as estrelas... Tão distantes. Mas era sobre si mesmo que falava. "Tenho dó das estrelas / luzindo há tanto tempo, / há tanto tempo.../ Tenho dó delas. / Não haverá um cansaço das coisas, / de todas as coisas, / como das pernas ou de um braço? / Um cansaço de existir, / de ser, / só de ser, / o ser triste brilhar ou sorrir.../ Não haverá, enfim, / para as coisas que são, / não a morte, / mas sim uma outra espécie de fim, / ou uma grande razão - qualquer coisa assim / como um perdão?" Sim, ele estava muito cansado. Seu cansaço deveria ser tão grande como o cansaço das estrelas, brilhando sem fim, desejando apagar e dormir.

Debussy musicou um poema de Mallarmé, "La Cathèdral Engloutie", a catedral submersa. Ouvindo a música a fantasia nos leva para as funduras do mar, a luz se filtrando através das águas inquietas, vitrais de corais, anêmonas, peixes coloridos e os nossos olhos, "dois baços peixes", à procura, encantados. E se ouve o som dos sinos misturado ao silêncio das águas... Místico.

Pensei em escrever um poema parecido, "La biblioteque engloutie", a biblioteca submersa... Essa idéia me veio quando me lembrei de algo que aconteceu em 1964. Eu acabara de voltar dos Estados Unidos onde passara um ano, estudando. Logo depois do golpe. Meus livros haviam ficado em Lavras, Minas, onde eu fora pastor de uma igreja presbiteriana. Eu havia sido delatado como subversivo embora jamais tenha pertencido a qualquer organização política. Por todos os lados pululavam os delatores.

Em tempos de violência política a delação é uma prova de amor e subserviência aos donos das armas. A delação liga os delatores aos poderosos, o que lhes dá uma deliciosa sensação de poder impune: "Os outros estão à mercê da minha palavra!". Precisava eliminar as provas da minha subversão. Os livros. Em tempo de ditadura pensar é crime. Só se permitem hinos patrióticos. Livros completamente inocentes. Um deles, "Communism and the theologians", um simples relatório de opiniões de teólogos sobre o comunismo, tinha a capa vermelha com a foice e o martelo. Não poderia esperar que o capitão inquisidor soubesse inglês e se desse ao trabalho de ler. As fogueiras já estavam acesas. Era preciso encontrar as bruxas para justifica-las. Os militares haviam tomado conta da cidade. Muitas pessoas presas. Eu seria uma das próximas. Impossível queimar os livros. Um amigo meu, Sílvio Modesto, fazendeiro, fez a sugestão: que eu ensacasse os livros e ele os jogaria no fundo do rio Grande. Foi o que fiz. Dezenas de livros foram para o fundo do rio Grande. Devem estar lá, acervo da biblioteca submersa "Rubem Alves", frequentada por lambaris, piabas e dourados... Algum compositor se oferece para musicar o meu poema?

Patativa do Assaré: "Prá gente aqui ser poeta /não precisa professor. / Basta vê no meis de maio / um poema em cada gaio /um verso em cada fulô." "Prefiro falá as coisa certa com as palavra errada a falá as coisa errada com as palavra certa".

As férias podem ser perigosas porque elas nos expõem a experiências insólitas. Camus sabia disso e disse que viajava só prá ter medo. Pois uma coisa incomum me aconteceu nas últimas férias que jamais poderia ter acontecido em Campinas. Peguei um berne. Ou melhor, uma mosca varejeira me pegou. Prá quem não sabe varejeira é uma mosca caipira parecida com as moscas urbanas, só que maior. Não querendo se ocupar com os incômodos da maternidade ela põe seus ovos em carne viva, boi, cães, seres humanos. Assim ela garante o alimento da larva sem ter de se preocupar. (Há uma vespa que faz a mesma coisa. Caça uma aranha de abdomem gordo, leva-a para dentro de sua toca, imobiliza-a com um líquido paralisante, põe seus ovos sobre sua gorda barriga e se manda, para nunca mais. Quando nascem as larvas elas têm carne fresquinha à sua disposição, sem que a aranha possa fazer qualquer coisa...)

A gente não sente quando a varejeira pousa na pele. Sente só quando ela enfia o ferrão e põe o ovo. Aí o ovo vai crescendo... Coceira. Ferroadas a intervalos. Espremer não adianta porque o berne não é bobo, refugia-se no fundo da carne. Vai crescendo, engordando, na forma de um mini-vulcão com uma mini-cratera, respiradouro. Os homens do campo se valem de um artifício simples para extrair o berne. Colocam um pedaço de toucinho sobre o vulcanículo, preso com um esparadrapo. O berne fica sem ar, sufocado. Trata de procurar ar para não morrer. Vai para a superfície e entra dentro do toucinho. Aí é só tirar o esparadrapo que o berne está lá. Não sei direito o que acontece se o berne se desenvolver até o fim. Acho que ele se transforma em varejeira e sai voando. Tive calafrios ao pensar nisso. Lembrei-me do filme " Alien..."

O berne me fez pensar que o mundo está cheio de varejeiras que nos injetam ovos que vão crescendo vida afora, dando ferroadas. Malditos bernes que não podem ser espremidos com toucinho porque se alojam nos sentimentos e nas idéias. Tenho muitos bernes na minha alma, bernes que coçam e dão ferroadas. O problema é que eles, por oposição aos bernes da varejeira, não saem voando, gostam de permanecer bernes dentro da alma. Com o tempo a gente até passa a gostar deles, em virtude de sua coceirinha. Ficam porque gostamos... Meu berne não saiu nem com toucinho e nem com espremeções. Precisei apelar para a ação de uma dermatologista que teve de fazer uma mini-cirurgia... Agora estou livre de ferroadas e coceiras.

Gosto do apartamento em que vivo. A vista é muito bonita, vê ao longe... Quando o vento é forte ele assobia de forma sinistra e musical. Minha filha Raquel, paisagista, me fez um lindo jardim na pequena varanda. Assentado na sala ouço música (nesse momento estou ouvindo o final da Abertura 1812 de Tchaikovski) , vejo o jardim, a cidade, a chuva e gozo o vento na minha pele. Mas tenho uma tristeza. Moro no oitavo andar. Os passarinhos não me visitam. Tentei. Pus comida para eles. Inutilmente. Guimarães Rosa diz que há dois tipos de altura: altura de urubu ir, e altura de urubu não ir. Quem sabe só urubu tem coragem de subir até a altura do oitavo andar...

Se eu pudesse acrescentaria um novo direito à lista de Direitos Humanos: "Toda pessoa tem o direito ao silêncio na sua casa." A casa é o meu espaço. Quero silêncio para ler um livro, escutar a música de que gosto, conversar com os amigos. Se eu resolver ouvir os meus CDs a todo volume, depois das 22 horas, meus vizinhos protestarão e a assembléia do prédio me obrigará ao silêncio. O respeito ao silêncio é uma das provas de cidadania. Como todo mundo sabe a minha liberdade vai somente até o lugar onde se inicia a liberdade do outro.

Mas o fato é que o barulho de alguns barzinhos torna a vida dos vizinhos um inferno. Um amigo meu, com a esposa gravemente enferma, sofrendo muitas dores, tinha de conviver com a barulheira do famoso bar da esquina, cujo nome não quero dizer mas que, se preciso for, eu direi. Uma amiga tem de deixar o seu apartamento porque o barulho do barzinho recém aberto, na rua Pe. Vieira, é infernal. Faz uns dias um tradicional bar do Centro de Convivência patrocinou uma noite musical e o som se ouvia a vários quarteirões de distância. Parece que as autoridades ou não se interessam ou não sabem o que fazer. Uma vez chamei a polícia para por fim a um barulho insuportável às 5 horas da madrugada. Responderam-me que nada podiam fazer.

Assim, quero fazer uma sugestão para acabar com o barulho dos barzinhos. É fácil. Basta que os vizinhos estejam de acordo. Seguindo a sabedoria homeopática que diz que semelhante se cura com semelhante, digo que som alto se cura com som alto. Sugiro, então, que os vizinhos que não podem gozar o silêncio das suas casas se organizem. Arranjem um bom aparelho de som. Coloquem-no na janela de um apartamento, direcionado para o barzinho barulhento. E aí toquem, a todo volume... música clássica. Inimigo maior do barulhos dos barzinhos que música clássica não existe. Sugiro: o 1o. movimento do concerto n. 1 de Tchaikovski, a Abertura 1812, especialmente a parte onde entram em ação os sinos e as salvas de artilharia, o último movimento da 9a. sinfonia, o coro dos ferreiros da ópera Ainda. Garanto que todos fugirão apavorados. "Amantes do silêncio: uni-vos!"